Goiânia estreia ônibus a gás com cilindros 70% mais leves e autonomia de 400 km

Com projeto desenhado para atender às exigências da Nova RMTC, veículos recebem conjunto Marcopolo e Scania

Por Gustavo Queiroz

- março 30, 2026

8 ônibus a gás foram incorporados à frota da nova RMTC

Em um marco histórico para o transporte coletivo nacional, a Marcopolo e a Scania realizaram a entrega das primeiras unidades de ônibus articulados movidos a gás/biometano já produzidos no Brasil. As oito unidades inaugurais, que integram um programa mais amplo que prevê a incorporação de 501 ônibus movidos a biometano até 2027, serão destinadas à operação no BRT Leste-Oeste – também denominado Eixo Anhanguera –, principal corredor de transporte da capital goiana, consolidando o município como referência nacional na adoção de combustíveis renováveis para a mobilidade urbana.

A cerimônia oficial de entrega, realizada no Terminal Padre Pelágio, que passou por processo de modernização e foi reinaugurado na ocasião, marcou o anúncio da implantação da primeira usina de geração de biometano do estado de Goiás, em parceria com o pioneiro gasoduto goiano, reforçando os avanços da Nova Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC), que recebe investimentos superiores a R$ 2,5 bilhões.

Chassis

Os veículos entregues são construídos sobre o chassi Scania K 340C A6X2/2 NB Euro 6, configurado especificamente para aplicação em transporte urbano de alta capacidade. Conforme detalha Rafael Abranches, engenheiro de Produto de Oferta de Soluções da Scania, a nomenclatura do modelo segue a lógica de identificação da montadora em que o prefixo “K” indica a posição do motor na porção traseira do chassi, enquanto o numeral “340” refere-se à potência nominal de 340 cavalos entregues pelo propulsor OC09 de cinco cilindros e 9 litros de cilindrada, que opera em ciclo Otto. O motor foi concebido para queima de gás, não se tratando de uma conversão de motor diesel. O propulsor desenvolve torque de 1.600 Nm na faixa entre 1.400 e 1.600 rpm, atendendo às exigências severas do ciclo urbano, caracterizado por constantes acelerações, desacelerações e regime de andar-e-parar.

Scania k 340C A6x2/2 NB – gás
Dimensões do chassi Scania k 340C A6x2/2 NB – gás | Foto: Divulgação

A transmissão é realizada por meio de uma caixa automática ZF modelo 6AP1420, de seis marchas, com torque de entrada nominal de 1.400 Nm e retarder integrado. Conforme explica Abranches, a especificação dessa transmissão automática para aplicação urbana deve-se ao acoplamento hidráulico presente nesse tipo de equipamento, que elimina o contato mecânico característico da embreagem convencional, resultando em intervalos de manutenção significativamente estendidos quando comparados a sistemas de transmissão manual ou automatizada com embreagem mecânica.

O trem de força atende à norma de emissões Euro 6, e o chassi é equipado com suspensão pneumática (suspensão a ar) nos eixos dianteiro e traseiro, sistema eletrônico de freios com programa eletrônico de estabilidade (ESP), ajustador automático das lonas de freio e bloqueio de saída acionado quando as portas permanecem abertas. O conjunto de rodas utiliza pneus 295/80 R22,5, e o sistema elétrico opera em tensão nominal de 24 V, com alternadores de 2×150 A ou 2×180 A e baterias de 2×180 Ah ou 2×225 Ah, conforme especificação.

Cilindros tipo 4

Um dos diferenciais técnicos de maior relevância nos novos articulados reside no sistema de armazenamento de gás/biometano. Os veículos utilizam sete cilindros do Tipo 4, importados da Alemanha por meio da parceria com a empresa Hexagon Agility. Esses cilindros são construídos em fibra de carbono e fibra de vidro, conferindo leveza estrutural, sendo 70% mais leves que os cilindros convencionais, fator que contribui para a redução da massa total do veículo e para a otimização do consumo energético.

Motor traseiro
Motor traseiro | Foto: GQ/Frota&Cia

Cada cilindro possui capacidade individual de 235 litros, totalizando 1.645 litros de capacidade geométrica no conjunto. No entanto, conforme esclarece Abranches, o abastecimento não é mensurado em litros devido à variável pressão de enchimento; convertendo-se para metros cúbicos nas condições operacionais, o volume armazenado alcança aproximadamente 362 m³. Essa configuração confere aos veículos autonomia superior a 400 quilômetros, desempenho equivalente ao de ônibus movidos a diesel e suficiente para cobrir com folga o giro diário operacional previsto para o BRT Leste-Oeste.

Os cilindros são instalados no teto da carroceria, uma configuração inédita no Brasil para essa tecnologia, posicionamento que demandou intervenções estruturais específicas na carroceria para garantir os pontos de ancoragem, a distribuição de cargas e a integridade do conjunto. O roteamento das tubulações de gás desde os cilindros até as tomadas de abastecimento foi cuidadosamente projetada, contemplando dois bucais de abastecimento, sendo uma em cada lateral do veículo, para facilitar a operação logística nos terminais e garagens.

Carroceria Marcopolo Viale Express Articulado

A carroceria aplicada sobre o chassi Scania é o modelo Viale Express Articulado, desenvolvido pela Marcopolo em configuração específica para atender às demandas operacionais do sistema BRT de Goiânia e da Nova RMTC. Alexandre Cervelin, gerente Comercial da Marcopolo, detalha que a principal intervenção de engenharia para adequação ao biometano foi justamente a instalação dos sete cilindros Tipo 4 no teto, com todas as implicações estruturais decorrentes.

Carroceria Marcopolo Viale Express Articulado
Carroceria Marcopolo Viale Express Articulado | Foto: Divulgação

Para suportar o peso dos cilindros no teto e garantir a integridade da estrutura frente às solicitações dinâmicas típicas da operação urbana, tais como frenagens, acelerações e irregularidades do pavimento, a Marcopolo realizou um rearranjo completo da estrutura da carroceria. Esse redesenho estrutural incorporou ligas especiais de aço, que oferecem maior resistência mecânica e menor densidade em comparação ao aço carbono convencionalmente utilizado na fabricação de carrocerias. O projeto, que envolveu as equipes de engenharia da Marcopolo, Scania e Hexagon Agility em um trabalho colaborativo de seis meses (considerando o desenvolvimento do projeto, a fabricação e os processos de homologação e certificação), culminou em uma janela produtiva de 130 dias para a fabricação das unidades iniciais.

O veículo apresenta comprimento total de 19,22 metros e capacidade para transportar 145 passageiros, distribuídos em configuração de piso alto. Uma característica distintiva dessa configuração para Goiânia é a presença de seis portas, sendo três portas de embarque em nível no lado esquerdo do veículo, destinadas à operação em estações de BRT com plataformas elevadas, e três portas com degraus no lado direito, para atendimento em pontos de parada convencionais. Essa dupla sensibilidade de embarque viabiliza a operação mista em corredores exclusivos e vias convencionais, característica essencial para a abrangência do sistema.

O interior é equipado com poltronas estofadas modelo City, dotadas de entradas USB e USB-C para recarga de dispositivos eletrônicos, piso amadeirado, iluminação full LED, ar-condicionado, sistema de monitoramento por câmeras integrado à operação do BRT, e espaço dedicado a pessoas com mobilidade reduzida, com rampa e elevador. O posto de trabalho do condutor foi ergonomicamente desenhado para proporcionar conforto e segurança ao longo da jornada de trabalho, e a configuração inclui facilidades de acesso aos componentes do motor e do sistema de gás para manutenção.

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