Transporte aduaneiro ainda não se recuperou, diz Paulo Scremin

Embora tenha recuperado boa parte de sua movimentação anterior à da pandemia, o transporte aduaneiro não retomou em 100% o movimento.

Por Priscila Ferreira

- julho 25, 2023

Embora tenha recuperado boa parte de sua movimentação, o transporte aduaneiro não retomou em 100% o movimento anterior à crise sanitária, de acordo com Paulo Scremin, diretor da comissão de transporte aduaneiro do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de São Paulo e Região (SETCESP).

São inúmeras as variáveis que podem afetar o setor, inclusive o que Scremin determina como insegurança jurídica, que tem causado receio nos empresários do transporte. “Com a mudança de governo, todos ficamos na expectativa e ponderamos esses investimentos porque tínhamos que entender qual o direcionamento da economia”, completa.

Na entrevista que segue, Paulo Scremin comenta o desempenho do setor nos dias atuais e o impacto da crise argentina no movimento de cargas entre os dois países. Além das principais bandeiras defendidas pela Comissão que preside e as projeções da especialidade para o ano em curso. Confiram

Paulo Scremin, diretor da comissão de transporte aduaneiro do SETCESP

Frota&Cia: Como ficou o transporte aduaneiro após a pandemia?

Paulo Scremin: A pandemia provocou uma mudança bastante substancial em todos os aspectos. Esperávamos uma retomada mais lenta e na realidade aconteceu pouco melhor do que imaginávamos. O mercado não se recuperou 100% ainda, mas retomou uma certa normalidade. Não houve uma queda significativa, como temíamos no início.

Frota&Cia: A crise na Argentina tem impactado muito nas empresas brasileiras do segmento?

Paulo Scremin: Sem dúvidas. O Mercosul sofreu uma retração muito grande, se for comparar a uma década e meia atrás. A Argentina é um dos parceiros comerciais mais fortes do Brasil e com a economia deles na situação que está, isso afeta o bloco econômico. O problema maior é a inadimplência, as dificuldades para receber essas exportações.

Frota&Cia: O que a comissão está discutindo atualmente?

Paulo Scremin: Os problemas são vários. Esbarramos muito na burocracia, porque você envolve várias instituições governamentais no transporte internacional, a Anvisa, o Ministério da Agricultura, a Receita Federal. Todos esses órgãos deveriam trabalhar em conjunto para fluir melhor o mercado internacional. Um grande problema, por exemplo, foram as privatizações dos aeroportos. Isso teve um impacto muito grande porque a expectativa é de que houvesse um investimento grande na infraestrutura, mas não houve. Então, os aeroportos, principalmente o aeroporto de Guarulhos, têm uma demanda grande e pouca infraestrutura de atendimento, isso dificulta muito. Os portos, por sua vez, têm os terminais também com uma série de burocracias que dificultam o trabalho. Temos uma dificuldade imensa, por exemplo, no porto de Santos de espaço para estacionamento de veículos, carregamento, agendamentos que não são cumpridos, ou seja, uma série de dificuldades que aos poucos vamos conversando e tentando melhorar. Mas demora, principalmente se tratando de órgãos públicos em que as decisões não são rápidas. Fora os muitos detalhes que vamos debatendo na comissão. Uma bandeira que temos no sindicato e que temos trabalhado há décadas é a questão da descida dos bitrens e rodotrens na serra de Santos. Os órgãos de trânsito solicitaram que fizéssemos um estudo, fizemos e provamos que não há dificuldade para a descida desses veículos. Tudo foi aprovado e até hoje não foi liberado. Por isso temos um aumento de custo muito grande, descemos com os veículos até o começo da serra e de lá temos que desengatar uma das composições e precisamos de um outro veículo para continuar a viagem com a segunda composição.

Frota&Cia: Quais as expectativas do setor para este ano?

Paulo Scremin: Esse assunto é bastante complexo. As empresas de transportes investiram bastante no ano passado, estávamos otimistas. Com a mudança de governo, todos ficamos na expectativa e ponderamos esses investimentos porque tínhamos que entender qual o direcionamento da economia, muita coisa mudou. Todos estão com medo de investir, estão observando o que vai acontecer, como a economia vai reagir, ou seja, somente expectativas e nada de efetividade. Falo por mim e por alguns colegas com quem converso. Projetos de investimentos que tínhamos este ano estão parados, estamos esperando para ver o que vai acontecer. Porque, apesar de a economia não estar ruim, não conseguimos vislumbrar um futuro mais seguro para investimentos. E temos um problema sério no nosso país que é a insegurança jurídica. Acabamos de passar por uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que é um retrocesso de tudo que houve na mudança da Lei dos Motoristas. Uma das decisões, por exemplo, é que o tempo de espera é contado como jornada de trabalho. Ao meu ver, nós regredimos e isso tudo provoca uma insegurança muito grande no setor. E o setor de transporte, junto com o setor de construção civil, é o setor que mais emprega. O que esperamos das autoridades é a segurança para podermos investir, fazer o país crescer, gerar emprego. Essa questão da decisão da lei estava resolvida desde de 2015 e oito anos depois vem uma decisão dessa. Muitas empresas pequenas não vão aguentar, vão acabar fechando, porque não vai ter recurso para cobrir isso. Do dia da noite as empresas passaram a ter um passivo que nem se imaginava que poderia ter.

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