A discussão sobre o melhor modelo de gestão para frotas de equipamentos de movimentação intralogística está longe de ser nova no setor, mas ganhou novos contornos com a popularização das máquinas elétricas. Todo operador logístico, em algum momento, se depara com a necessidade de decidir entre seguir com a locação ou verticalizar a frota própria.
O que Fábio Pedrão, diretor executivo da Retrak, alerta é que essa escolha não pode ser feita com base apenas na menor incidência de falhas dos equipamentos elétricos. “De fato, eles exigem menos manutenção do que os modelos a combustão, mas esse fator isoladamente está longe de resolver a equação econômica. O que realmente precisa estar no centro da análise é o custo total de propriedade da frota ao longo do tempo”, analisa.
Quando o operador compra o ativo, ele passa a carregar integralmente o custo do capital imobilizado, a depreciação do equipamento, os gastos com manutenção, a necessidade de manter um estoque de peças, a capacitação técnica da equipe e, principalmente, o risco de indisponibilidade das máquinas. “No modelo de locação, toda essa estrutura já está embutida no contrato, transferindo para a locadora as responsabilidades e os riscos associados”, conta Pedrão. Na frota própria, por outro lado, é preciso montar internamente toda essa retaguarda com consistência e escala — e esse é justamente o ponto que, segundo ele, frequentemente fica subestimado nas análises iniciais.

Mesmo se tratando de máquinas elétricas, que possuem arquitetura mais simples e menor índice de quebra, a manutenção se tornou mais especializada e não basta mais contar com um mecânico generalista. É preciso dispor de técnicos treinados, com atualização constante, ferramental adequado, capacidade de diagnóstico eletrônico e disponibilidade imediata de peças críticas. “Se o operador deseja garantir o mesmo nível de disponibilidade que teria com uma locadora estruturada, ele precisa investir pesado nessa retaguarda. Caso contrário, a conta que parecia favorável no papel pode rapidamente se transformar em custo operacional oculto, especialmente quando começam a ocorrer paradas de máquina por falta de peça, atrasos no atendimento ou demora na tomada de decisão sobre o reparo”, ilustra Pedrão.
Outro aspecto fundamental diz respeito ao perfil do operador logístico. Segundo o executivo, em geral, esse tipo de empresa trabalha com contratos variáveis, enfrenta picos sazonais e gerencia operações diferentes entre si. Uma operação pode exigir um equipamento com maior altura de elevação; outra, maior capacidade de carga; uma terceira, uma configuração específica de bateria ou um regime de uso mais intenso. “No modelo de locação, essa flexibilidade vem naturalmente junto com o contrato, permitindo ajustes conforme a demanda. Quando a frota é própria, a empresa precisa absorver integralmente o risco de ter especificado o equipamento errado, de conviver com a ociosidade de ativos ou de precisar reforçar a frota fora do planejamento inicial”, compara.
No que diz respeito às baterias de íons de lítio, Pedrão reconhece que há ganhos operacionais relevantes e que essa tecnologia é hoje uma tendência clara do mercado. “Mas isso não elimina os demais componentes da conta. A substituição de componentes críticos continua sendo cara, e a reposição de baterias, carregadores ou controladores pode ter impacto elevado no caixa da empresa. Além disso, quando a frota é própria, um evento isolado — seja uma falha operacional, um erro de uso, um dano elétrico ou um atraso na manutenção — deixa de ser problema do locador e passa a ser problema direto do operador, com todas as consequências financeiras e operacionais que isso implica”, analisa.
Por tudo isso, o diretor executivo da Retrak enfatiza que a comparação correta não é entre “máquina elétrica quebra pouco, então compensa comprar”. Ela deve responder a perguntas objetivas, tais como “qual é o custo financeiro do ativo?”, “qual é a depreciação real ao longo da vida econômica do equipamento?”, “qual é o custo de um serviço full service equivalente?”, “quanto custa sustentar uma estrutura interna de manutenção” e, crucialmente, “qual é o impacto da indisponibilidade sobre a operação?”. Segundo ele, quando essa conta é feita de forma completa e rigorosa, muitos operadores percebem que a locação continua sendo mais eficiente, especialmente em operações marcadas por volatilidade, sazonalidade e alta exigência de disponibilidade dos equipamentos.
Para aquelas empresas que desejam testar a verticalização, Pedrão recomenda um caminho prudente e diz que, em vez de uma mudança brusca de modelo, o mais sensato é conduzir um piloto controlado com parte da frota. “Essa abordagem permite medir na prática os custos reais de manutenção, os tempos de parada, a reposição de peças, a necessidade real de equipe técnica e o impacto operacional efetivo. Trata-se de uma decisão estratégica que precisa ser baseada em custo total de propriedade, disponibilidade e risco operacional — e não apenas na percepção, ainda que verdadeira, de que a máquina elétrica dá pouca manutenção”, finaliza o executivo.

