A eletrificação do chamado “último quilômetro” — etapa final de entregas em centros urbanos — vem ganhando contornos mais concretos no Brasil. É o que indicam os resultados de uma bateria de testes operacionais realizados pela Grilo Mobilidade, startup especializada em logística sustentável de curta distância. Em operações reais de distribuição nos estados do Rio Grande do Sul e São Paulo, a empresa avaliou o desempenho de veículos elétricos de diferentes portes e fabricantes, monitorando autonomia, capacidade de carga e eficiência energética em setores como varejo alimentar, farmacêutico e comércio eletrônico.
Ao todo, mais de 245 mil deslocamentos foram realizados no âmbito do projeto, resultando na mitigação de 346 toneladas de emissões de dióxido de carbono (CO₂). “Nosso objetivo é entender, na prática, como diferentes modelos de veículos elétricos se comportam em operações reais dos nossos clientes na logística urbana. Não se trata apenas de sustentabilidade ambiental, mas também de eficiência operacional, segurança, redução de custos e escalabilidade”, afirma Carlos Novaes, CEO da Grilo Mobilidade.

O avanço das discussões ocorre em um momento de aceleração do comércio eletrônico, considerando que projeções setoriais indicam um aumento de até 78% nas entregas de último quilômetro em todo o mundo até 2030, o que impõe desafios adicionais à mobilidade e à qualidade do ar nas metrópoles. No Brasil, a eletrificação dessa frota ainda é incipiente, mas os testes conduzidos pela Grilo sinalizam uma curva de aprendizado que pode tornar a transição mais viável em termos técnicos e econômicos.
Para a Grilo, os resultados obtidos até agora indicam que a eletrificação da frota de entregas deixou de ser uma promessa de longo prazo para se tornar uma alternativa operacionalmente tangível. Segundo Novaes, a combinação entre políticas urbanas de restrição a veículos poluentes, volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis e amadurecimento da cadeia de suprimentos de veículos elétricos tende a acelerar a adoção dessas tecnologias no país. “À medida que as cidades demandam melhores condições ambientais e o custo do combustível fóssil se torna mais imprevisível, a logística elétrica deixa de ser um diferencial e passa a ser uma estratégia competitiva”, afirma. “Os testes mostram que já existem soluções capazes de atender a diferentes perfis de operação nas grandes cidades brasileiras”, conclui.
Veículos testados

Entre os modelos testados está o BYD Dolphin Mini Cargo, utilizado em entregas de comércio eletrônico e alimentos. Com capacidade para 289 kg, volume útil de 2,1 m³ e autonomia declarada de até 280 km, o modelo representa uma alternativa para operações que exigem deslocamentos mais longos dentro do tecido urbano. “O teste com veículos de quatro rodas demonstra que a eletrificação é viável não apenas para pequenas entregas, mas também para operações urbanas mais robustas, que envolvam trânsito urbano e rodoviário, desde que o modelo seja adequado ao tipo de carga e ao raio de atuação”, explica Novaes.
No segmento de duas e três rodas, a empresa testou modelos da Mileto, marca brasileira focada na eletrificação de frotas leves. As motos elétricas Mileto Raiden, com autonomia de até 130 km e carga útil de 150 kg, foram utilizadas em entregas rápidas. Já os triciclos elétricos Mileto Trix, com capacidade volumétrica de 937 litros e autonomia variando entre 115 km e 200 km, passaram por avaliações nos segmentos farmacêutico e alimentar.
Outra participante da iniciativa foi a Hitech-e, que disponibilizou o utilitário New Delivery, veículo de quatro rodas produzido no país. Com autonomia de até 200 km e capacidade para transportar 500 kg, o modelo foi submetido a rotinas de entrega de alimentos e produtos de comércio eletrônico.
A Fever, também integrou a fase de testes com o triciclo Fever Rap FR 250 Box, com capacidade de 250 kg ou 1.600 litros e autonomia de até 110 km, foi avaliado em operações farmacêuticas. Já o caminhão leve Fever Nextem FN1000 High Box, com volume de carga de 5,2 m³ e autonomia de até 200 km, passou por testes em entregas de comércio eletrônico.
