A Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) está prestes a escrever um novo capítulo em seus 45 anos de história. Pela primeira vez, a montadora competirá no segmento de veículos comerciais leves, com um furgão desenvolvido em parceria com a gigante chinesa SAIC Motor. O veículo, cujo nome e design definitivo permanecem sob sigilo até a Fenatran 2026 (de 9 a 13 de novembro, em São Paulo), representa a maior expansão de portfólio da história recente da companhia. O investimento previsto no projeto é de R$ 300 milhões.
Para este lançamento, a VWCO combina o seu profundo conhecimento do mercado brasileiro com a velocidade de desenvolvimento, a competitividade de custos e a tecnologia de ponta da SAIC Motor, parceira do Grupo Volkswagen há mais de 40 anos. “Nosso objetivo é combinar o melhor dos dois mundos: o reconhecido domínio e entrega de produtos adequados à operação em mercados emergentes e a velocidade de desenvolvimento dos chineses“, resume Roberto Cortes, presidente e CEO da VWCO.
A filosofia que guia o projeto segue o conceito “sob medida”, com a premissa “menos você não quer, mais você não precisa”, entregando exatamente o que o cliente espera, sem excessos desnecessários. O novo furgão da VWCO não é uma mera réplica de um modelo chinês. O time de design brasileiro desenvolveu um estilo próprio para o veículo, e a engenharia da VWCO realizou mais de 250 modificações específicas para atender às rigorosas condições de operação do mercado brasileiro.
Portanto, as adaptações contemplam desde a sobrecarga característica das operações nacionais até as condições desafiadoras das estradas e a composição do combustível (mistura de diesel ao biodiesel), exigência que poucos veículos importados estão preparados para atender. Foram mais de 20 mil horas e 1,5 milhão de quilômetros de testes para validar o produto.
O novo utilitário promete elevar o padrão do segmento com recursos e acabamento dignos de veículos premium, a um custo altamente competitivo. A linha de montagem da SAIC foi adaptada para atingir os rigorosos padrões de qualidade exigidos pela VWCO, incluindo melhorias significativas na qualidade da pintura.
Célio Alberto Pereira Montanha é o vice-presidente de Qualidade Assegurada da VWCO, revelou que os níveis de qualidade do novo veículo já estão muito próximos aos da linha Crafter, comercializada na Europa pela Volkswagen Nutzfahrzeuge. “Com o tempo que nos resta para o término, com certeza nós chegaremos no nível de correspondência assim como é o veículo alemão“, garantiu.
Segundo a montadora, todas as concessionárias da marca estão sendo preparadas para a comercialização e assistência à nova linha de produtos da marca. Contudo, para alguns grandes centros urbanos, a VWCO prevê a instalação de concessionárias dedicadas ao negócio de veículos comerciais leves. Inclusive, São Paulo receberá as três primeiras unidades com este conceito.
Foco nas entregas urbanas

Inicialmente, o veículo será oferecido na configuração furgão, voltado para o transporte urbano de cargas com foco nas aplicações de último quilômetro – também chamado de last mile – do comércio eletrônico — segmento em que as vendas têm crescido exponencialmente no Brasil. A frota brasileira de comerciais leves ultrapassou 4 milhões de unidades em 2024, com crescimento de 29%, impulsionada justamente pela demanda das entregas urbanas.
Futuramente, a linha será expandida com novas dimensões e versões para o transporte de passageiros. A utilização da plataforma para o lançamento de uma picape própria está descartada, e a montadora afirma que não haverá concorrência com o Delivery Express.
Produção na China, com vistas à regionalização
Para acelerar a chegada ao mercado, os primeiros veículos serão importados da China, onde a produção já está em curso sob a supervisão direta de equipes da VWCO. Desde o início do projeto, times de produção, engenharia e qualidade da montadora brasileira acompanham de perto o processo de fabricação na SAIC, assegurando que todos os conceitos de qualidade e engenharia da Volkswagen sejam rigorosamente seguidos. “A montagem completa é na China num primeiro momento para chegar rapidamente ao mercado“, afirmou Cortes.
