No coração de um armazém na Grande São Paulo, onde o cheiro de cosméticos se mistura ao papelão e ao plástico-bolha, uma operação silenciosa desafia a lógica da automação total. Não há braços robóticos deslizando pelos corredores, nem esteiras automatizadas zunindo em velocidade constante. Há, em vez disso, dezenas de pessoas se movendo com a precisão de uma coreografia ensaiada, bipando produtos, empilhando caixas, conferindo endereços. E, no centro de tudo, um software que orquestra cada passo.
Frota&Cia foi conhecer a operação B2C (Business-to-Consumer/empresa para consumidor) da Cubbo, onde o artesanal e o tecnológico operam em uníssono para entregar mais de 15 mil, com picos de cerca de 30 mil volumes, por mês somente no Centro de Distribuição (CD) de Embu das Artes (SP). A companhia, de origem mexicana, conta com mais quatro unidades instaladas no Amazonas, Minas Gerais (com dois CDs) e Rio Grande do Sul, que juntas concentram a maior operação da montadora no mundo.
A filosofia do “feito à mão”

“Uma das coisas que vocês não vão notar aqui são robôs andando para cima e para baixo“, diz Lucas Garcia, diretor de Crescimento da Cubbo, enquanto conduz a visita pelo centro de distribuição. “A automação intralogística ainda não faz sentido econômico ou de produtividade para uma operação como a nossa, que movimenta itens de baixo volume. Faz mais sentido numa operação B2B, onde se movimenta grandes volumes por vez“, complementa.
Segundo o executivo, mesmo internacionalmente, a automação de 100% da operação dificilmente vale a pena no segmento B2C. “Muitas empresas grandes buscaram fazer essa automação de CD e, no momento que aconteceu uma mudança de paradigma dentro do mercado — com as “live shop” do TikTok Shop, MercadoLivre e outros grandes marketplaces — o comércio eletrônico começou a crescer gigantemente. Só que todas essas marcas são acostumadas muito mais com automação no B2B. Quando quiseram entrar no B2C para fazer esses pickings (coletas) de baixo volume, muitas vezes com apenas um ou dois itens, não conseguiram se adaptar, porque o capital investido foi gigantesco“, detalha.
O resultado é uma operação que funciona como um organismo vivo. Mais de 80 clientes simultâneos residem no CD de Embu, incluindo produtos que vão de maquiagem a brinquedos, de livros a celulares de alto valor, todos convivendo no mesmo espaço, separados por códigos de barras e pela inteligência de um sistema desenvolvido inteiramente dentro de casa.
O cérebro da operação

Tudo começa no que a operadora logística chama de “aplicativo da Cubo“, a interface que os clientes usam para gerenciar toda a operação. “Isso daqui é o que a gente chama de sistema operacional do comércio moderno“, explica Lucas, apontando para a tela de seu computador. A integração é o primeiro passo: conectar o sistema do cliente — seja VTEX, Shopify, Nuvemshop ou uma API própria — ao ecossistema da Cubbo.
“Se um cliente opera uma loja virtual e ainda atua num marketplace simultaneamente, ele consegue ter todas essas conexões“, diz Lucas. “As posições de estoque são atualizadas em tempo real e, se cair um pedido, a Cubbo envia desse CD aqui para qualquer canto do Brasil“, complementa.
Todavia, o suporte da marca vai além da movimentação e distribuição das mercadorias. “Um dos grandes desafios que qualquer empreendedor no país é justamente a parte fiscal. A Cubo também é gerente de todas as notas fiscais.” O sistema configura automaticamente os NCMs, os códigos tributários, e emite notas de correção se houver divergências no recebimento.
Do outro lado, nos coletores manuais dos operadores, está o WMS da casa, que indica onde cada produto deve ser armazenado, qual rota o picker deve seguir, e que impede que um item errado seja enviado ao cliente errado.
O recebimento das cargas

