Há décadas, a Serra do Mar paranaense impõe um desafio silencioso a quem trafega pela BR-277. A geografia acidentada e a neblina que se adensa sem aviso transformam o trecho entre Curitiba e o litoral em um dos mais críticos do Brasil, bem como num palco privilegiado para a mais recente aposta da engenharia de transportes brasileira. Ali, no km 40, a EPR Litoral Pioneiro e a TIM Brasil iniciaram os testes de um sistema de comunicação cromática que, usando 20 dispositivos luminosos conectados em tempo real por uma rede 4G, promete traduzir em cores o que antes só se sabia ao chegar, como o estado da pista, o risco à frente, a urgência de reduzir.
Durante a entrevista, o gerente de Operações da concessionária, Paulo Roberto Linck, explica que a opção pelo 4G em vez de fibras ópticas ou do 5G não foi um acaso. “A disponibilidade no momento era da tecnologia 4G. A região de serra, pela questão do relevo acidentado, representa maiores de dificuldades de conectividade. Portanto, a rede 4G é a que consegue entregar maior confiabilidade, maior cobertura na região e onde foram implantados os dispositivos”, detalha.

A ideia, contudo, não é estagnar. Linck revelou que, a partir de fevereiro de 2027, a rodovia contará com uma rede de fibra ótica estabelecida por obrigação contratual, que atuará em redundância com o 4G. “Além do 4G, a gente vai ter comunicação por fibra também, garantindo maior robustez na questão da infraestrutura e da comunicação”, antecipa, deixando claro que os dois meios vão atuar de forma conjunta e complementar.
Os dispositivos de iluminação, por sua vez, nasceram de uma inquietação acadêmica interna. Linck contou que o projeto partiu de um colaborador da própria concessionária, a partir de seu trabalho acadêmico, que amadureceu a ideia ao longo do tempo. “Se buscou por uma utilização de lâmpadas LED, que têm baixo consumo e uma visibilidade boa, além de não atrapalhar a própria iluminação da luz branca, da pista local”, detalha. Os elementos, embora disponíveis no mercado, foram escolhidos criteriosamente para garantir boa comunicação visual com o usuário e baixo consumo energético, utilizando recursos de desenvolvimento tecnológico da agência reguladora.
Sistema cromático
Para que o sistema não se tornasse apenas um enfeite tecnológico, era necessário estabelecer um código claro. O gerente explicou que a definição das cores foi um trabalho conjunto com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Atualmente, o sistema opera com duas tonalidades. O laranja sinaliza uma condição de atenção, indicando lentidão na rodovia, onde o condutor deve reduzir a velocidade e aumentar a distância do veículo à frente. Já o vermelho é o alerta máximo, uma condição extrema de bloqueio, que anuncia uma parada eminente logo à frente.

