A intralogística, historicamente vista como uma área de pouco glamour no espectro corporativo, vem ganhando protagonismo impulsionada pela aceleração tecnológica e pela necessidade de diferenciação competitiva. Em uma análise aprofundada sobre o momento do setor no Brasil, Eduardo Banzato, diretor do IMAM (Instituto de Movimentação e Armazenagem de Materiais), traça um panorama que vai desde a evolução histórica do mercado até a aplicação prática de conceitos como inteligência artificial e gêmeos digitais, destacando os desafios e oportunidades em um país que desponta como hub logístico na América Latina.
De acordo com Banzato, a trajetória da intralogística no país passou por fases determinadas, começando pelo foco em produtividade nos anos 1970 e qualidade nos anos 1980, até o boom da logística nos anos 1990 como diferencial competitivo. A chegada da internet, no final daquela década, e a subsequente explosão dos dados pavimentaram o caminho para as tecnologias da Indústria 4.0, aceleradas a partir de 2011. “O que observamos é uma evolução, não uma revolução repentina”, ressalta.
No entanto, apesar dos avanços e do atual interesse de investidores estrangeiros – especialmente asiáticos e europeus – no Brasil e no México, Banzato afirma que a aplicação plena da tecnologia ainda é restrita. “No Brasil, ela ficou restrita a grandes empresas e algumas médias. Ainda existe um universo não explorado. Estamos falando de talvez menos de 10% das empresas aproveitando essas possibilidades“, revela. Esta defasagem, porém, não impede que o país se torne a “bola da vez” na intralogística, com o IMAM já atendendo a pelo menos dois clientes internacionais interessados em estabelecer operações na região.
Acordo Mercosul-UE

Sobre o impacto de acordos comerciais, como a assinatura do pacto Mercosul-União Europeia, Banzato adota uma postura pragmática. Para ele, embora tratados e a reforma tributária sejam benéficos e possam reduzir os custos de importação de tecnologia, as empresas não podem se dar ao luxo de esperar por essas facilidades. “Não adianta esperar e depois reclamar: ‘Ah, mas o Brasil nunca faz isso’. A pergunta é: ‘o que você fez?’“, questiona. O diretor defende que as organizações busquem caminhos alternativos, como fornecedores fora do circuito tradicional, desenvolvimento híbrido de soluções (parte nacional, parte importada) e parcerias, para viabilizar investimentos que, embora tecnicamente possíveis, frequentemente esbarram em inviabilidades econômicas.
É nesse ponto que Banzato introduz o conceito de soluções híbridas como a grande tendência para a realidade brasileira. Ao contrário da automação plena, tecnicamente viável, porém economicamente proibitiva para a maioria, o modelo híbrido combina operações manuais com tecnologia aplicada diretamente ao trabalhador. “Nós vamos continuar tendo pessoas nessa operação, mas vamos ajudar ela a fazer o trabalho dela. Colocamos muita automação na pessoa“, explica. Isso inclui sistemas de apoio por luz (pick-to-light) que reduzem falhas, tecnologias ergonômicas para minimizar esforços e ferramentas que diminuem a necessidade de concentração em tarefas repetitivas. “Ainda vejo, pelos próximos 10 anos ou mais, a maior parte das empresas trabalhando com esse equilíbrio“, projeta.
Digitalização
Longe de ser tratada como uma bolha especulativa, a inteligência artificial (IA) é vista por Banzato como uma ferramenta de vantagem competitiva concreta. Ele cita o exemplo de sistemas de “orquestração” baseados em IA, capazes de sincronizar recursos em uma operação intralogística de forma que um humano jamais conseguiria em termos de velocidade e capacidade de processamento. “Empresas que já perceberam isso já estão fazendo. As que não usam, perdem produtividade e competitividade“, afirma.
O diretor do IMAM também detalha o potencial dos gêmeos digitais, que são réplicas virtuais de operações reais. As aplicações vão desde o treinamento de câmeras com IA para identificação de acidentes (simulando incidentes no mundo virtual, sem riscos) até a simulação preditiva da operação do dia seguinte. “O sistema avisa: ‘Banzato, vai ter um gargalo nessa área amanhã‘. Assim, você pode antecipar a alocação de recursos“, exemplifica. Apesar da acessibilidade técnica, Banzato reitera que menos de 10% das empresas no Brasil exploram essa tecnologia.
Questionado sobre o risco de formação de monopólios tecnológicos, com menos de 10% das empresas avançando enquanto as demais ficam para trás, Banzato demonstra otimismo em um cenário descentralizado. Ele compara o movimento ao que ocorreu com a internet, que democratizou o acesso. “Vejo pequenas empresas, por meio de seus profissionais, iniciando investimentos em automação, e médias empresas com iniciativas pontuais. Haverá uma evolução da governança tecnológica, similar ao que aconteceu com a excelência operacional, que se desdobrou para fornecedores e para o mercado em geral“, prevê.
Para encerrar, o diretor do IMAM sintetiza as cinco grandes forças que, em sua visão, continuarão a movimentar os investimentos em tecnologia e automação no setor. São elas: produtividade (fazer mais com menos, justificando investimentos), qualidade (focada na expectativa do cliente, mesmo sem retorno econômico direto), competitividade (como diferencial de mercado), segurança e bem-estar (ergonomia e proteção dos trabalhadores) e, por fim, ESG (responsabilidade ambiental, social e corporativa). “Esses cinco pontos são chave e vão continuar movimentando as iniciativas na área de tecnologia e automação“, conclui Banzato, sinalizando que, para a intralogística brasileira, o futuro já começou – ainda que de forma desigual e híbrida.
