Avanço do e-commerce cria um novo ciclo virtuoso do transporte

O surgimento de um novo mercado de trabalho para entregadores de pequenas encomendas com carro próprio, abre espaço para o aumento das vendas de veículos utilitários

Por José Augusto Ferraz

- julho 23, 2026

Entregas Urbanas com Fiat Fiorino

Com 15 anos de experiência junto à indústria automotiva e passagens acumuladas na Delphi, Nissan, FCA e Stellantis, o atual diretor de Marketing de Produto de Veículos Comerciais Leves (LCVs) e Picapes da Fiat para a América Latina, Alexandre Clemes, estruturou lançamentos e estratégias fundamentais para manter a hegemonia da marca nesse mercado. Não sem motivo, o executivo se transformou em um dos principais nomes no segmento de veículos utilitários e picapes no Brasil. Em entrevista para o portal Frota&Cia, por ocasião das comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil, Clemes comenta os planos para a marca relativos ao mercado de veículos comerciais leves, além do futuro das entregas urbanas, entre outros destaques. Confira.

Frota&Cia – Quais os planos da marca para avançar no segmento de veículos comerciais leves no país?

Alexandre Clemes
Diretor de Marketing de Produto de Veículos Comerciais Leves (LCVs) e Picapes da Fiat para a América Latina

Alexandre Clemes – Nosso grande desafio é a produção local. Anos atrás adotamos uma outra estratégia industrial, onde migramos para uma estratégia de produção em outros países. Inicialmente, México e, mais recentemente, na Europa. O que a gente está fazendo nesse exato momento, respondendo a sua pergunta de investimento, é a produção da Ducato no Uruguai, no complexo de Nordex, onde temos 49% da empresa. Com isso, aproveitamos os benefícios do Mercosul e, gradativamente, podemos aumentar a nossa capacidade produtiva e a flexibilidade que é o grande ponto. Isso porque, na venda menor do dia a dia, você tem uma certa previsibilidade. O grande desafio é quando entra uma venda grande de algum frotista, de maior volume, até mesmo com o governo, onde a cadeia precisa ter muita rapidez para atender a demanda.

Frota&Cia – O que essa decisão impacta em termos de volumes?

Alexandre Clemes – No ano passado, por exemplo, nós vendemos cerca de 3.800 Ducatos. Esse ano, a previsão é chegar a 5.100 unidades. É um crescimento muito grande, percentualmente falando. Então, o plano é crescer ano a ano, gradualmente.

Frota&Cia – Qual será a consequência no preço do produto?

Alexandre Clemes – Quando fizemos esse projeto, pensamos no benefício do imposto que estávamos trazendo. Obviamente, produzindo no Mercosul, nós temos esse benefício. Por outro lado, tem gastos logísticos muito altos. Então, existe uma certa compensação. Mas, comercialmente, entendemos que o carro é competitivo. No plano de desconto, ele chega a R$ 20 mil. Porém, o ponto não é tanto a competitividade de preço, mas sim flexibilidade de produção. Esse é o grande desafio.

Frota&Cia – No caso particular do Escudo, que é um veículo intermediário entre a Ducato e o Fiorino, como é possível avançar nesse mercado, nos moldes da Europa onde o modelo tem uma boa aceitação?

Alexandre Clemes  – De fato, o modelo não tem o mesmo perfil da Europa, em volume de vendas. Porém, acho que tem a ver com a característica da carga do Brasil. No caso da last mile, principalmente urbano, um carro do tamanho Fiorino é o mais adequado. É um veículo que se move com agilidade e você não precisa de tanta volumetria. Além disso, tem a questão do custo operacional que é menor no Fiorino no que no Escudo.

Frota&Cia – O Fiorino, aliás, é um campeão de vendas e de revenda, reconhecido pelo Prêmio Lótus todos os anos. Quais os outros atributos do modelo que justificam essa performance?

Alexandre Clemes  – Eu acho que é toda uma história. O que esse cliente compra? Antes de tudo, resistência, facilidade de manutenção e baixo custo operacional. Pelo fato de ter uma grande frota rodante, você encontra peças de reposição em qualquer lugar. Até o mecânico não precisa ser super especializado, já que os reparos são mais fáceis de fazer. Então, isso tudo cria um ciclo virtuoso de troca desse carro, que reafirma a fama do Fiorino.

Frota&Cia – Como você projeta o mercado do last mile nos próximos anos?

Alexandre Clemes  – Recentemente, um estudo avaliou que esse mercado deve crescer de forma acelerada nos próximos anos. Embora muitos associem essa tendência ao avanço do e-commerce, não podemos esquecer do comércio tradicional, que hoje representa a maior parte das entregas e deve manter essa participação.

Frota&Cia – Em relação à eletrificação. Você acredita que os modelos elétricos irão ocupar o espaço dos veículos a combustão em um futuro próximo?

Alexandre Clemes  – Isso vai depender muito do custo de aquisição do produto, que ainda é muito elevado. Sem contar a questão da manutenção e do valor de revenda, que são fatores determinantes em um veículo comercial.

É fato que as baterias estão durando cada vez mais. Mas, em algum momento na vida do carro esse componente irá colapsar.  E aí? Será uma perda total? Vai dar para reparar? Daqui a cinco anos, pode ser que exista uma indústria de reparação de baterias. Hoje, contudo, não tem quem faça.

Frota&Cia – São fatores que certamente impactam o comprador atual….

Alexandre Clemes – Sem dúvida.  Na cabeça de quem compra esse carro, ele pensa no valor de revenda, na manutenção e como irá girar esse carro lá na frente. Porque é um ativo e não um bem de consumo. Então, o carro tem de ter liquidez de venda, para poder comprar um no outro.

Frota&Cia – Diante desse cenário, como a Fiat avalia o atual perfil do transportador de pequenas encomendas?

Alexandre Clemes – O que estamos observando  é uma mudança no padrão das entregas do last mile. Hoje, você vê gente entregando coisas no seu prédio, na sua casa, em qualquer tipo de veículo. E não apenas utilitários. É uma mudança muito recente, que vem acontecendo em todos os centros urbanos. Não acredito que isso seja reversível, ao contrário, acho que só irá se acentuar. Já que esse trabalho vem se tornando uma fonte de renda adicional para muitas pessoas. Por isso, o motorista é fundamental nessa equação. Esse profissional se transformou no motor da economia, principalmente do segmento do comércio.

Frota&Cia – O fenômeno não prejudica as vendas de veículos utilitários?

Alexandre Clemes – Ao contrário. Esse cidadão comum, que utiliza seu próprio carro para fazer entregas, pode se transformar em um futuro empresário de transportesr. Muitos começam com seu próprio carro mas, à medida que o negócio prospera, ele migra para um carro usado de carga, onde passa a trabalhar com volumetria maior, por exemplo. Eu acho que é um caminho. É o início do empreendedor que pode evoluir para uma microempresa. Então, quanto mais gente prosperar, mais esse ciclo virtuoso irá crescer.

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