Fundada em 28 de agosto de 1996 em Pequim, a Foton Motor nasceu como uma subsidiária do grupo estatal BAIC (Beijing Automotive Industry Holding Co.) e, em menos de três décadas, se tornou a maior fabricante de veículos comerciais do mundo. Com sede no distrito de Changping, na capital chinesa, a empresa construiu uma trajetória de crescimento acelerado, inovação tecnológica e expansão global que a levou a comercializar mais de 12 milhões de veículos em mais de 130 países. Hoje, emprega mais de 30 mil pessoas, opera 45 fábricas em 15 países e mantém presença em 20 nações das Américas, consolidando-se como a maior exportadora de veículos comerciais da China.

Os marcos dessa trajetória são expressivos. Em 1998, apenas dois anos após sua fundação, a Foton já se destacava como uma das principais fabricantes de caminhões da China. Em 2004, com menos de dez anos de existência, alcançou a marca de 1 milhão de veículos produzidos e diversificou seu portfólio, incluindo ônibus e vans. As parcerias estratégicas vieram em seguida e, em 2007, iniciou o desenvolvimento de motores a diesel com a Cummins, formalizando a joint venture Beijing Foton Cummins Engine Co. em 2008.
Em 2012, firmou acordo com a Daimler AG para produzir os caminhões pesados da linha Auman, e em 2017 estabeleceu parceria com a ZF para o desenvolvimento de transmissões de última geração. Em 2021, a Foton alcançou 10 milhões de veículos vendidos globalmente; em 2025, ultrapassou a marca de 12 milhões de unidades produzidas e comercializadas.
A trajetória nacional
A internacionalização da marca ganhou corpo com a abertura de sede em Moscou (Rússia) em 2010 e de uma divisão de vendas na Índia em 2011. Mas foi no Brasil que a Foton encontrou um de seus mercados mais desafiadores e promissores.

A história da Foton no Brasil começa em 2010, quando a marca ingressou no país representada pela Foton Aumark do Brasil, empresa controlada pelo economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central. O negócio, então, era de importação e distribuição de caminhões, com a Foton Aumark atuando como representante local dos asiáticos.
Os primeiros anos foram marcados por investimentos significativos e planos ambiciosos. Em 2014, foi anunciada a construção de uma fábrica em Guaíba (RS), com área de cerca de 1,5 milhão de metros quadrados e capacidade para produzir 17 mil caminhões por ano. O projeto, orçado em R$ 200 milhões, contaria com recursos de sócios da Foton Aumark e apoio do BNDES. Em 2016, os primeiros caminhões começaram a sair da linha de montagem, mas não no local prometido. A operação chegou a utilizar parte da fábrica da Agrale em Caxias do Sul e, posteriormente, uma unidade da Gefco no Rio Grande do Sul.
A trajetória, porém, foi acidentada. Como definiu o próprio Mendonça de Barros, foi uma caminhada “persistente e errática”, com pequenos avanços e muitos tropeços. A crise econômica e as limitações financeiras para importar veículos e peças levaram a empresa a entrar em recuperação judicial em 2019. O ano de 2019 também trouxe um divisor de águas quando a Ford decidiu fechar sua fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP) e sair do negócio. Com 101 concessionárias de caminhões administradas por 53 grupos empresariais deixando a Ford, abriu-se para a Foton a oportunidade concreta de superar seu maior problema no país, que era a falta de uma rede de distribuição consolidada.

A Foton atraiu oito grupos ex-Ford, que acrescentaram 21 pontos de venda e assistência à sua rede, que então tinha 19 unidades. O número de concessionárias foi dobrado para 40. Ricardo Mendonça de Barros, filho do fundador e então diretor de vendas e rede, afirmou que a estratégia era flexível e a única exigência era ter um showroom exclusivo para a Foton, com permissão para oficinas multimarcas.
O apoio direto da matriz chinesa veio em seguida. A Foton abriu uma subsidiária própria no Brasil para financiar importações, eliminando as restrições que antes limitavam o volume de veículos e peças que podiam ser trazidos ao país.
Em janeiro de 2024, a matriz assumiu o controle direto dos negócios locais, encerrando a década de gestão da Foton Aumark. A partir daí, a marca entrou em uma nova fase ao consolidar um projeto próprio e de longo prazo no mercado nacional de veículos comerciais.
Em 8 de abril de 2025, a Foton anunciou a abertura oficial de sua linha de montagem em regime CKD (Completely Knocked Down) na cidade de Caxias do Sul (RS), dentro do complexo fabril da Agrale. A unidade, com seis mil metros quadrados e capacidade anual de produção de 5 mil veículos, começou montando os modelos Aumark S 315, S 715, S 916, S 1217 e o semipesado Auman D 1722. O primeiro caminhão a sair da linha representou um marco histórico: o 12º milhão de veículo produzido pela Foton globalmente.
A fábrica, que opera com oito estações em linha e quatro fora dela, monta até sete caminhões por dia, em um ciclo de cerca de 20 horas. A produção local já soma cerca de 1.500 unidades, com capacidade de expansão para 5 mil veículos por ano. A Foton também mantém um centro de distribuição de peças em Itajaí (SC), com mais de sete mil itens disponíveis para reposição.
A expansão da rede de concessionárias é a outra frente da ofensiva brasileira. A Foton, que encerrou 2024 com 40 concessionárias, planeja chegar a 100 revendas até o final do ano em todas as regiões do país.

