Transpanorama reduz em 93% o número de acidentes com o apoio de dados

Case da Platform Science e Transpanorama revela como frota roda 21 milhões de km sem um único sinistro após investimentos em tecnológica

Por Gustavo Queiroz

- dezembro 26, 2025

Frota da Transpanorama

Num setor onde o controle de riscos é frequentemente ofuscado pela pressão por produtividade e prazos, a métrica de segurança operacional deixou de ser um indicador passivo para se tornar o principal vetor de transformação cultural e eficiência. A Transpanorama, uma das dez maiores transportadoras do Brasil e integrante do Grupo G10, materializou essa evolução ao registrar uma redução de 93% na taxa de acidentes por milhão de quilômetros rodados entre 2018 e 2024. O índice, que era de 0,653, caiu para 0,047, o que significa que a frota de 1.200 caminhões da empresa hoje roda mais de 21 milhões de quilômetros antes de registrar um único acidente. O catalisador dessa mudança foi a implementação estratégica da plataforma unificada da Platform Science, empresa líder em soluções de telemática e segurança viária que, após adquirir as operações globais da Trimble Transportation, consolidou sua presença no mercado latino-americano.

A arquitetura técnica por trás do resultado é baseada em um ecossistema de coleta e análise de dados em tempo real. Segundo Gabriel Andrade, consultor de Experiência do Cliente na Platform Science, a ferramenta integra, em um único hardware, a telemetria veicular convencional e um sistema avançado de vídeo-monitoramento com inteligência artificial embarcada e em nuvem. “Telemetria resume os dados gerados pelo veículo, como velocidade, rotação do motor e consumo. Já o vídeo-monitoramento foca no comportamento do condutor, identificando ações além do padrão de direção“, explica Andrade. A plataforma V-Fleet atua como um centralizador, cruzando esses fluxos de informação para criar um panorama holístico da operação.

Gabriel Andrade, consultor de Experiência do Cliente na Platform Science
Gabriel Andrade, consultor de Experiência do Cliente na Platform Science | Foto: Divulgação

Os algoritmos de inteligência artificial são treinados para detectar uma gama extensa de comportamentos de risco. Além dos clássicos sinais de fadiga (bocejos) e distração por uso de celular, o sistema identifica a não utilização do cinto de segurança, o consumo de cigarro na cabine, a presença de carona indevida e a falta de EPIs em operações específicas, como descarga. Uma câmera ADAS (Advanced Driver-Assistance Systems) posicionada no para-brisa monitora a via à frente, gerando alertas para distância perigosa de outros veículos e ultrapassagens em faixas contínuas. “A IA permite compilar todos esses dados em um único ambiente, dando um poder de decisão muito maior ao gestor. Não se trata apenas de gerar um alerta de celular, mas de contextualizá-lo: a que velocidade o veículo estava? Em que trecho da rodovia?“, detalha o consultor.

A geração de insights acionáveis é um diferencial operacional. A plataforma vai além da simples notificação, oferecendo ferramentas como a predição de acidentes. “Ela cruza os padrões de condução e alertas de um motorista específico com o banco de dados da PRF, considerando os índices de sinistralidade dos trechos que ele percorre“, afirma Andrade. Isso permite ações preventivas direcionadas. Relatórios em business intelligence (BI) com mais de 30 telas ajudam a hierarquizar problemas, mostrando, por exemplo, o motorista com maior índice de geração de alertas ou o quilômetro médio percorrido entre eventos críticos. A análise de mapa de calor revela os locais e turnos com maior recorrência de determinadas infrações, embasando mudanças operacionais e treinamentos.

A implementação em uma frota de grande porte exigiu uma abordagem faseada e sensível ao fator humano. A instalação dos equipamentos foi gradativa, priorizando as operações consideradas mais críticas, como transporte de combustíveis e encomendas postais. O maior desafio, contudo, não foi técnico, mas cultural. “É comum a percepção inicial do motorista de que está sendo vigiado. A cabine, muitas vezes, é sua residência temporária“, reconhece Andrade.

Para garantir a adesão, o processo foi acompanhado de comunicação transparente sobre o propósito salvar vidas e de uma revisão da política de frota, equilibrando consequências por desvios com um robusto programa de recompensas meritocráticas. “Reconhecer o bom desempenho em segurança e economia cria promotores internos da cultura“, ressalta o consultor.

A privacidade dos motoristas foi preservada através de configurações personalizáveis. Em empresas onde os profissionais pernoitam no veículo, é possível programar o desligamento automático das câmeras internas após o corte da ignição, enquanto as externas permanecem ativas por um período definido para segurança patrimonial. As gravações não captam áudio, e as imagens associadas a alertas ficam armazenadas na nuvem por cinco anos, com opção de download pelo cliente. “Tudo é configurável de acordo com a realidade de cada operação. O objetivo é eliminar riscos, não invadir a intimidade“, assegura Andrade.

A redução dos acidentes reflete diretamente na diminuição das despesas com manutenção e outros gastos
A redução dos acidentes reflete diretamente na diminuição das despesas com manutenção e outros gastos | Foto: Divulgação

Os resultados comportamentais mensuráveis reforçam a mudança cultural. Em comparação entre janeiro e novembro do ano de implementação, a Transpanorama registrou uma redução de mais de 60% nos alertas de distração e superior a 57% nos casos de não uso do cinto de segurança. Para Cláudio Adamuccio, diretor administrativo da transportadora, a tecnologia foi um divisor de águas. “Conseguimos identificar riscos antes que se tornem incidentes e agir de forma preventiva. Proteger os motoristas e fortalecer a confiança dos nossos clientes são nossas grandes prioridades“, afirma.

Rony Neri, diretor-executivo da Platform Science para a América Latina, vê no caso um paradigma para o setor. “Quando falamos de inteligência artificial e vídeo-telemetria, estamos falando de salvar vidas e reduzir custos de maneira inteligente. A Transpanorama é um exemplo de como a união entre dados, disciplina operacional e inovação pode transformar completamente a cultura de segurança no transporte brasileiro“, destaca.

O roadmap tecnológico da Platform Science aponta para uma gestão ainda mais proativa. Novos desenvolvimentos, como o recurso Dual Maps, permitirão ao gestor mapear e compartilhar com o motorista rotas otimizadas que considerem as dimensões do veículo e restrições viárias, evitando vias inapropriadas.

A contínua evolução dos algoritmos de IA promete refinamento na detecção de riscos e automação de respostas. Para Gabriel Andrade, a lição fundamental do case vai além dos números. “A tecnologia trouxe visibilidade, mas foram as ações humanas com base nesses dados que mudaram a cultura. Construir segurança é um trabalho de tijolo em tijolo, onde cada dado convertido em ação preventiva ou reconhecimento afasta um potencial sinistro e preserva vidas“, conclui.

 

Compartilhe nas redes sociais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *