Loadsmart quer acabar com a espera de caminhões no Brasil

Espera média de 11 horas em centros de distribuição revela o custo oculto da ineficiência logística no país, que consome quase o dobro da média dos EUA

Por Gustavo Queiroz

- setembro 11, 2026

Giovanni Battistella, vice presidente de Produto da Loadsmart

A fila de caminhões se estende por quilômetros, um espetáculo silencioso de ineficiência. Motores em ponto morto, motoristas à mercê de um relógio que não avança, cargas que deveriam estar nas prateleiras paradas sob o sol. Este é um retrato comum do Brasil, um país onde um dos ativos mais valiosos da economia, o tempo, é frequentemente desperdiçado em diferentes etapas da movimentação de cargas.

Enquanto a economia estadunidense gasta 8,8% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em custos logísticos, no Brasil é quase o dobro, chegando a 15,5%. É nesse cenário que a Loadsmart, multinacional de tecnologia logística, finca sua bandeira no país com a missão de transformar um dos maiores gargalos da infraestrutura nacional em uma oportunidade de produtividade.

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Fundada há 12 anos pelo brasileiro Felipe Capella e pelo colombiano Ricardo Salgado, a Loadsmart construiu sua reputação nos Estados Unidos, gerenciando a complexidade de mais de quatro mil armazéns e conectando-se a 230 mil transportadoras. Agora, a empresa volta ao solo natal de um de seus fundadores para enfrentar um desafio que conhece bem, trazendo consigo a experiência de um mercado que já domina a arte da eficiência. O carro-chefe dessa expedição é o OpenDock, uma plataforma de agendamento de cargas e gestão de pátio que, em terras americanas, já provou seu valor, reduzindo em 62% o tempo de espera dos caminhões.

Há um custo, estimamos na faixa de R$ 240 por hora, de um ativo parado esperando para descarregar”, revela Giovanni Battistella, vice-presidente de Produto da Loadsmart, em uma conversa que revela a urgência e a oportunidade do momento. “Quando você pensa em um frete de 4 a 5 mil reais, é um valor expressivo”, complementa. A fala de Battistella ecoa a realidade de um setor onde as longas esperas não é uma exceção. Nos Estados Unidos, onde o OpenDock já opera, esse tempo fica abaixo de duas horas. O fosso é imenso, segundo a empresa e a Loadsmart acredita que a tecnologia pode ser a ponte.

A aposta da empresa não é em projetos longos e caros, que demandam meses de implementação e equipes dedicadas. A escalabilidade é o mantra. “Ele é um produto altamente parametrizável, atende a complexidade de grandes players logísticos, como a DHL e a DSV, mas também atende uma operação mais simples, com poucas docas”, explica Battistella. A promessa é de uma implementação em semanas, e não em meses, algo que contrasta com a realidade de muitos sistemas empresariais que se arrastam por oito meses de customização. “Nós temos uma instância para mais de quatro mil armazéns que usam o produto nos Estados Unidos. Esse é um dos grandes diferenciais”, orgulha-se o executivo.

A plataforma não se resume a um simples agendador de horários. Ela é um ecossistema que integra a gestão da portaria, do pátio e das docas em uma única fonte. O SmartGate, uma tecnologia de visão computacional baseada em inteligência artificial, utiliza câmeras para registrar automaticamente a entrada e saída de veículos, eliminando a necessidade de check-ins manuais e reduzindo a papelada. É a digitalização de um processo que, na maioria dos casos, ainda depende de e-mails, planilhas e telefonemas, gerando congestionamento e falta de visibilidade.

Apresentação ao mercado nacional

Giovanni Battistella, vice presidente de Produto da Loadsmart
Battistella: R$ 20 milhões em investimentos na operação nacional e portfólio avançando gradualmente | Foto: Divulgação

A presença na feira Intermodal South America foi um marco, segundo Battistella, que descreve o mercado brasileiro como “muito mais pulsante”. Foram mais de 100 demonstrações do produto em um único evento, um sinal claro da fome por ferramentas que ataquem ineficiências. Segundo o executivo, a Loadsmart está num ciclo de investimentos de R$ 20 milhões, nos próximos três a quatro anos, para materializar a presença e a cobertura da empresa nacionalmente.

A estratégia de conquista do mercado brasileiro é dupla. De um lado, a Loadsmart aproveita sua carteira de clientes estadunidenses que já possuem operações no Brasil, facilitando a entrada em grandes empresas com múltiplos centros de distribuição. De outro, a empresa investe pesado na aquisição de novas marcas, com uma equipe dedicada e presença em eventos como a Intra-Log, onde pretende consolidar seu nome. “Queremos estar no Brasil justamente nesse momento, trazendo uma perspectiva global, mas com os pés na realidade local”, afirma Felipe Capella, CEO da empresa.

