Desenvolvimento do DAF CF 6×4 Construção tem o dedo da Bennter

A proximidade com o cliente final para o desenvolvimento de veículos adequados para operações vocacionais são fundamentais para a boa performance dos modelos

Por Gustavo Queiroz

- setembro 3, 2026

Pedro Grassi, proprietário da Bennter

Em 2012, na cidade de Campo Bom, no Rio Grande do Sul, nascia a Bennter com uma proposta inovadora para o mercado da construção civil: a produção de argamassa usinada. O que começou como uma operação enxuta cresceu e se consolidou. Hoje, com matriz em Campo Bom e unidade operacional em Canoas, a empresa atende clientes no Vale dos Sinos, na Grande Porto Alegre e na Serra Gaúcha, tendo ampliado sua atuação para a locação de equipamentos e, desde 2023, para o fornecimento de concreto usinado.

Esse ambiente de operação intensa e diversificada é palco de experimentação do modelo DAF CF 6×4, da série CF Construção Betoneira, em condições reais de trabalho. Mais do que um teste, se trata de um processo de desenvolvimento conjunto entre fabricante e cliente, no qual as informações obtidas diretamente da operação alimentam o aprimoramento do veículo.

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DAF CF 6x4 Construção
DAF CF 6×4 Construção na filial da Bennter em Canoas (RS) | Foto: Divulgação

Para Pedro Grassi, proprietário da Bennter, o diferencial da parceria está na postura da montadora. “Quando eles nos procuraram e vieram com a intenção de desenvolver um produto, já demonstra algo diferente. Estão realmente preocupados em entender a nossa dor”, destaca. Ele ressalta que a DAF demonstrou disposição para compreender as necessidades específicas da aplicação e trabalhar a partir delas, sendo uma abordagem que, em sua visão, é fundamental no desenvolvimento de caminhões vocacionais.

O veículo avaliado, em sua configuração Day Cab e tanque de 300 litros de diesel, apresenta dimensões que refletem o projeto pensado para a agilidade urbana e a estabilidade em rodovia. Com 7.520 mm de comprimento, altura de 3.129 mm (H1), entre-eixos de 3.650 mm e 4.350 mm, balanço dianteiro de 1.570 mm e traseiro de 1.100 mm, além da distância entre os eixos traseiros de 1.400 mm, o caminhão foi dimensionado para equilibrar a distribuição de carga e a manobrabilidade exigida nos canteiros de obra. A estrutura do chassi integra suspensão dianteira com molas parabólicas, amortecedores hidráulicos de dupla ação e barra estabilizadora, enquanto a suspensão traseira tandem, também com molas parabólicas e amortecedores, garante o suporte necessário para terrenos irregulares.

Os pesos em ordem de marcha, sem motorista, totalizam 7.740 kg, sendo 4.050 kg no eixo dianteiro e 3.690 kg nos eixos traseiros. As capacidades técnicas e legais contemplam eixo dianteiro que suporta até 7.100 kg (técnico) e 6.000 kg (legal), enquanto os eixos traseiros atingem 21.000 kg e 17.000 kg, respectivamente. O Peso Bruto Total (PBT) é de 28.100 kg no regime técnico e 23.000 kg no legal, com Capacidade Máxima de Tração (CMT) fixada em 42.000 kg, números que traduzem a necessidade de transportar cargas densas, como o concreto que pesa entre 2.300 e 2.500 kg por metro cúbico.

O coração do DAF CF é o motor PACCAR PX-7, um seis cilindros de 6,7 litros com injeção Common-rail, que entrega 308 cv (227 kW) a 2.200 rpm e torque de 1.200 Nm entre 1.200 e 1.500 rpm. Essa faixa de rotação, ampla e baixa, é estratégica para a operação da betoneira: permite manter a economia em trechos rodoviários e dispor de força imediata nas retomadas e nas subidas íngremes da Serra Gaúcha. O freio motor, opcional com 245 cv a 2.650 rpm, agrega segurança e reduz o desgaste dos freios de serviço nas descidas.

DAF CF 6x4 Construção
Nesse tipo de aplicação, o caminhão pode circular por todo tipo de terreno | Foto: Divulgação

A transmissão é uma ZF Direct Drive de 9 velocidades à frente e 1 à ré, com eixo traseiro Meritor MT50-168 e relações de diferencial que variam de 5.38 a 6.43. Essa combinação permite ajustar o comportamento do veículo conforme o perfil do trajeto, uma flexibilidade que Grassi considera essencial: “A gente precisa de muita robustez, economia no combustível e conforto. Para mim, essas são as três questões que precisam andar juntas.A experiência com a versão manual já motivou a aquisição de três novas unidades, agora com transmissão automatizada, para avaliar ganhos adicionais em produtividade e consumo.

Os pneus especificados (275/80 R22,5 ou 295/80 R22,5, montados em rodas de aço 8,25×22,5) oferecem aderência e durabilidade, enquanto o sistema de freios pneumático a tambor com EBS e circuito independente garante controle preciso em situações de emergência. O sistema elétrico opera em 24 V, com baterias de 2×135 Ah ou 2×175 Ah e alternador de 80 A ou 100 A, assegurando partida confiável e alimentação para os equipamentos de bordo.

Parcerias como a da Bennter são fundamentais para o aperfeiçoamento dos veículos, em especial os vocacionais que trabalham em condições muito severas. A operação real no transporte do concreto e nos canteiros de obras nos mostrou o que nenhum laboratório consegue reproduzir integralmente. A partir dos dados da operação temos as oportunidades de tornar o caminhão ainda mais robusto, eficiente e altamente adequado à aplicação”, destaca Alan Messias, diretor de Desenvolvimento de Produto da DAF

DAF CF 6x4 Construção
A Bennter entrega concreto e argamassa para todo tipo de obra | Foto: Divulgação

O interior da cabine Day Cab reflete a preocupação com o bem-estar do motorista, que passa horas alternando entre rodovia, trânsito urbano e canteiros de obra. O banco do motorista com suspensão pneumática, as cortinas com blackout, a decoração interna Dark Sand com acabamentos Black Rock e o ar-condicionado digital criam um ambiente que reduz a fadiga — um fator crítico em uma operação que exige atenção constante. Externamente, o para-choque em aço galvanizado, a barra frontal anti-intrusão (FUP), os retrovisores bipartidos, os faróis halógenos birrefletores com lentes Lexan, as luzes de condução diurna (DRL) e o espelho de aproximação lateral completam o conjunto de segurança e visibilidade.

A lista de equipamentos de série e opcionais inclui controle de tração (ASR), sistema de suporte à condução, air bag, auxiliar de partida em aclives (HSA), desligamento automático em caso de ociosidade por 5 minutos, preparação para tomada de força, tacógrafo digital BVDR, buzina pneumática de teto, defletores de ar, aviso sonoro de marcha ré e faróis auxiliares com função Cornering. Esses recursos, muitos deles inéditos em caminhões do segmento, foram incorporados com base no diálogo contínuo com operadores como os da Bennter.

Desafios operacionais

A operação da Bennter coloca o caminhão diante de uma dualidade constante. As duas unidades da empresa ficam em beira de rodovia e em Canoas, o trajeto para Porto Alegre envolve de 5 a 10 quilômetros em rodovia; em Campo Bom, o deslocamento entre cidades é frequente, com cerca de 70% a 90% do percurso em pistas asfaltadas. No destino, porém, o cenário se inverte e, enquanto a argamassa costuma ser entregue em etapas mais avançadas da obra, com o canteiro já estruturado, o concreto muitas vezes é despejado “no barro”.

