IA vira “conselheira” no agro, mesmo com mercado em queda

Por Pedro Bartholomeu

- maio 12, 2026

Agrishow 2026 destaca tecnologias para um agro mais sustentavel 1536x798

31ª edição da Agrishow fecha com retração de 22% no volume de negócios. E mostra o uso cada vez mais intenso da Inteligência artificial nas operações de campo

 

A maior feira de tecnologia agrícola da América Latina – a 31ª Agrishow – realizada de 27 de abril a 1º de maio em Ribeirão Preto (SP), serviu de termômetro, para avaliar o grau de incerteza dos empresários do segmento diante do momento econômico atual. E, também, revelar o avanço da inteligência artificial nas operações de campo, associada às novas máquinas e equipamentos.

Apesar do número de visitantes ter se equiparado ao ano anterior, cerca de 197 mil pessoas, as vendas estimadas acusaram uma queda de 22% em comparação ao registrado em 2025, não passando de R$ 11,4 bilhões. O fato evidencia um fenômeno que já vem ocorrendo em outros eventos por todo o Brasil, na forma da postergação de compras do setor à espera dos acontecimentos. Foi a primeira vez nos últimos 11 anos que a Agrishow apresentou queda na comercialização de máquinas e equipamentos.

O resultado não surpreendeu nenhum dos 800 expositores, embora dezenas deles continuam a comemorar resultados excepcionais. Em especial aqueles ligados à agricultura de precisão e a tecnologia de ponta, que não param de evoluir. O diagnóstico dos fabricantes foi unânime: a queda das vendas é resultado dos juros elevados, das incertezas políticas e da escassez de crédito ao contrário das promessas feitas. No aguardo de dias melhores, os investimentos entraram em compasso de espera e na busca de previsibilidade para os negócios.

Produção e cotação

Pesa e muito na balança do setor, a baixa sensível na cotação internacional das comodities, especialmente a de grãos. Para se ter ideia, o preço da soja caiu à metade nos últimos 12 meses, o que frustrou o recorde de produção no campo, estimado em mais de 184 milhões de toneladas. Em consequência do fato, a indústria já se prepara para a queda na comercialização de semirreboques graneleiros e nas linhas de máquinas no ciclo de produção, das colheitadeiras aos transbordos.

O resultado poderia ser pior, não fosse a produção de cana de açúcar para este ano, estimada em 709,1 milhões de toneladas, segundo a Conab, o que representa um crescimento entre 5,3% e 8,5%. Isso acontece, apesar do crescimento da produção do etanol de milho, o novo foco dos produtores do centro oeste brasileiro. A safra de milho deve chegar a 348,4 milhões de t, enquanto a salvaguarda para os canaviais é a produção de álcool, açúcar, bioenergia e biodiesel.

 

Novidades na feira

Apesar das incertezas, os avanços tecnológicos exibidos foram totalmente contrários à cautela geral dos produtores. O comparecimento das montadoras de caminhões foi acanhado, mas lá estavam Mercedes-Benz, Scania, Volkswagen, Ford que mostraram suas novidades dedicadas ao segmento.

Estande Antoniosi
Caminhão VW com caçamba Antonioisi para cana

A VWCO mostrou o resultado de uma parceria com a Antoniosi, implementadora de Matão, SP, dedicado à colheita de cana. Outra parceria ocorreu entre a MWM e Yuchai chinesa sobre caminhão DAF para um caminhão com motor 100% a biometano.

Em contraponto à ausência de várias montadoras em uma feira dedicada à tecnologia de máquinas e equipamentos, voltada para um segmento até agora responsável por até 60% de todo o mercado de caminhões do país, os chineses dominaram totalmente o quadrilátero anteriormente ocupado por montadoras e implementadoras.

Lá estiveram BYD, Foton, Suny, XCMG, GWM entre outras. Para se ter ideia de 2025 para 2026, o pavilhão chinês decolou de 18 para mais de 50 empresas. Essa participação maciça também se deve a uma característica ímpar, a maioria das chinesas também produz máquinas industriais, dos segmentos de construção, mineração e agrícolas, de colheitadeira a transbordos.

Receita do campo

Estande Mercedes Benz
Novos Atego 3433 6×4 e 3033 8×2 em versão off road

No estande da Mercedes-Benz estavam os novos Atego preparados para atender a demanda e “fechar” o buraco deixado pelo Axor 3131. O Atego 3133 off road com redução de cubos com opção de retarder mostra a desenvoltura do pbt de 30,5 t. Suas características o habilitam aos segmentos de betoneiras e tanques em chassis com entre-eixos de 4.800 mm.

Com entre-eixos de 3.600 mm e 25 t a versão atende aos serviços de caçamba, betoneiras e boiadeiros. Com suas 63 toneladas de CMT pode atuar no transporte de madeira como romeu e julieta nos transbordos com eficiência, graças ao seu motor de 7 litros. Em breve o 3433 estará a postos com 3 t a mais por eixo, suspensão reforçada e possível freio retarder.

