Como a maior fabricante de caminhões do mundo finca raízes no Brasil

Crescer 200% ao ano exige velocidade, mas a credibilidade vem com produção local e pós-venda. Eletrificação é caminho sem volta, diz Mauricio Santana

Por Gustavo Queiroz

- julho 20, 2026

Mauricio Santana, diretor Nacional de Vendas e Pós Vendas da Foton Motor Brasil

Fundada em 28 de agosto de 1996 em Pequim, a Foton Motor nasceu como uma subsidiária do grupo estatal BAIC (Beijing Automotive Industry Holding Co.) e, em menos de três décadas, se tornou a maior fabricante de veículos comerciais do mundo. Com sede no distrito de Changping, na capital chinesa, a empresa construiu uma trajetória de crescimento acelerado, inovação tecnológica e expansão global que a levou a comercializar mais de 12 milhões de veículos em mais de 130 países. Hoje, emprega mais de 30 mil pessoas, opera 45 fábricas em 15 países e mantém presença em 20 nações das Américas, consolidando-se como a maior exportadora de veículos comerciais da China.

Montagem de caminhões na fábrica da Foton instalada na Província de Shandong
Montagem de caminhões na fábrica da Foton instalada na Província de Shandong | Foto: Divulgação

Os marcos dessa trajetória são expressivos. Em 1998, apenas dois anos após sua fundação, a Foton já se destacava como uma das principais fabricantes de caminhões da China. Em 2004, com menos de dez anos de existência, alcançou a marca de 1 milhão de veículos produzidos e diversificou seu portfólio, incluindo ônibus e vans. As parcerias estratégicas vieram em seguida e, em 2007, iniciou o desenvolvimento de motores a diesel com a Cummins, formalizando a joint venture Beijing Foton Cummins Engine Co. em 2008.

Em 2012, firmou acordo com a Daimler AG para produzir os caminhões pesados da linha Auman, e em 2017 estabeleceu parceria com a ZF para o desenvolvimento de transmissões de última geração. Em 2021, a Foton alcançou 10 milhões de veículos vendidos globalmente; em 2025, ultrapassou a marca de 12 milhões de unidades produzidas e comercializadas.

A trajetória nacional

A internacionalização da marca ganhou corpo com a abertura de sede em Moscou (Rússia) em 2010 e de uma divisão de vendas na Índia em 2011. Mas foi no Brasil que a Foton encontrou um de seus mercados mais desafiadores e promissores.

No Brasil, a Foton produz caminhões em Caxias do Sul
No Brasil, a Foton produz caminhões em Caxias do Sul (RS) | Foto: Divulgação

A história da Foton no Brasil começa em 2010, quando a marca ingressou no país representada pela Foton Aumark do Brasil, empresa controlada pelo economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central. O negócio, então, era de importação e distribuição de caminhões, com a Foton Aumark atuando como representante local dos asiáticos.

Os primeiros anos foram marcados por investimentos significativos e planos ambiciosos. Em 2014, foi anunciada a construção de uma fábrica em Guaíba (RS), com área de cerca de 1,5 milhão de metros quadrados e capacidade para produzir 17 mil caminhões por ano. O projeto, orçado em R$ 200 milhões, contaria com recursos de sócios da Foton Aumark e apoio do BNDES. Em 2016, os primeiros caminhões começaram a sair da linha de montagem, mas não no local prometido. A operação chegou a utilizar parte da fábrica da Agrale em Caxias do Sul e, posteriormente, uma unidade da Gefco no Rio Grande do Sul.

A trajetória, porém, foi acidentada. Como definiu o próprio Mendonça de Barros, foi uma caminhada “persistente e errática”, com pequenos avanços e muitos tropeços. A crise econômica e as limitações financeiras para importar veículos e peças levaram a empresa a entrar em recuperação judicial em 2019. O ano de 2019 também trouxe um divisor de águas quando a Ford decidiu fechar sua fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP) e sair do negócio. Com 101 concessionárias de caminhões administradas por 53 grupos empresariais deixando a Ford, abriu-se para a Foton a oportunidade concreta de superar seu maior problema no país, que era a falta de uma rede de distribuição consolidada.

