As sucateadas estradas brasileiras e a falta crônica de ferrovias — desafios de infraestrutura para o próximo governo — estão dando novo fôlego à cabotagem, o transporte de cargas por mar dentro do país, que teria tudo para ser uma vocação natural do Brasil, que tem 8.000 km de costa. Este transporte vive uma explosão: apenas no primeiro semestre deste ano o setor cresceu 9,8%, enquanto a economia patinou com avanço de 0,5%. Com isso, hoje, a cabotagem tem um tamanho quatro vezes maior do que em 2001. Para mostrar o crescimento e os entraves do setor, repórter e fotógrafo embarcaram em agosto em Santos (SP) de carona no Américo Vespúcio, navio da Aliança, de 228 metros, com capacidade de 3.800 contêineres, que foi até Manaus em 17 dias, num percurso de sete mil quilômetros.
Nem sempre as águas são tranquilas na cabotagem. O setor, mais ecológico e econômico que os de estradas e ferrovias, sofre com o descaso com o transporte. Navegar pela costa e pelo Rio Amazonas é fácil, com navios modernos e tripulação preparada. Até a turbulência do oceano é tolerável. O nó da cabotagem está onde deveria ser o “porto seguro”: nos terminais. Sem os obstáculos, o setor poderia ser seis vezes maior, retirando 1,8 milhão de viagens de caminhões das estradas e reduzindo o custo de transporte do país, diz a Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac).
— O setor cresce, mas poderia ter outro patamar. É como um corredor que está desenvolvendo bem, mas veste aquela camisa de chumbo dos treinos — disse Cleber Lucas, presidente da entidade.
Especialistas dizem que a comparação não é exagerada. A cabotagem representa apenas 0,5% dos transportes nacionais, contra 6% nos Estados Unidos, um país muito mais interiorizado, ao passo que 70% da população e da riqueza do Brasil estão a apenas cem quilômetros da costa. Por outro lado, criticam que parte deste descaso cabe aos próprios armadores, que abandonaram rotas para se concentrarem apenas nos trechos mais lucrativos. O forte controle de capital estrangeiro das empresas também é apontado como um problema, pois as companhias não teriam real interesse em desenvolver o mercado nacional. Isso é negado pelo setor, que afirma investir pesadono Brasil e estar retomando portos até então abandonados.
FONTE: O GLOBO
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