 

Essas soluções vêm de um conceito a muito explorado pelos produtores de tratores e da linha amarela: o de ouvir as demandas do campo para solucionar problemas da diversificação das dificuldades. Desde o primeiro trator a vapor, lançado em 1850.

A fonte de inspiração do segmento sobre o sistema de produção de caminhões atingiu também os meios de manutenção, tendo como base a Caterpillar, empresa de 130 anos de vida. Hoje, a companhia oferece de motoniveladoras com dispositivos de detecção de pessoas. Um dos grandes problemas do campo. Para atender os operadores de suas máquinas espalhados em vastas áreas e em terrenos totalmente diferentes, a Cat desenvolveu o atendimento remoto em meados do século passado.

 Opção pelo gás

Estande Scania
Scania RH 560 R 6×4 a gás ou biometano

A primeira montadora no Brasil a seguir seus passos foi a Scania, ainda nos anos 70. Na Agrishow, a empresa nessa área destacou seu plano Scania Pro. Já o portfólio de produtos mostrou o RH 560 R 6×4 um caminhão a gás ou biometano que oferece um preço cada vez mais próximo ao dos veículos diesel.  “Mas sem IPVA, sem Arla e com uma economia de combustível de R$ 25 mil/ano”, acrescenta Marcelo Barreto, responsável pela Engenharia de Aplicação de Veículos da Scania. Veículo desenvolvido pela engenharia nacional, o RH é só um exemplo do potencial brasileiro de desenvolvimento de soluções.

A confirmação disso estava num estande próximo, o da XMobots, que em menos de duas décadas ascendeu de uma startup da Faculdade de Engenharia da USP São Carlos à posição de sexta maior produtora de drones do mundo.

Drone SMbots
Spad 200 A da Xmobots: duplo comando

Seu estágio tecnológico é tal que produz drones de R$ 700 mil a R$ 35 milhões, este para segurança e defesa. “Nesta Agrishow estamos lançando o Spad 200 A, um sistema no qual um operador comanda dois drones”, anuncia Bruno dos Santos, executivo Comercial da XMobots. Isso significa maior área de cobertura, maior eficiência e rentabilidade. A companhia são-carlense atualmente emprega 500 funcionários, dos quais 60% são engenheiros de P&D.

 

 

IA, automação e robotização

A normalidade das tecnologias exibidas na Agrishow deste ano reuniu soluções via IA, conectividade, automação, comunicação satelital e multifunção dos equipamentos.

“Hoje, um operador de máquina já pode contar com sistemas de inteligência artificial que conversam com ele, literalmente, durante o trabalho. A IA funciona não apenas como um instrutor master, mas como um “conselheiro operacional”, diz Claudio Esteves, diretor Comercial da Valtra.

A IA permite prever e alertar desde uma anomalia mecânica futura, para proteger a máquina, até interferir na operação, orientando o operador a retornar à base para evitar uma tempestade ou outro problema qualquer que possa comprometer a disponibilidade da máquina.

Imagine a aplicação disso num caminhão e sua contribuição para o aumento da eficiência operacional. O motorista sendo informado de ocorrências na rota à frente, acidentes, situação dos pneus e da carga e as melhores alternativas para a manutenção dos tempos de viagem, consumo e alertas de atenção.

O nível de desenvolvimento e sofisticação das máquinas mostrado na Agrishow 2026 pode ser constatado pelo grau de automação dos equipamentos e fábricas. Isso mesmo, trata-se das fábricas escuras ou dark factories, com linhas de montagem totalmente automatizadas, sem intervenção humana.

100% de eficiência

A automatização e robótica por si só possibilitam a operação em eficiência 100%, impossível nas fábricas convencionais, mesmo com a instituição do funcionamento em três turnos. “A eficiência nesse nível ocorre graças a IA, que gerencia tudo. Nas 24 horas do dia, nos 7 dias da semana e nos 365 dias do ano”, comenta Anderson Vilela, gerente de Contas Rodoviário da Irmen Sany.

Desde o suprimento das autopeças, a fábrica trabalha com robôs IA, sem necessidade de iluminação, até a logística de distribuição. Resultado: erro zero, greve zero, menores custos e alta flexibilidade de produção. A indústria de caminhões está muito perto disso. Pelo menos na China, onde foi lançada a primeira instalação do tipo para automóveis.

Voltando ao Brasil, para sanar outro problema histórico do transporte, a Toledo mostrou uma balança autônoma, que dispensa operador, energia elétrica e possibilita o monitoramento integral do procedimento. O tempo de pesagem caiu de 3 minutos, num equipamento com operador, para apenas 40 segundos.  Totalmente antifraude a balança tem capacidade para medir o peso de composições entre 120 t e 500 t e bloquear desvios. “Segundo as estatísticas, esses desvios podem alcançar entre 3 e 4 toneladas por operação”, assegura Patrick Oliveira, analista de Soluções da Toledo.

 

 

 

 

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