Pedro Grassi, proprietário da Bennter
Grassi: A entrega de produtos usinados permite entregas planejadas nas obras, ampliando a eficiência da operação e a disponibilidade da frota | Foto: Divulgação

Preciso do caminhão econômico na estrada e robusto para quando tem que meter no barro”, afirma Grassi. “A forma como ele bloqueia, o tipo da caixa — tem reduzida, não tem reduzida, bloqueia em X, não bloqueia — é importante”, complementa. Ele destaca que o trem de força precisa estar ajustado para a realidade da operação: “Já teve caminhão que a gente comprou que não atendia nossa aplicação. Trocamos de tipo de transmissão, de modelo… A primeira ré ficou uma beleza na estrada, mas aí chegava no barro, atolava”, recorda o executivo. Durante o período de testes, a engenharia da DAF alterou a relação do diferencial para melhor adequar o veículo às condições da região — um exemplo prático de como a parceria se traduz em melhorias concretas.

A proximidade entre a DAF e a Bennter resultou em contribuições diretas para o desenvolvimento do veículo. Antes mesmo da chegada do caminhão, houve alinhamento com a implementadora que é a Liebherr, líder no segmento de betoneiras e fornecedora de 95% dos implementos da Bennter. “Eles já estavam conectados, obviamente, e foram entendendo o que precisava, ajustando”, recorda Grassi.

Durante o teste, a engenharia da DAF manteve acompanhamento semanal. “Tem um engenheiro que, toda semana, fala com o nosso motorista e com o pessoal que cuida da frota. Tivemos várias reuniões.O ajuste na relação do diferencial, por exemplo, foi uma resposta direta às reclamações sobre desempenho em aclives, uma alteração que só foi possível porque a fabricante dispôs-se a ouvir e agir rapidamente. “Não é uma engenharia fácil. É bem mais difícil que fazer um caminhão rodoviário ou urbano”, diz o executivo.

Conforto e produtividade

A cabine do DAF CF agradou logo de início os motoristas da Bennter, que a consideraram maior do que a dos modelos anteriormente utilizados. Esse cuidado não é menor diante da realidade da operação, onde o motorista de betoneira alterna entre rodovia, trânsito urbano e o terreno acidentado de um canteiro, onde desce de botina e enfrenta lama e poeira. “A gente preza muito por isso: ter um bom banco, botar um tapete para o motorista conseguir manter limpo”, diz Grassi. A ergonomia influencia diretamente a produtividade, a segurança e a retenção de motoristas — um fator crítico em um setor que sofre com a falta de mão de obra qualificada.

Na construção civil, a demanda pode variar rapidamente conforme novas obras são lançadas e aprovadas. Para a Bennter, ter veículos disponíveis e contar com agilidade na entrega e no atendimento é fundamental. Um caminhão parado compromete a programação de obras e entregas — e, nesse aspecto, a experiência tem sido positiva tanto com o veículo quanto com o atendimento da concessionária.

Para Grassi, o conforto, a robustez e a economia de combustível são os três pilares que precisam caminhar juntos em sua análise. A vida útil de uma betoneira, na operação da Bennter, pode superar os 10 anos, desde que bem cuidada — com operador qualificado e manutenção adequada. “Se tiver bom operador e uma manutenção boa, 10 anos é tranquilo. Mas o ideal é 6 a 7 anos, porque o custo de manutenção começa a subir.”

Da caixa manual para a automatizada

DAF CF 6x4 Construção
Clique aqui e assista às entrevistas com Pedro Grassi, proprietário da Bennter, e com Fernando dos Santos, motorista do DAF CF 6×4 | Foto: Divulgação

A experiência com o DAF CF 6×4 manual já levou a Bennter a adquirir mais três unidades, agora com transmissão automatizada. A decisão amplia a experiência da empresa com o modelo e permite avaliar uma nova configuração sob as mesmas condições reais de operação. “A troca de marcha num automático tem que ser feita no tempo certo para não gastar muito combustível. O arranque para dentro de cidade é fundamental”, comenta Grassi.

A DAF, que até 2024 atuava predominantemente no segmento rodoviário, tem expandido sua presença no mercado vocacional. A parceria com a Bennter está inserida nessa estratégia, não como uma mera demonstração de produto, mas como um laboratório vivo onde o caminhão é testado como ferramenta de trabalho, que precisa entregar produtividade, confiabilidade e disponibilidade todos os dias.

