Em um marco para a mobilidade urbana sustentável no Brasil, Goiânia começou a operar os primeiros ônibus biarticulados 100% elétricos de seu sistema BRT (Bus Rapid Transit). A novidade simboliza mais do que uma renovação de frota e representa a convergência de décadas de expertise industrial e uma visão estratégica compartilhada por fabricantes de chassis e carrocerias. André Marques, presidente da Volvo Buses na América Latina, e Ricardo Portolan, diretor de Operações Comerciais & Marketing da Marcopolo, detalham em conjunto esta nova fase.

André Marques define o momento como “histórico”. “É trazer para a realidade aquilo que a gente já vinha comunicando há algum tempo“, afirma, referindo-se ao desenvolvimento do sistema BRT elétrico. A Volvo, que colocou seus primeiros biarticulados na cidade em 2008, vê na eletrificação a evolução natural de sua trajetória de quase 50 anos no Brasil. “Trazemos toda a nossa experiência por meio dos motores elétricos da marca Volvo e, também, das baterias“, destaca. O modelo entregue, o Volvo BZRT (de 28 metros), é fruto dessa evolução.
Segundo o executivo, o chassi herda a robustez dos sistemas de freio, suspensão e articulação já consagrados, mas agrega a inovação elétrica por meio de dois motores acoplados a uma transmissão de duas velocidades e configuração de até oito baterias, somando 720 kW/h. A segurança também dá um salto, com sistemas ativos de detecção de pedestres, ciclistas e pontos cegos, além do controle automático de velocidade em zonas críticas, alinhado à visão de zero acidentes da marca.
Do lado da carroceria, Ricardo Portolan, da Marcopolo, ecoa o sentimento de marco. “É um momento super especial, feliz“, comemora. O executivo ressalta que o veículo biarticulado elétrico que começa a circular em Goiânia é “o maior veículo elétrico do mundo em operação“. A preparação para equipar o novo chassi da Volvo teve o prazo como um dos maiores desafios, superado com um desenvolvimento acelerado da carroceria Attivi na versão biarticulada específico para o chassi elétrico de 28 metros Volvo BZRT. O executivo vê o sistema de Goiânia, com sua diversidade de soluções, como um modelo para outras cidades brasileiras e defende o BRT como “a melhor solução de mobilidade para a grande maioria das cidades médias e grandes no Brasil“.

Sobre o futuro do setor, os executivos traçam rotas complementares. André Marques revela que o Volvo BRT elétrico foi desenvolvido para todo o mercado latino-americano e que há negociações avançadas em outros estados do Brasil e na Colômbia, onde uma licitação para articulados elétricos está em processo. Já Ricardo Portolan detalha a visão estratégica da Marcopolo para a transição energética, que não aposta em uma única solução, mas em um portfólio diversificado. “Acreditamos realmente numa combinação de soluções“, afirma, citando desde o elétrico puro, passando pelo híbrido a etanol até o biometano que está para ser lançado, todos com projetos em desenvolvimento pela empresa, seja em parceria com fabricantes de chassis, seja com desenvolvimentos próprios, como o Attivi Integral elétrico.
Tarifa Zero
Um ponto de convergência estratégica entre os líderes industriais é o debate nacional sobre a tarifa zero. Ambos abordam o tema com otimismo cauteloso, enxergando-o, antes de tudo, como uma valorização inédita do transporte público na agenda nacional. “O primeiro passo é colocar a questão da mobilidade como uma pauta prioritária. Isso já é um movimento muito positivo“, avalia Portolan. Marques concorda e amplia: “O que nós precisamos é atrair mais passageiros para o sistema de transporte público“. Para o presidente da Volvo Buses, um transporte público eficiente, com qualidade, conforto e segurança, é o caminho para que mais pessoas deixem o transporte individual. Essa migração, segundo ele, reduziria congestionamentos, ruído e acidentes, melhorando a qualidade de vida urbana e, consequentemente, impulsionando as oportunidades de negócio para o setor. Portolan complementa essa visão sob a ótica industrial: “A gente vê sim um crescimento na demanda de passageiros e na demanda por ônibus“, mas ressalva a necessidade de atenção à “sustentabilidade ao longo do prazo desse modelo“.
A parceria em Goiânia, portanto, vai além de uma simples entrega de veículos. Ela materializa um consenso da indústria sobre o futuro da mobilidade, que passa pelo investimento em tecnologia de ponta e sustentabilidade, com foco na atração de passageiros por meio de um serviço superior, como alicerce para cidades mais fluidas, seguras e com melhor qualidade de vida.