O processo começa na doca de recebimento. O cliente cria uma remessa de estoque no sistema, informando quais produtos e quantidades estão a caminho e, quando a carga chega, inicia-se o check-in. “Abrimos caixa por caixa dos meus clientes e fazemos uma validação inicial de cada um desses itens. Se um cliente me envia uma remessa com um monte de pequenos anéis dentro de um saquinho ou uma caixa com vários SKUs, precisamos abri-las e validar visualmente se não tem nenhum tipo de avaria“, exemplifica Lucas.
Cada item é bipado individualmente. A informação vai em tempo real para o aplicativo do cliente, que pode acompanhar a contagem. Passada essa etapa, vem o “putaway“, que é o armazenamento. O sistema indica exatamente onde cada produto deve ser colocado. E, neste momento, todos os marketplaces e sites integrados são avisados que há estoque disponível.
Precisão e agilidade
Em um exercício prático, Lucas entrega coletores manuais para jornalistas em uma dinâmica que simula o que um operador faz dezenas de vezes por dia: receber um pedido, localizar o produto, bipá-lo e colocá-lo no tote (caixa plástica para pequenos itens) correto.
O coletor portátil, que parece um celular robusto, é o guia do operador. “Ele vai indicar para a pessoa onde ela precisa ir, o que ela precisa pegar e vai controlar o que está sendo movimentado“, explica Lucas. “O sistema já vai ver para onde esse operador vai passar, faz uma pequena roterização do que ela vai pegar e distribui para otimizar o tempo de deslocamento“, complementa.
Cada pedido é representado por um tote, que pode variar de tamanho, de acordo com a necessidade de momento do operador. “Em alguns casos, múltiplos pedidos são agrupados na mesma caixa para ganhar produtividade, sendo separados apenas no packing”, ilustra.
A precisão do sistema é implacável. Durante a demonstração, um dos visitantes tenta pegar um novelo de lã de cor errada, mas o coletor não deixa passar, reduzindo a zero a chance de erro humano no processo. Em outro momento, o estoque de uma posição está vazio e, neste caso, o sistema pausa a atividade e automaticamente notifica a equipe para reabastecimento, ilustrando a vida real dentro daquele CD.
Foco na eficiência e no sentido econômico

Luis Franzon, diretor de Operações da Cubbo, em entrevista exclusiva à Frota&Cia, explica que essa eficiência manual não é acidental. “Apesar da operação ser manual, conseguimos uma produtividade excelente“, afirma. “Até avaliamos colocar algum tipo de automação em CDs com perfil de pedido mais repetitivo, mas, como a nossa produtividade hoje já é alta, não há retorno sobre este investimento. Não teríamos um ganho de produtividade tão relevante para investir em automação“, revela.
O segredo, segundo o executivo, está no software. “Toda a parte da nossa produtividade eficiente está no sistema que a gente desenvolve, ou seja, no nosso WMS, que além de ser um sistema muito amigável e fácil de usar, ele é o que traz toda inteligência na operação.”
A última fronteira antes do mundo
Na mesa de packing, câmeras registram cada movimento. Não é por acaso. “Isso é para proteção de todos os envolvidos simultaneamente, incluindo o operador, nosso cliente e o sonsumidor final“, destaca.
O operador bipa o tote, confere os itens, escolhe a embalagem adequada — caixa parda, envelope com plástico-bolha, ou personalizada, conforme a preferência do cliente — e aciona o sistema. “Gerar etiqueta significa que o sistema falando com o SEFAZ para gerar a nota fiscal e, posteriormente, gerando a etiqueta da transportadora“, explica Garcia.
A fita que fecha a caixa tem a marca da Cubbo. “Se foi no momento da transportadora que houve violação, eu vou saber que o produto saiu perfeito daqui, pois a câmera comprova a segurança do processo“, detalha o diretor de Crescimento.
Para produtos de alto valor, como celulares, a segurança é ainda mais rigorosa. Franzon menciona o caso de um cliente de eletrônicos (smartphones): “Temos uma operação com acesso restrito em que somente quatro pessoas podem trabalhar numa área específica. Há câmeras em todos os corredores, vigilante que revista todo mundo que entra e sai, detector de metal… Se perder um celular de mais de R$ 10 mil, o prejuízo é grande“, ilustra.
Do CD ao consumidor
Cristiana Cavalcanti, diretora de Transportes da Cubbo, assume a narrativa na etapa final. “Hoje, a gente tem uma transportadora e também operamos por meio de parceiros que nos garantem abrangência nacional. O principal valor é a velocidade e realizamos as entregas em até 24 horas“, reforça.