O portfólio da Foton no Brasil é vasto e em franca expansão. A linha a diesel inclui o semileve Aumark 315, os leves Aumark S 715 e S 916, o médio S 1217 e os semipesados Auman D 1722, D 1830 e D 2632, além das picapes Tunland. Em março de 2026, a Foton lançou no Brasil sete novos veículos comerciais elétricos, incluindo o mini truck eWonder, as vans eView Connect, eView Grand e eToano Pro, e a linha de caminhões eAumark nas versões 6T, 9T e 12T.
A eletrificação é um pilar central da estratégia global da empresa, que estabeleceu a meta Green3030, que consiste na comercialização de um milhão de veículos fora da China, com 30% desse volume composto por veículos de novas energias até 2030. Globalmente, a Foton já produziu cerca de 100 mil veículos movidos por energias renováveis no último ano.
O crescimento no Brasil tem sido acelerado. Em 2025, a Foton emplacou mais de 2 mil veículos, um crescimento superior a 200% em relação ao ano anterior. A participação no segmento de caminhões alcançou 3,8%. Para 2026, a meta é vender cerca de 4 mil unidades e chegar a uma participação entre 3,2% e 3,6% do mercado.
Estratégias para o Brasil

Nomeado em março de 2025 para coordenar a expansão da rede de concessionárias no Brasil, Mauricio Santana, diretor Nacional de Vendas e Pós-Vendas da Foton Motor Brasil, tem experiência na Ford Motor Company e no Osten Group BYD. Em conversa com a reportagem, ele falou sobre o delicado equilíbrio entre crescimento acelerado e construção de reputação, a adaptação dos produtos ao mercado brasileiro e o futuro da eletrificação no transporte comercial.
Questionado sobre como conciliar a urgência por ganho de escala com a necessidade de gerar confiança no mercado, especialmente em um segmento no qual o cliente final avalia o custo total de posse (TCO) e a confiabilidade do produto, Santana lembrou que a Foton cresceu de 150% a 200% ao ano recentemente, o que exige que toda a cadeia esteja alinhada para entregar ao cliente uma experiência clara e objetiva. “O produto entrega e o TCO é o melhor do mercado. Conquistamos confiabilidade, inclusive, por meio de fornecedores renomados, como os motores Cummins e as transmissões ZF, que formam um trem de força conhecido nacionalmente, com tecnologia embarcada.” Contudo, segundo ele, o produto por si só não basta. “Só isso não traz credibilidade. Você precisa construir isso.”
A construção da credibilidade passa por vários pilares. O primeiro é a dimensão global da empresa: “Você não está conversando com uma empresa chinesa qualquer. Você está conversando com a maior fabricante de veículos comerciais do mundo”, argumentou Santana. O segundo é a produção local: “Há dois anos eu era literalmente um importador, hoje já sou um produtor local”, reforçou. O terceiro é a rede de concessionárias e o depósito de peças robusto. “Quando você junta todos esses elementos, a gente constrói uma marca e constrói essa credibilidade”, completou.
O executivo destacou que a filosofia chinesa é de muita rapidez e que a Foton se adaptou bem a ela. “Quando identificamos uma necessidade, rapidamente atuamos sobre ela. A China nos suporta rapidamente. Isso difere de marcas mais tradicionais, que às vezes têm processos mais morosos”, comparou
Sobre a adaptação dos produtos ao Brasil, Santana ressaltou que os veículos já nascem tropicalizados na China. “Quando cheguei aqui, perguntei: ‘Esse produto veio 100% da China?’ Me disseram: ‘Não, ele foi montado na China, exclusivamente para o Brasil’.” Ele citou como exemplo o caminhão de 26 toneladas, desenvolvido antes mesmo da oficialização da vinda da montadora ao país: “Já veio para cá, passou por todos os testes e homologações, já 100% adaptado ao mercado nacional”, exemplificou.
Sobre o futuro da eletromobilidade, Santana enfatiza ser “um caminho sem volta.” Ele explicou que a Foton global já anunciou a rota Green3030, que prevê 1 milhão de unidades comercializadas em 2030, com 30% de energias renováveis, incluindo elétricos, hidrogênio e gás. No Brasil, a aposta é no elétrico.
“O diesel representa 40% a 45% do custo operacional. Quando você tira esse custo, vira um caminho sem volta”, afirmou. Ele fez as contas: um veículo elétrico consome cerca de 0,21 kWh por quilômetro. Com energia comprada a R$ 1 o kWh, o custo é de R$ 0,21 por quilômetro rodado — e cai a zero com energia solar. “O custo de aquisição de um elétrico era proibitivo. Hoje não só se paga, como traz benefícios ambientais, redução de ruído e menos estresse para o motorista”, complementou.

Sobre quando a Foton se tornará uma montadora de linha completa no Brasil, dos mini trucks aos extrapesados, Santana foi cauteloso, mas otimista: “Não cabe no longo prazo não ter uma produção local full liner.” Ele explicou que a operação em CKD já agrega mais de mil itens confeccionados no Brasil e que a empresa já conversa com parceiros globais para nacionalizar peças e participar de programas como o Mover. “Essa transição deve acontecer com qualquer montadora que respeite o mercado brasileiro e acredite no Brasil a longo prazo. Em algum momento, a gente vai ter sim a produção local de todos os modelos”, complementou.
O executivo encerrou com uma visão ampla sobre o papel da Foton no Brasil: “Somos uma indústria consolidada, trabalhamos de forma coerente e sempre olhamos para o consumidor final. E temos a vantagem de sermos muito rápidos”, finalizou.