Paralelamente, a VWCO já iniciou os estudos para a regionalização da montagem e de alguns componentes. A segunda fase do projeto prevê a produção local, com a montagem em regime CKD (kits desmontados) na fábrica de Resende (RJ). Em ambas as fases, a inspeção de qualidade seguirá os padrões mundiais da marca Volkswagen, sob responsabilidade do time brasileiro.
Após o lançamento no Brasil, o próximo destino do novo utilitário será a Argentina, com comercialização prevista para o primeiro semestre de 2027. A distribuição para ambos os mercados será centralizada a partir de Resende. “O resultado vai impressionar o mercado, com a tradicional identidade e padrão de excelência pelos quais nossos produtos são reconhecidos“, promete Cortes.
“Junte-se a eles”
A decisão da Volkswagen Caminhões e Ônibus de importar da China seu primeiro utilitário leve sob o selo VWCO, com produção inicial no país asiático e planos de regionalização futura, carrega uma dimensão que vai além do lançamento de um novo produto. Ela expõe, de forma quase irônica, a fragilidade do discurso protecionista que a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) tem sustentado há anos contra a chamada “invasão chinesa”. Não é de hoje que a entidade alerta para o avanço dos veículos importados da China.
Em 2011, diante da chegada da JAC e outras marcas ao país, as montadoras tradicionais já articulavam o que chamaram de “invasão chinesa” e conseguiram do governo a taxação adicional de 30% sobre importados. Mais recentemente, a Anfavea preparou nova ofensiva contra fabricantes chinesas, ameaçando com processos antidumping e pedindo o aumento das alíquotas de importação para 35%. A entidade chegou a afirmar que recebia “com preocupação a chegada de um navio com mais de 5,5 mil automóveis” e, em carta ao presidente Lula, defendeu o fim dos benefícios para operações CKD e SKD, regime em que veículos chegam desmontados ou semidesmontados ao país para montagem local, exatamente o modelo que a VWCO adotará na segunda fase do projeto.
A posição da Anfavea, no entanto, revela uma contradição. Em setembro de 2025, a entidade afirmou não ver “nenhuma contradição” entre criticar o pedido da BYD por benefícios tarifários e apoiar anúncios de produção em regime SKD de associadas como Audi e General Motors. A GM, por exemplo, anunciou a montagem do Chevrolet Spark elétrico no Ceará com componentes importados da China, produzidos justamente pela SAIC, mesma parceira da VWCO no novo utilitário. A justificativa da Anfavea foi: “Não somos contra a produção em SKD ou CKD, o que não queremos é a redução do imposto de importação para estes regimes“. Na prática, a oposição não recai sobre a origem chinesa dos componentes ou sobre o regime SKD em si, mas sobre a extensão dos benefícios a montadoras não associadas que pleiteiam as mesmas condições já concedidas às empresas do grupo.
Agora, porém, o cenário se inverteu. Com a VWCO, uma das associadas mais tradicionais da Anfavea, estabelecendo parceria direta com a SAIC para desenvolver, produzir na China e importar um veículo com DNA Volkswagen, o discurso contra a “invasão chinesa” perde a sustentação. Qualquer barreira à importação que onere este fluxo afetará diretamente os negócios de uma de suas próprias integrantes.
O caso não é isolado. Executivos do setor já admitem que, mantido o incentivo às operações CKD e SKD, outras montadoras podem optar pela importação de kits chineses em detrimento de investimentos no desenvolvimento nacional de novos produtos. A fábrica de Resende já se prepara para a montagem regional do utilitário.
É o velho ditado que se confirma mais uma vez na indústria automotiva: “se você não pode vencê-los, junte-se a eles”. A “invasão chinesa” que a Anfavea tanto temia deixou de ser uma ameaça externa para se tornar uma estratégia interna de competitividade. E, com isso, o discurso protecionista da entidade se esvazia, já que, afinal, é difícil argumentar contra a concorrência desleal quando seus próprios associados estão competindo exatamente com as mesmas armas.