O acionamento dos refletores, nesta fase inicial, ainda depende do olhar humano. O Centro de Controle Operacional (CCO) monitora as imagens das câmeras 24h e, ao receber a informação de um evento, seja por acidente, neblina ou qualquer outra anormalidade, o operador aciona os dispositivos e imediatamente mobiliza as equipes de atendimento. “Muitas vezes quando há bloqueio total, e normalmente isso ocorre no sentido litoral, a gente adota de imediato o sistema de reversão, utilizando as duas pistas de subida, fazendo contrafluxo, permitindo que a gente consiga dar fluidez na rodovia”, descreve Linck, destacando a agilidade da base operacional instalada próxima à Serra.
A eficácia do sistema, porém, não depende apenas da luz, mas de sua posição no campo visual do condutor. Linck detalhou que os engenheiros da concessionária estudaram minuciosamente o ângulo de visão e a distância para que a comunicação cromática seja percebida com clareza e sem interferir na iluminação convencional da rodovia. “Não se trata de uma luz qualquer. É um código, uma linguagem que o motorista precisa aprender e confiar”, explica. Por isso, a concessionária iniciou um trabalho paralelo de informação aos usuários, explicando o significado de cada cor e treinando os operadores do CCO para tomar decisões em frações de segundo.
O fluxo de decisão ainda é predominantemente humano, considerando que o operador vê as imagens das câmeras, recebe os alertas da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e das equipes de atendimento, e então aciona as luzes, descreve Linck. Mas a evolução já está desenhada. “A ideia é automatizar cada vez mais”, revela o gerente. “Queremos integrar inteligência artificial às câmeras para que o próprio sistema detecte padrões de risco, tais como – por exemplo – um veículo parado, uma redução brusca de velocidade, uma condição climática que se deteriora, e sugira ou até mesmo acione a sinalização adequada.” O tempo de resposta, hoje na casa dos segundos, poderia cair para milissegundos. E, num horizonte mais ambicioso, o sistema cromático pode se conectar a aplicativos de navegação como o Waze, enviando alertas diretamente ao painel do carro ou ao smartphone do motorista, ampliando o alcance da mensagem para além do campo visual.
A importância da conectividade para a segurança da mobilidade rodoviária vem sendo reforçada por meio de contratos e normas cada vez mais exigentes. Segundo o executivo, há países europeus e asiáticos onde a comunicação veículo-infraestrutura (V2I) já é uma realidade, e ponderou que, no Brasil, o caminho passa por parcerias público-privadas e por um marco regulatório que incentive investimentos em redes dedicadas às rodovias. A ANTT, por sinal, já apoia a iniciativa, que conta com recursos dos novos contratos de concessão.
A próxima etapa, ainda neste ano, prevê a instalação de 200 luminárias em uma extensão de oito quilômetros da Serra do Mar. O desafio, segundo Linck, não é apenas técnico, mas logístico: escalar o sistema para os 605 quilômetros administrados pela EPR Litoral Pioneiro exigirá uma arquitetura de rede híbrida, combinando 4G, fibra óptica e, eventualmente, 5G, além de um plano de manutenção preventiva que garanta a confiabilidade dos dispositivos em um ambiente de serra, sujeito a umidade, variações térmicas e descargas atmosféricas.
O futuro da experiência do motorista numa rodovia inteligente

Linck vislumbra uma rodovia que não apenas informa, mas antecipa. Com a IA preditiva, o sistema cromático poderia se tornar proativo, alterando as cores não em reação a um evento, mas com base em modelos de tráfego, previsões meteorológicas e até no comportamento histórico dos condutores. “Imagine uma estrada que ‘sente’ que vai nevar ou que o fluxo vai aumentar e já prepara o motorista com antecedência”, especula.
Para os veículos autônomos, o cenário é ainda mais promissor. A comunicação com a infraestrutura através de 4G, 5G ou DSRC (comunicação dedicada de curto alcance) será essencial para que o carro “leia” a rodovia e tome decisões de direção com segurança. Mas, para isso, o executivo alerta que não basta conectividade, pois será necessário que a via seja “digitalmente legível”, com faixas, placas e dispositivos que conversem entre si e com os veículos.
Por enquanto, a Serra do Mar é um laboratório vivo. Os 20 refletores já estão acesos, e os motoristas que passam pelo km 40 começam a notar o brilho diferente e a se perguntar o que ele significa. Para Paulo Linck, o sucesso do projeto não se medirá apenas pela redução de acidentes, mas pela forma como ele transforma a relação entre o homem e a estrada. “A rodovia sempre falou, mas em uma língua que poucos entendiam. Agora, estamos ensinando-a a falar com clareza”, finaliza.
Câmera térmica para fiscalizar freios de caminhões

Em agosto do ano passado, a EPR Litoral Pioneiro passou a utilizar uma câmera térmica inédita para reforçar a fiscalização de caminhões com problemas no sistema de freios que trafegam pelas rodovias sob sua concessão no Paraná. O equipamento, desenvolvido em parceria com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mede a temperatura dos rodados dos veículos para identificar falhas mecânicas.
A câmera de alta performance analisa a temperatura em cada eixo em contato com a pista. Se a temperatura estiver baixa em algum ponto, o sistema indica que os freios não estão funcionando adequadamente. A equipe especializada comprova a situação e o veículo só é liberado após o problema ser solucionado.
A ação combate um dos principais problemas registrados nas rodovias, especialmente na Serra do Mar da BR-277, em direção ao Porto de Paranaguá, onde a falha nos freios é mais crítica e resulta em acidentes graves. Desde a restauração da área de escape no km 36 da BR-277, em março de 2024 até o início da fiscalização em agosto de 2025, 15 caminhões e um ônibus com 45 passageiros utilizaram o dispositivo, sendo que 15 ocorrências tiveram falha nos freios como causa. Mais de 100 vidas já foram salvas no local, segundo a concessionária
