A conectividade no campo e em regiões de desastres naturais é um desafio constante. No agro, grandes propriedades enfrentam “zonas de sombra” onde o sinal de internet e telefonia some, prejudicando o monitoramento de máquinas, drones e sistemas de gestão. Em situações de emergência, como enchentes ou deslizamentos, a queda das torres de comunicação deixa populações isoladas sem acesso a socorro.
Foi pensando nesses dois cenários que a HPE Automotores, representante da Mitsubishi e Suzuki no Brasil, em parceria com empresas de tecnologia como TIP Telecomunicações, Nokia, Motorola, Elsys e Primefield, desenvolveu a Triton Agro Link, uma picape 4×4 equipada com antenas LTE, gerador de energia e sistemas de amplificação de sinal capazes de levar internet a locais inacessíveis.
Em entrevista exclusiva, Fábio Maggion, gerente de Planejamento Estratégico da HPE Automotores, detalhou a origem do projeto, as inovações técnicas e as aplicações práticas do veículo, que entrará em fase de testes operacionais a partir da segunda quinzena de junho.
Como nasceu a Triton Agro Link

A ideia surgiu após a observação de um problema crítico: a interrupção de comunicações em catástrofes. “A gente teve um episódio muito grave no Rio Grande do Sul, com enchentes que cortaram redes de energia e comunicação. As torres de celular têm baterias de backup, mas depois de dois ou três dias, se a energia não volta, o sinal some. Muita gente ficou ilhada, com celular carregado, mas sem conseguir pedir ajuda“, explica Maggion.
A solução inicial, batizada de Triton Help Link, foi pensada para a Defesa Civil como um veículo robusto, com gerador próprio, capaz de chegar a áreas de difícil acesso e reestabelecer o sinal via Starlink (internet via satélite) e reconvertê-lo em LTE (4G). “O carro levanta uma antena de até 8 metros, conecta-se ao Starlink e redistribui o sinal em um raio de até 20 km“, diz o executivo.
Porém, durante o desenvolvimento, a equipe percebeu que a mesma tecnologia poderia resolver um problema crônico do agronegócio, que ficou conhecido como “zonas de sombra” em fazendas. “Muitas propriedades já têm torres privadas de LTE, mas morros e relevo acidentado criam áreas sem sinal. Com a Triton Agrolink, estacionamos o veículo próximo a essas zonas, amplificamos o sinal existente ou usamos o Starlink, e garantimos cobertura para máquinas, drones e sistemas de gestão“, afirma Maggion.
Tecnologia embarcada
A Triton Agrolink não é uma picape comum, mas que adota como base o modelo Mitsubishi L200 Triton com modificações para operar em terrenos extremos, incluindo pneus Wrangler Duratrac da Goodyear para todo terreno, sendo os mesmos que calçam a L200 Triton Sport Savana. O veículo também é equipado com Snorkel para atravessar rios e áreas alagadas de até 700 mm de profundidade; rock sliders, que são proteções laterais para evitar danos em pedras e obstáculos; revestimento interno à prova d’água e poeira; e refletores e faróis auxiliares para operações noturnas.
“Mas o coração do sistema está na tecnologia de telecomunicações, que contempla antena LTE da Nokia com mastro pneumático de 8 metros, capaz de redistribuir sinal 4G em um raio de até 20 km. A Starlink fornece conexão via satélite quando não há infraestrutura terrestre disponível. O Elsys AmpliMax, que capta sinais fracos de torres distantes (até 60 km) e os amplifica para uso local. Tem o gerador de energia para alimentar todo o sistema sem sobrecarregar a bateria do veículo. Dependendo da necessidade, o cliente pode priorizar o 4G (mais amplo) ou o 5G (mais rápido). Também é possível usar Wi-Fi para áreas menores“, explica Maggion.
Aplicações práticas

Apresentado em versão protótipo nas feiras como Agrishow (em Ribeirão Preto/SP), como Triton Agro Link, e LAAD Defence & Security (no Rio de Janeiro), como Triton Help Link, o gerente de Planejamento Estratégico da HPE reforça suas possíveis aplicações no agro, incluindo monitoramento e telemetria em tempo real, viabilizando, inclusive, o uso de drones de monitoramento, pulverização e entregas; máquinas conectadas e autônomas; e gestão de rebanho, por exemplo.
Para operações de emergências, como socorro em zonas de desastre, o Help Link pode ser adotado no restabelecimento de comunicação em situações de enchentes, incêndios e deslizamentos. Também pode ser empregado no apoio a equipes de resgate por meio de redes privativas para bombeiros e Defesa Civil.
Outras possíveis aplicações são para os setores de mineração e controle de fronteiras pelas Forças Armadas, permitindo a disponibilidade de cobertura em áreas de escavação, onde paredes de terra bloqueiam o sinal, assim como em regiões remotas, como bases da Marinha ou postos de fronteira, por exemplo. “Um caso que estamos testando é levar sinal para embarcações. Basta estacionar o veículo próximo à costa e amplificar a rede para o mar“, revela Maggion.
Testes e mercado potencial
O primeiro teste está marcado para o final de junho com um cliente importante (não revelado por confidencialidade). “Serão 11 dias de testes, incluindo simulações de emergência“, adianta Maggion.
Sobre o tamanho do mercado para este produto, ele é cauteloso, pois pode variar bastante diante das vendas ao governo, por exemplo. “Uma licitação pode demandar 2.000 veículos. Já uma cooperativa agrícola pode precisar de apenas duas ou três unidades para atender produtores da região. Ainda estamos medindo a demanda“, avalia o executivo.
O preço final também não foi fechado, pois varia com a configuração (4G, 5G, tipo de antena). “Mas a ideia é que seja vendido tanto para PJs (fazendas, mineradoras, governo) quanto para PF, como um produtor que precise de conectividade pontual“, esclarece.
Parcerias e desafios: a lição por trás do projeto
Maggion destaca que o maior aprendizado foi a integração entre setores distintos. “Parece simples juntar uma montadora, uma empresa de telecom e uma fornecedora de satélite, mas há desafios contratuais e técnicos enormes. O AmpliMax, da Elsys, por exemplo, foi uma descoberta que deu redundância ao sistema — se o Starlink falhar, ainda temos o sinal terrestre amplificado“.
Para ele, a velocidade na execução foi crucial. “Em meses, saímos do conceito para um veículo operacional. Isso mostra como empresas com focos diferentes podem colaborar quando há um objetivo comum“, avalia.
Expansão para outros segmentos
Com dois nomes no mesmo produto para ampliar a sua presença no mercado nacional, o Agro Link atende ao agronegócio, enquanto o Help Link é direcionado para as outras frentes comerciais. “O cliente define a necessidade. Pode ser um carro para o agro, para defesa civil ou até para levar internet a comunidades ribeirinhas. A tecnologia é a mesma, só muda a aplicação“, finaliza Maggion.
Enquanto aguardam os resultados dos testes, a HPE e seus parceiros já estudam novas versões, incluindo opções com 5G privado e maior autonomia energética. Em um país com áreas remotas e infraestrutura limitada, tecnologias e serviços como a Triton Agro Link podem garantir desde o socorro durante emergências até melhorar a eficiência operacional de atividades estratégicas para a economia regional e nacional.