Battistella aponta para um futuro onde a inteligência artificial será a próxima fronteira. A demanda por soluções de IA é forte, especialmente para a conciliação de documentos e o processamento de informações, tarefas que ainda consomem horas de trabalho manual. “Nós estamos lançando nos Estados Unidos a plataforma Loadsmart AI”, revela, indicando que a automação inteligente é o próximo passo natural para fechar o ciclo do frete de ponta a ponta. A médio prazo, o Transport Management System (TMS) da empresa, já consolidado nos EUA, também deve ser tropicalizado para o mercado brasileiro, adaptando-se às especificidades do frete nacional.

Para além da tecnologia, Battistella reforça que o custo do tempo parado afeta, diretamente, na rentabilidade das operações logísticas e que a gestão dos períodos de carga e descarga podem ampliar, significativamente, a eficiência do transporte e dos armazéns, além de aumentar a disponibilidade da frota.

Eficiência x Ineficiência

De acordo com uma pesquisa realizada em 2025 pelo Instituto Paulista do Transporte de Carga (IPTC), o tempo médio de espera para um caminhão descarregar em um Centro de Distribuição (CD) na capital paulista chega a 11 horas.

A ineficiência na gestão de docas tem um peso direto no bolso do transportador e, consequentemente, no valor final do frete. Estudos do setor indicam que cada hora parada custa cerca de R$ 240 para a transportadora. Além disso, um dia de atraso na operação pode significar a perda de um frete inteiro, agravando problemas crônicos como a alta rotatividade de motoristas.

O impacto na produtividade da frota é matematicamente cruel. Considerando uma base de 300 horas disponíveis por mês e um custo fixo mensal de R$ 60 mil por caminhão:

  • Cenário 1 (10h por viagem): 30 viagens/mês, com custo de R$ 2.000 por viagem.
  • Cenário 2 (12h por viagem): 25 viagens/mês, com custo de R$ 2.400 por viagem.

Um acréscimo de apenas duas horas no tempo operacional total resulta em uma queda de 16,7% na produtividade e um aumento de 20% no custo por viagem, sem que o veículo tenha rodado um quilômetro sequer a mais.

O problema, segundo especialistas, não é a falta de infraestrutura, mas sim a falta de alocação inteligente. A imagem de “docas vazias com fila na portaria” é comum e revela um gargalo de gestão, já que a capacidade de recebimento existe, mas a chegada dos veículos não é organizada.

Para o armazém, as consequências são a elevação do preço do frete (que embute a ineficiência), a operação às cegas (sem previsibilidade do que chega) e a baixa performance, já que sem dados estruturados não há como melhorar processos.

Uma análise comparativa baseada na Resolução ANTT nº 6.084/2026 ilustra a vantagem competitiva de operações eficientes. Para a rota Itajaí-SC até São Paulo-SP (aproximadamente 600 km):

  • Operação Padrão: Piso mínimo calculado em R$ 4.660,64.
  • Operação de Alta Performance: Piso mínimo calculado em R$ 3.625,88.

A diferença de R$ 1.034,76 (uma economia de 22,2% no piso mínimo obrigatório) está condicionada ao tempo de carga e descarga ser realizado em até 3 horas. Ou seja, a gestão de pátio eficiente viabiliza a “Alta Performance” e gera economia direta por viagem.

Para eliminar a fila, a abordagem precisa ser sistêmica, organizando o volume de chegada para respeitar a vazão de saída constante das docas. A metodologia proposta pela Loadsmart envolve quatro passos cíclicos:

  • Planejar: Agendamento e distribuição da chegada dos veículos.
  • Executar: Gestão de portaria e pátio (SmartGate, YMS), com automação e visão computacional para identificar motorista, veículo e carga.
  • Controlar: Coleta de indicadores (pontualidade, tempo de check-in, ocupação do pátio e giro de docas).
  • Agir: Replanejamento contínuo da grade de horários e regras.

A implementação de plataformas de agendamento já mostra resultados expressivos. Dados consolidados da plataforma Opendock, referentes às operações nas Américas (varejo e logística), entre agosto de 2025 e julho de 2026, revelam:

  • 375 armazéns operando com o sistema.
  • 12 milhões de agendamentos realizados em 12 meses.
  • 1h48 de permanência média por veículo (contra as 11h de espera da média tradicional).
  • 54,7% dos veículos chegam no horário agendado.

A migração para este modelo não exige longos períodos de integração. O cronograma típico de implantação é enxuto:

  • Dias 1-2: Setup inicial.
  • Dias 3-5: Ativação do canal de comunicação (ex: WhatsApp) e cadastro de transportadoras.
  • Semana 2: Início das operações.
  • Semanas 3-4: Operação plena e estável.

Para avaliar o estágio atual de uma operação, a Loadsmart sugere três perguntas-chave:

  1. Qual é o tempo médio de permanência da sua operação atualmente? (Se não souber, essa é a primeira métrica a buscar).
  2. Qual o percentual de pontualidade dos transportadores? (Menos da metade não é indisciplina, é falta de informação).
  3. KPIs de performance de pátio fazem parte da reunião de resultados?

O armazém inteligente começa por saber o que acontece na sua portaria”, conclui a análise.

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