A Carueme é um caso de concessionário Ford que migrou para a Foton. Clique aqui para conhecer mais detalhes da expansão do grupo investidor
A Carueme é um caso de concessionário Ford que migrou para a Foton. Clique aqui para conhecer mais detalhes da expansão do grupo investidor | Foto: Divulgação

A Foton atraiu oito grupos ex-Ford, que acrescentaram 21 pontos de venda e assistência à sua rede, que então tinha 19 unidades. O número de concessionárias foi dobrado para 40. Ricardo Mendonça de Barros, filho do fundador e então diretor de vendas e rede, afirmou que a estratégia era flexível e a única exigência era ter um showroom exclusivo para a Foton, com permissão para oficinas multimarcas.

O apoio direto da matriz chinesa veio em seguida. A Foton abriu uma subsidiária própria no Brasil para financiar importações, eliminando as restrições que antes limitavam o volume de veículos e peças que podiam ser trazidos ao país.

Em janeiro de 2024, a matriz assumiu o controle direto dos negócios locais, encerrando a década de gestão da Foton Aumark. A partir daí, a marca entrou em uma nova fase ao consolidar um projeto próprio e de longo prazo no mercado nacional de veículos comerciais.

Em 8 de abril de 2025, a Foton anunciou a abertura oficial de sua linha de montagem em regime CKD (Completely Knocked Down) na cidade de Caxias do Sul (RS), dentro do complexo fabril da Agrale. A unidade, com seis mil metros quadrados e capacidade anual de produção de 5 mil veículos, começou montando os modelos Aumark S 315, S 715, S 916, S 1217 e o semipesado Auman D 1722. O primeiro caminhão a sair da linha representou um marco histórico: o 12º milhão de veículo produzido pela Foton globalmente.

A fábrica, que opera com oito estações em linha e quatro fora dela, monta até sete caminhões por dia, em um ciclo de cerca de 20 horas. A produção local já soma cerca de 1.500 unidades, com capacidade de expansão para 5 mil veículos por ano. A Foton também mantém um centro de distribuição de peças em Itajaí (SC), com mais de sete mil itens disponíveis para reposição.

A expansão da rede de concessionárias é a outra frente da ofensiva brasileira. A Foton, que encerrou 2024 com 40 concessionárias, planeja chegar a 100 revendas até o final do ano em todas as regiões do país.

Foton eView Grand e Connect
Os modelos Foton eView Grand e Connect integram a estratégia de eletrificação para o mercado de comerciais leves no país | Foto: Divulgação

O portfólio da Foton no Brasil é vasto e em franca expansão. A linha a diesel inclui o semileve Aumark 315, os leves Aumark S 715 e S 916, o médio S 1217 e os semipesados Auman D 1722, D 1830 e D 2632, além das picapes Tunland. Em março de 2026, a Foton lançou no Brasil sete novos veículos comerciais elétricos, incluindo o mini truck eWonder, as vans eView Connect, eView Grand e eToano Pro, e a linha de caminhões eAumark nas versões 6T, 9T e 12T.

A eletrificação é um pilar central da estratégia global da empresa, que estabeleceu a meta Green3030, que consiste na comercialização de um milhão de veículos fora da China, com 30% desse volume composto por veículos de novas energias até 2030. Globalmente, a Foton já produziu cerca de 100 mil veículos movidos por energias renováveis no último ano.

O crescimento no Brasil tem sido acelerado. Em 2025, a Foton emplacou mais de 2 mil veículos, um crescimento superior a 200% em relação ao ano anterior. A participação no segmento de caminhões alcançou 3,8%. Para 2026, a meta é vender cerca de 4 mil unidades e chegar a uma participação entre 3,2% e 3,6% do mercado.

Estratégias para o Brasil

Mauricio Santana, diretor Nacional de Vendas e Pós Vendas da Foton Motor Brasil
Santana: “Quando identificamos uma necessidade, a gente rapidamente atua sobre ela” | Foto: Divulgação

Nomeado em março de 2025 para coordenar a expansão da rede de concessionárias no Brasil, Mauricio Santana, diretor Nacional de Vendas e Pós-Vendas da Foton Motor Brasil, tem experiência na Ford Motor Company e no Osten Group BYD. Em conversa com a reportagem, ele falou sobre o delicado equilíbrio entre crescimento acelerado e construção de reputação, a adaptação dos produtos ao mercado brasileiro e o futuro da eletrificação no transporte comercial.

