A diretora administrativa da Zorzin logística, Gislaine Zorzin é dessas empresárias que teve a sua criação forjada no “chão de fábrica”, mais precisamente nas dependências da empresa em se tratando de uma transportadora. Descendente do fundador Orlando Zorzin, ela cresceu entre caminhões, motoristas e ajudantes e foi galgando postos até chegar ao cargo de diretora da empresa há 23 anos.
Gislaine tem a sua carreira pontuada pelos desafios inerentes à uma função do calibre que ocupa, colecionando vitórias e dissabores, como mudanças dramáticas na hora de encerramento de contrato com um grande cliente antigo, a até a convicção de que a decisão acertada (ela divide o cargo na diretoria junto com o irmão) levou a Zorzin, que tem sede em Mauá (SP), chegar onde está hoje: com uma carteira de 80 clientes e previsão de crescimento de 40% para este ano, mesmo patamar obtido em 2022. E mais um acréscimo veio da experiência: a importância de contar com clientes com valores alinhados aos da companhia. A transportadora também se preocupa em acompanhar os rumos dos novos tempos, implantando inovações no âmbito de gestão de pessoal que a levaram conquistar o 1º lugar de um total de 79 empresas avaliadas do país, no Índice de Equidade do TRC, do Movimento Vez e Voz, do Setcesp (Sindicato de Empresas de Carga de São Paulo e Região) deste ano, indicador que mede o compromisso das empresas com o desenvolvimento, integração e retenção das mulheres. Do alto de tantas responsabilidades, ela concedeu a seguinte entrevista à Frota&Cia:
Frota&Cia – Desde quando trabalha na Zorzin?
Gislaine Zorzin – Entrei com 14 anos. Como diretora já estou há 25 anos na função. Fui muito incentivada pelo meu pai. Cresci entre caminhões, motoristas e ajudantes. Hoje estou no comando da empresa junto com o meu irmão.
Frota&Cia – Desde que assumiu, provavelmente precisou enfrentar fatos típicos, como os ciclos dos altos e baixos notórios da economia brasileira. Como se saiu nas fases críticas?
Gislaine Zorzin – Ser empresário no Brasil é um desafio enorme. Lembro que desde o Plano Collor até agora sempre houve desafios. Mas a gente vai se adequando. Brasileiro não desiste nunca. Mas fazemos a nossa parte, direcionando bastante investimento em tecnologia para acompanhar a evolução do mercado. E quanto a essas mudanças econômicas, a gente vai se adaptando. Acho que é uma habilidade que o empresário brasileiro tem em relação a outros países mais estáveis economicamente. Recentemente, enfrentamos vários desafios bem grandes, como em 2018, com a greve dos motoristas, e aqueles aumentos fortes dos combustíveis no ano passado. Então a gente tem que ir se adequando, conversando com os clientes. Geralmente eles são receptivos, muito parceiros, então encontramos um equilíbrio para ambas as partes.
Frota&Cia –Qual o momento mais crítico que exigiu a tomada de alguma decisão?
Gislaine Zorzin – Fizemos há dez anos uma revisão de todos os contratos. De contratos antigos que constatamos que não tinham rentabilidade…estávamos pagando para trabalhar e precisamos declinar de um contrato de quase 40 anos. Tivemos um recomeço, mas foi das decisões mais acertadas que tomamos. Conforme fomos nos especializando, crescendo, agregando novos conceitos de renovação de frota na empresa, colocando tecnologia nova, a gente não conseguiu fechar o nosso preço adequado com essa empresa, que o cliente visse valor no que oferecemos na nossa transportadora. Mas foi uma decisão super importante que alavancou a Zorzin, apesar termos sentido muito pelo orgulho de trabalhar com esse cliente. Mas, abrir mão dele representou um salto muito grande nos negócios da Zorzin. Caso não tivéssemos tomado a decisão, nem sei se estaria conversando com você agora. Hoje concluímos que se tivéssemos decidido antes seria melhor, mas não acho que devemos olhar para trás. Nada acontece por acaso e tudo tem a sua hora.
Frota&Cia – Qual a projeção de faturamento para este ano e como foi o ano de 2022 nesse quesito?
Gislaine Zorzin – Obtivemos crescimento de 40% de 2022, considerado um ano excelente para nossos negócios. Conseguimos um cliente grande, o que desencadeou várias relações comerciais, pois ele viu valor no nosso atendimento, na nossa qualidade. Temos os valores de segurança e qualidade muito alinhados e pilares são muito parecidos. O que esse cliente busca está muito atrelado ao que temos. Então, foi um divisor de águas na Zorzin. E prosseguimos prospectando vários outros negócios.