Contexto

A construção civil no Rio Grande do Sul vive um momento de transição. A região enfrenta desafios econômicos, com tributação alta e falta de mão de obra que tem adiado projetos. Ao mesmo tempo, movimentos como a reconstrução pós-enchente de 2024 e o crescimento de armazéns logísticos — que exigem volumes expressivos de concreto — apontam para oportunidades.

O mercado da construção civil é um ambiente onde existem um número muito grande de investidores. Hoje, com uma inflação alta e aplicações rendendo muito, o investidor muitas vezes não compra o imóvel. Tá tendo muito investimento, pelo menos na nossa região, para galpão logístico, que vai muito concreto”, avalia Grassi. Para o próximo ano, sua expectativa é de crescimento, embora em passos mais lentos — uma estimativa cautelosa de cerca de 5%.

A entrada da Bennter no segmento de concreto em 2023 representa um complemento natural ao portfólio. “Em vez de dois fornecedores, o cliente tem um só”, resume Grassi. “Concreto e argamassa são dois segmentos de uma mesma empresa.” E o caminhão que transporta ambos é a peça central dessa engrenagem, pois um equipamento que, bem projetado e operado, pode fazer a diferença entre uma obra no prazo e um cronograma comprometido.

Nesse cenário, a parceria entre DAF e Bennter representa um modelo de desenvolvimento conjunto em que a experiência de quem opera alimenta a engenharia de quem fabrica e o resultado é um caminhão que, como diz Grassi, precisa “dar uma boa média, litro por hora e quilômetro por litro, e ser forte quando precisa”. Uma equação que, no exigente universo da construção civil, é tão essencial quanto o concreto que ele transporta.

Argamassa e concreto de usinagem

DAF CF 6x4 Construção da Bennter
Messias: “A operação real no transporte do concreto e nos canteiros de obras nos mostrou o que nenhum laboratório consegue reproduzir integralmente” | Foto: Divulgação

Do ponto de vista da ciência dos materiais, a distinção fundamental entre uma argamassa e um concreto está na presença de agregados graúdos. A argamassa é uma mistura de aglomerantes como o cimento Portland e, em alguns casos, a cal, além dos agregados miúdos como areia e água. O concreto, por sua vez, incorpora a esses componentes básicos os agregados graúdos, como a brita, que conferem ao material maior consistência, resistência mecânica e rigidez estrutural. Essa diferença composicional define suas aplicações, pois enquanto a argamassa é empregada em assentamentos, revestimentos e acabamentos, o concreto é o material de escolha para elementos estruturais que exigem alta capacidade de carga, como pilares, vigas e lajes.

Tanto para a argamassa quanto para o concreto, a distinção entre o produto “convencional” e o “usinado” reside no local e no método de produção. No método convencional, a mistura é preparada no próprio canteiro de obras, em betoneiras, com dosagens frequentemente baseadas em proporções empíricas (como a conhecida “1:2:3” para cimento, areia e brita). Esse processo está sujeito a variações na qualidade dos materiais, na precisão da dosagem e na interferência humana, o que pode resultar em produtos com propriedades mecânicas inconsistentes.

Em contrapartida, a produção usinada ocorre em centrais dosadoras industriais, sob rigoroso controle tecnológico. No caso do concreto, isso garante a homogeneização precisa de cimento, areia, brita, água e aditivos, assegurando resistência e durabilidade previsíveis. Já a argamassa usinada, também chamada de estabilizada, recebe aditivos químicos específicos, como plastificantes e retardadores de hidratação, que controlam a reação química do cimento com a água.

Como explica Pedro Grassi, proprietário da Bennter, essa tecnologia permite que o material mantenha sua trabalhabilidade por até 72 horas, “um gap muito grande na produção” se comparado ao concreto convencional, que tem janela de uso de cerca de duas horas e meia. Essa estabilização química é o trunfo da produtividade na construção civil, em que a argamassa é entregue no final do dia para ser aplicada na manhã seguinte, eliminando os gargalos de produção e otimizando a mão de obra no canteiro.

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