Questionado sobre como conciliar a urgência por ganho de escala com a necessidade de gerar confiança no mercado, especialmente em um segmento no qual o cliente final avalia o custo total de posse (TCO) e a confiabilidade do produto, Santana lembrou que a Foton cresceu de 150% a 200% ao ano recentemente, o que exige que toda a cadeia esteja alinhada para entregar ao cliente uma experiência clara e objetiva. “O produto entrega e o TCO é o melhor do mercado. Conquistamos confiabilidade, inclusive, por meio de fornecedores renomados, como os motores Cummins e as transmissões ZF, que formam um trem de força conhecido nacionalmente, com tecnologia embarcada.” Contudo, segundo ele, o produto por si só não basta. “Só isso não traz credibilidade. Você precisa construir isso.

A construção da credibilidade passa por vários pilares. O primeiro é a dimensão global da empresa: “Você não está conversando com uma empresa chinesa qualquer. Você está conversando com a maior fabricante de veículos comerciais do mundo”, argumentou Santana. O segundo é a produção local: “Há dois anos eu era literalmente um importador, hoje já sou um produtor local”, reforçou. O terceiro é a rede de concessionárias e o depósito de peças robusto. “Quando você junta todos esses elementos, a gente constrói uma marca e constrói essa credibilidade”, completou.

O executivo destacou que a filosofia chinesa é de muita rapidez e que a Foton se adaptou bem a ela. “Quando identificamos uma necessidade, rapidamente atuamos sobre ela. A China nos suporta rapidamente. Isso difere de marcas mais tradicionais, que às vezes têm processos mais morosos”, comparou

Sobre a adaptação dos produtos ao Brasil, Santana ressaltou que os veículos já nascem tropicalizados na China. “Quando cheguei aqui, perguntei: ‘Esse produto veio 100% da China?’ Me disseram: ‘Não, ele foi montado na China, exclusivamente para o Brasil’.” Ele citou como exemplo o caminhão de 26 toneladas, desenvolvido antes mesmo da oficialização da vinda da montadora ao país: “Já veio para cá, passou por todos os testes e homologações, já 100% adaptado ao mercado nacional”, exemplificou.

Sobre o futuro da eletromobilidade, Santana enfatiza ser “um caminho sem volta.” Ele explicou que a Foton global já anunciou a rota Green3030, que prevê 1 milhão de unidades comercializadas em 2030, com 30% de energias renováveis, incluindo elétricos, hidrogênio e gás. No Brasil, a aposta é no elétrico.

O diesel representa 40% a 45% do custo operacional. Quando você tira esse custo, vira um caminho sem volta”, afirmou. Ele fez as contas: um veículo elétrico consome cerca de 0,21 kWh por quilômetro. Com energia comprada a R$ 1 o kWh, o custo é de R$ 0,21 por quilômetro rodado — e cai a zero com energia solar. “O custo de aquisição de um elétrico era proibitivo. Hoje não só se paga, como traz benefícios ambientais, redução de ruído e menos estresse para o motorista”, complementou.

Foton Full Liner
A atual linha completa da Foton | Foto: Divulgação

Sobre quando a Foton se tornará uma montadora de linha completa no Brasil, dos mini trucks aos extrapesados, Santana foi cauteloso, mas otimista: “Não cabe no longo prazo não ter uma produção local full liner.” Ele explicou que a operação em CKD já agrega mais de mil itens confeccionados no Brasil e que a empresa já conversa com parceiros globais para nacionalizar peças e participar de programas como o Mover. “Essa transição deve acontecer com qualquer montadora que respeite o mercado brasileiro e acredite no Brasil a longo prazo. Em algum momento, a gente vai ter sim a produção local de todos os modelos”, complementou.

O executivo encerrou com uma visão ampla sobre o papel da Foton no Brasil: “Somos uma indústria consolidada, trabalhamos de forma coerente e sempre olhamos para o consumidor final. E temos a vantagem de sermos muito rápidos”, finalizou.

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