Para 2023, a intenção é de crescer mais 40%. Para se ter uma ideia do salto da companhia, terminamos 2021 com 60 funcionários e hoje contamos com 160. Hoje mesmo estamos com a sala de integração lotada, pois estamos contratando para muitas vagas em vários setores e vivendo um dos melhores momentos da empresa.
Frota&Cia – Ao que atribui o desempenho desse ano e de 2022?
Gislaine Zorzin – Estamos chegando aos clientes que buscávamos, aqueles onde o preço não é o fator decisivo para a contratação da Zorzin. Preço também um dos fatores, mas não deve ser decisivo na nossa visão. Vários anos já estávamos dentro de clientes com um escopo diferenciado, ou seja, que entendam o valor diferenciado ao atendimento, que investimento em segurança é necessário e tem custo. Então estamos cada vez mais nos juntando a clientes com essa percepção e conseguindo equilibrar a nossa rentabilidade de forma saudável. Estamos trabalhando com frota nova, sempre prezando o treinamento de pessoal, e qualificação.
Frota&Cia – A transportadora se consolidou por sua atuação na área de transporte de químicos. Como é atuar em um setor tão específico e que requer muitos cuidados?
Gislaine Zorzin –Hoje temos 80 clientes, todos da área química. Não trabalho com carga fracionada, só com carga fechada. Na verdade a gente atende um cliente do setor elétrico, com suporte químico, porque os transformadores são todos a óleo. Procuramos conscientizar a nossa equipe da importância social que a gente tem, pois trabalhamos com o setor de energia, cloro para estações de tratamento de água, oxigênio para atendimento de home care… Então o nosso serviço impacta toda a sociedade. Outro ponto é saber valorizar o motorista. Sou filha e neta de caminhoneiros e tenho orgulho disso. E é o transporte que movimenta a economia do país. É cultural… Aquela coisa, motorista, é considerada uma profissão meio à margem da sociedade. Isso está mudando lentamente. A gente tem que valorizar. Se não tem transporte, não tem nada. Só chega comida na casa da pessoa se tiver transporte. Não adianta ter fábrica, se não há transporte de matérias-primas.
Frota&Cia – A empresa tem ações em relação aos motoristas e demais funcionários?
Gislaine Zorzin – Motorista tem que ter essa percepção de que o trabalho dele é muito importante. Fazemos palestras, eventos, homenagens. No ano da covid, por exemplo, criamos uma premiação que envolveu troféus para cada membro da equipe, demonstrando reconhecimento pelo trabalho de todo mundo. Eu e o meu irmão não deixamos de vir um dia sequer para a empresa, pois sabíamos que o pessoal estava lá, botando a cara para bater. E eles foram os heróis do mundo. O transporte não parou de jeito nenhum. Todo mundo teve água, comida e remédio por causa do transporte que estava funcionando. Então, em 2021, mandei fazer um troféu para cada um dos funcionários, com título de herói ou heroína do TRC, com uma mensagem em 2021. As pessoas ficaram muito emocionadas com essa atitude, porque eles sabem o que passavam na rua. Eu mesma vindo para a empresa observava o cenário desolador deixado pela pandemia, com ruas vazias e a ausência de movimento na maior cidade do Brasil. Outro passo importante foi a conquista do 1º lugar de um total de 79 empresas avaliadas do país, no Índice de Equidade do TRC, do Movimento Vez e Voz, do Setcesp (Sindicato de Empresas de Carga de São Paulo e Região) deste ano, indicador que mede o compromisso das empresas com o desenvolvimento, integração e retenção das mulheres.
Frota &Cia – Quantas aquisições em termos de frota a Zorzin planeja fazer este ano?
Gislaine Zorzin – Esse ano pretendemos adquirir 50 caminhões Euro 6.
Frota&Cia – Como é o dia a dia de quem lida com transporte de carga tão delicada e que requer cuidados, como o setor de químicos exige?
Gislaine Zorzin – Acompanhamos a evolução do setor e estamos sempre ligados em mudanças de legislação, que é um ponto bem crítico na área. Então estamos atentos às novas demandas, governos… Há documentos preenchidos junto com a tecnologia de segurança, que avalia o risco e procedimentos envolvendo cofres de carga para separar elementos incompatíveis. É bem delicado. Cada cliente tem exigências diferentes: ás vezes diz respeito ao tipo de carrocerias, outros exigem um equipamento, um EPI diferente. Cada cliente novo é tratado, dentro da Zorzin, como um projeto.
