A indústria automobilística brasileira atravessa uma fase marcada pela diversificação de modelos, pela expansão dos veículos híbridos e elétricos e pela necessidade de respostas mais rápidas ao mercado. Nesse cenário, o transporte de veículos zero-quilômetro deixa de ser uma operação restrita ao deslocamento entre fábricas e concessionárias e passa a ocupar uma posição estratégica dentro da cadeia automotiva.
Essa é a leitura de Daniela Medioli, vice-presidente executiva do Grupo SADA. Segundo ela, a logística precisa acompanhar a modernização dos processos produtivos e a crescente exigência por qualidade, rastreabilidade, sustentabilidade e previsibilidade. A operação passa a incluir, além do transporte, gestão de pátios, armazenagem, operações portuárias, inspeção, instalação de acessórios, preparação para entrega e disponibilização de informações em tempo real.
Embora o país tenha avançado em corredores logísticos relevantes, ainda existem diferenças significativas entre as regiões e defasagens históricas na infraestrutura de transportes. Para uma operação especializada, como a movimentação de veículos novos, a qualidade do pavimento e a disponibilidade de serviços de apoio afetam diretamente prazos, segurança, consumo de combustível e custos.
A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, citada por Medioli, aponta que condições inadequadas de pavimento podem elevar em 31% os custos do transporte.
A executiva defende planejamento de longo prazo, continuidade dos investimentos e maior integração entre os modais. Uma rede mais moderna e segura é necessária para que o Brasil reduza custos, aumente a eficiência e acompanhe a transformação tecnológica do setor automotivo.

Principais desafios enfrentados pelo Grupo SADA
O transporte de veículos zero-quilômetro enfrenta uma combinação de obstáculos estruturais e conjunturais. Entre eles estão a oscilação dos volumes produzidos, os custos operacionais, a insegurança, as diferenças na infraestrutura rodoviária e a necessidade de otimizar continuamente rotas e ativos.
A escassez de mão de obra especializada, especialmente de motoristas, também ganhou relevância. A executiva cita que a pandemia de Covid-19, assim como em outros segmentos, expôs algumas vulnerabilidades. A retomada foi bem irregular e difícil de prever.
Quando entrarmos no campo da sustentabilidade, Daniela comenta que o Grupo apostou no GNV e biometano como opções em determinadas rotas. Mostrando, assim, uma das tendências do transporte pesado: combinar mais de uma estratégia, considerando a infraestrutura disponível.
Em 2024, o Grupo SADA iniciou a operação de caminhões-cegonha movidos a gás natural em trajetos com infraestrutura de abastecimento adequada. Em 2026, concluiu, em parceria com a MWM/Tupy, o retrofit de 35 caminhões originalmente movidos a diesel. Os veículos receberam motores de 330 cv preparados para operar com gás natural ou biometano, ampliando sua vida útil e reduzindo o impacto ambiental.
Diversificação acompanha novas demandas da indústria
A evolução da cadeia automotiva também estimula a ampliação do portfólio logístico. Além do transporte de veículos novos, o grupo abriu espaço para novos segmentos. A carga geral continua sendo uma frente importante.
Em 2025, o volume de produtos transportados pelo Grupo SADA nesse segmento cresceu 13,7% em relação ao ano anterior, com aumento da participação em alimentos e bebidas, frigoríficos e siderurgia. O movimento indica que a expertise logística desenvolvida no setor automotivo pode ser aplicada a cadeias com diferentes características e necessidades.
Mais do que uma estratégia de diversificação empresarial, a ampliação para outras cargas reflete a busca do mercado por operadores capazes de oferecer escala, flexibilidade e serviços integrados em um ambiente de volumes variáveis.
Investimentos do Grupo SADA
A transformação da indústria também cria oportunidades na cadeia de fornecedores. O investimento de aproximadamente R$ 500 milhões da OMR Componentes Automotivos, empresa do Grupo SADA, em Sete Lagoas (MG), prevê a implantação de uma fábrica de rodas de alumínio e a expansão da fundição de componentes.
Cerca de R$ 350 milhões serão destinados à unidade de rodas e R$ 150 milhões à expansão da fundição. Com o projeto, o complexo passará de 40 mil para 72 mil metros quadrados e contará com 14 células de fundição sob baixa pressão, área de tratamento térmico, oito células de usinagem e uma linha de pintura.
A operação deverá começar em 2027, com capacidade inicial de um milhão de rodas por ano e possibilidade de alcançar dois milhões em uma segunda etapa. Serão produzidas rodas de 15 a 21 polegadas para diferentes categorias de veículos leves, incluindo modelos eletrificados, com foco inicial no mercado brasileiro. A expectativa é de geração de cerca de 600 empregos diretos.
Uma logística mais estratégica
A visão apresentada por Daniela Medioli aponta para uma mudança de papel da logística automotiva. O setor passa a ser avaliado não apenas pela capacidade de transportar volumes, mas por sua contribuição para a produtividade, a sustentabilidade e a experiência de entrega da indústria.
Com a retomada do mercado, a expansão dos veículos eletrificados e a maior exigência por eficiência, os operadores. Nesse ambiente, a logística deixa de ser uma etapa final da produção e se consolida como parte da estratégia industrial. Assim, capaz de influenciar custos, prazos, emissões e a própria velocidade de transformação do mercado automotivo.