O processo é meticulosamente rastreado. Os pacotes saem do CD com uma bipagem de saída. Chegam ao galpão da Cubbo na Lapa, onde são recebidos e triados por zona de entrega. “Temos uma etapa de recebimento que, quando chega o carro com os pacotes, todos eles passam por uma vistoria para confirmar que estão fisicamente no nosso galpão“, descreve Cristiana.
Depois, vem a criação de rotas. O sistema utilizado é um TMS (Transport Management System) espanhol integrado ao ecossistema da Cubbo, embora a empresa já esteja desenvolvendo sua própria ferramenta. “A gente vai ter uma etapa de criação de rota em que todos os pacotes de uma zona são bipados e migram automaticamente para o roteirizador. O time faz uma verificação visual no mapa para corrigir endereços com comentários adicionais“, detalha.
Os motoristas recebem as rotas em seus celulares. Cada entrega exige foto da fachada, foto do pacote, nome de quem recebeu e, opcionalmente, assinatura. “Ele não consegue finalizar sem nenhuma foto. O sistema registra a geolocalização também“, registrando a segurança das entregas.
Em caso de insucesso, como um destinatário ausente ou endereço incorreto, por exemplo, o motorista registra o motivo e tira fotos. Uma equipe de “torre de controle” monitora as rotas em tempo real, tentando contato com o cliente. São feitas até três tentativas de entrega. “Se não conseguimos retorno em três dias úteis, aí fazemos a devolução para o CD“, explica Cristiana.
Foco no crescimento
Enquanto a operação em São Paulo pulsa com sua cadência manual, a Cubbo se expande. A empresa acaba de abrir seu quinto centro de distribuição no Brasil, em Extrema, Minas Gerais. São 2,2 mil metros quadrados, R$ 450 mil investidos, e a promessa de atender o Brasil inteiro com a mesma filosofia que já move o CD paulista.

“Esse ano a gente inaugurou dois CDs no Brasil. No começo do ano foi o CD em Manaus (AM), com 5.500 metros quadrados, e mais recentemente o de Extrema“, conta Garcia. A escolha por Extrema, explica ele, tem relação com os benefícios fiscais de Minas Gerais. À Frota&Cia, Franzon complementa: “A gente tem hoje o CD de Extrema, que ainda está bastante ocioso, então temos bastante área para crescer. A maioria das operações roda em apenas um turno, o que nos permite implementar segundo turno, por exemplo. Estamos fomentando a questão de atendimento multiclientes nas unidades de Manaus e Porto Alegre.”
O Brasil é uma aposta estratégica. “A matriz tá no México, mas aposta bastante nessa operação do Brasil“, diz Franzon. E os números impressionam, incluindo crescimento de 310% entre 2024 e 2025, lucratividade desde 2023, projeção de faturamento global anual de US$ 68 milhões.
Homens e máquinas
Ao final da visita, fica uma pergunta: como dobrar o tamanho da operação sem perder a essência manual que a tornou eficiente? A resposta está na combinação de expansão física, novos turnos e, acima de tudo, no software que continua a evoluir. “Hoje em dia, você tem muito mais espaço para ganhar produtividade dentro de software, dentro de melhorias e inteligência com dados, do que automação de hardware“, finaliza Garcia. É uma aposta ousada em um momento em que o mercado parece obcecado por robôs. Mas, para a Cubbo, a eficiência não está nos braços mecânicos, mas nos de carne e osso por onde corre o sangue do trabalhador latino.
