Pesquisas desenvolvidas pelo laboratório de aplicações da BASF em Bogotá, Colômbia, estão propondo respostas técnicas sofisticadas para dois dos desafios mais prementes da infraestrutura viária moderna: a vulnerabilidade do asfalto aos derrames de combustíveis e a necessidade urgente de reduzir a dependência de materiais de origem fóssil. Os estudos “Medición en Desempeño a Nivel Laboratorio de un Riego para Evitar el Daño Causado por Derrames de Hidrocarburos en Superficies Asfálticas” e “Formulación de una Emulsión Asfáltica para Slurryseal Usando un Asfalto Biobasado“, ambos de autoria de Luis Fernando Borrero Tamayo, Katerin Daniela Rodríguez Ariza e Maria Paula Oliveros Trujillo, detalham abordagens complementares que visam aumentar a resiliência e a sustentabilidade dos pavimentos.

A primeira pesquisa parte de uma premissa crítica bem documentada na literatura técnica, que trata da alta afinidade química entre os hidrocarbonetos (gasolina, diesel, óleo) e o ligante betuminoso. Como destacado em trabalhos como os de Balwin et al. (2005) e Gong et al. (2025), esse contato desencadeia uma dissolução ou amolecimento do ligante, resultando em perda de coesão entre os agregados, redução drástica da resistência mecânica e, de forma especialmente perigosa, uma queda catastrófica no atrito superficial, comprometendo a segurança viária. A solução investigada é a aplicação de uma irrigação protetora à base da dispersão polimérica Acronal® NX 4627, diluída em água na proporção de 1:4, que forma uma película contínua e aderente sobre a superfície asfáltica.
A metodologia do estudo foi conduzida em duas fases rigorosas. A Fase 1 avaliou a integridade do filme polimérico isoladamente, submetendo-o à imersão completa em gasolina sob agitação constante por uma hora em shaker orbital. A análise por processamento de imagem revelou variações dimensionais moderadas, entre 3% e 15%, indicando que a película mantém sua estrutura básica e não se dissolve, cumprindo sua função de barreira primária. A Fase 2, mais complexa, mediu a eficácia em probetas reais de mistura asfáltica (com gradação fina e grossa conforme norma INVIAS LA-10) tratadas com o polímero e subsequentemente contaminadas com gasolina, diesel, óleo de motor e fluído de freios. Após a contaminação, as amostras foram submetidas ao ensaio de abrasão úmida (Wet Track Abrasion Test – WTAT), que simula o desgaste causado pelo tráfego.
Os resultados foram elucidativos quanto à importância da textura superficial. Na proveta de gradação fina, a perda de massa foi mínima, de apenas 0.13%, demonstrando a alta eficácia do protetor. Já na amostra de gradação grossa, a perda foi significativamente maior (8%), atribuída à maior severidade do ensaio de abrasão sobre uma textura mais aberta. A conclusão técnica é que o Acronal® NX 4627 oferece proteção robusta, sendo sua eficiência máxima dependente de uma cobertura completa da superfície, recomendando-se a aplicação em três camadas com períodos de secagem entre elas, e da seleção adequada do tipo de pavimento a ser tratado.
Paralelamente, o segundo estudo ataca o problema da sustentabilidade na origem do material. Com a indústria asfáltica consumindo mais de 400 milhões de toneladas anuais de ligante derivado do petróleo – uma fonte não renovável e emissora de Compostos Orgânicos Voláteis (COVs) –, a pesquisa focou em formular uma emulsão asfáltica do tipo CRM1-HM (de ruptura média e modificada com polímero) utilizando um asfalto parcialmente biobasado. A matéria-prima renovável empregada foi o Rheofalt HP AM®, um normalizador bituminoso derivado 100% de resina natural, que foi incorporado em porcentagens de 7% e 11% em massa a um asfalto convencional 60/70.
O processo envolvido é tecnicamente desafiador, pois a adição de componentes biobasados pode alterar profundamente a reologia e a compatibilidade do ligante. Após a caracterização dos asfaltos modificados, que apresentaram aumento de penetração e manutenção do ponto de amolecimento, a etapa crucial foi a emulsificação. Utilizando um molino coloidal, os pesquisadores conseguiram produzir emulsões estáveis com ambos os teores de Rheofalt HP AM®. As emulsões resultantes atenderam a especificações críticas como conteúdo de resíduo asfáltico (61% e 63%), sedimentação (3.3% e 4.3% em 5 dias) e carga de partícula positiva, comprovando que o processo de emulsificação de um ligante biobasado é viável com a tecnologia de emulsificantes existente.

O estudo, no entanto, encontrou um obstáculo na fase seguinte, que trata da compatibilidade da emulsão biobasada com os agregados específicos (areia triturada do Rio Guayuriba) para a produção de um slurry seal (lama asfáltica). A mistura não apresentou a trabalhabilidade necessária, mesmo com a adição de aditivos, indicando uma interação química desfavorável que demanda investigação adicional com outras fontes de agregado. Apesar desse contratempo, a pesquisa demonstra um avanço substantivo, que consiste na possibilidade concreta de se fabricar uma emulsão asfáltica de desempenho equivalente com uma parcela do ligante proveniente de fonte renovável, representando um passo tangível na redução da pegada de carbono da manutenção viária.
Em conjunto, os trabalhos de Borrero Tamayo, Rodríguez Ariza e Oliveros Trujillo delineiam um caminho duplo para a evolução dos pavimentos. De um lado, uma tecnologia paliativa de alta eficácia para mitigar danos agudos por contaminação, prolongando a vida útil de vias em postos de combustível, áreas de manutenção ou trechos sujeitos a acidentes. De outro, uma tecnologia de base que busca reconfigurar a própria matéria-prima da infraestrutura, inserindo-a em um paradigma de economia circular e menor dependência de recursos fósseis. Ambas as soluções, ancoradas em metodologias laboratoriais precisas e dados de desempenho quantificáveis, oferecem à indústria rodoviária ferramentas valiosas para enfrentar os desafios de resiliência e sustentabilidade do século XXI.
