A China está avançando rapidamente para transformar os caminhões elétricos em seu próximo grande produto de exportação. Após consolidar a liderança global na produção e venda de veículos de passeio eletrificados, o país agora aposta no segmento de veículos comerciais pesados para ampliar sua influência no mercado internacional.
O movimento ganhou força nos últimos meses em meio ao aumento dos custos de transporte e à volatilidade dos preços do petróleo, muito por conta da guerra travada entre Irã e Estados Unidos. Fatores que vêm acelerando a busca por alternativas energéticas no transporte de cargas. Segundo Michael Yue, gerente-geral de mercados internacionais da divisão de caminhões elétricos da Sany Heavy Industry, a expectativa inicial era de que os mercados internacionais demorassem entre três e cinco anos para adotar os caminhões elétricos em larga escala. No entanto, o cenário mudou rapidamente.
“Antes, o processo seria gradual. Agora, diversos operadores precisam dessas soluções imediatamente”, afirmou o executivo.
Um exemplo dessa mudança é um pedido internacional de aproximadamente 880 caminhões elétricos recebido pela fabricante chinesa. Segundo a empresa, trata-se do maior contrato de exportação de caminhões elétricos já fechado por uma fabricante da China. O destino não foi revelado, mas devem ser entregues até final de julho.
O avanço do setor também é impulsionado pela política industrial chinesa. Em maio, o Ministério dos Transportes da China anunciou a meta de que os caminhões pesados movidos por novas energias representem 40% das vendas de veículos novos da categoria até 2030. Além disso, o governo estabeleceu que mais de 80% dos caminhões que operam em rotas de curta distância na região de Pequim deverão utilizar propulsão elétrica.
A estratégia segue a mesma lógica adotada para os veículos leves há mais de uma década. Em 2012, a China iniciou um amplo programa de incentivo aos chamados veículos de nova energia (NEVs), que incluem modelos elétricos e híbridos.
O objetivo era que esses veículos representassem 20% das vendas de automóveis novos até 2025. A meta foi amplamente superada. Em 2024, os NEVs já respondiam por mais da metade das vendas de carros de passeio no país. Atualmente, essa participação ultrapassa 60%, com projeções do setor indicando que poderá alcançar 80% nos próximos anos.
Caminhões elétricos ganham competitividade
Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) mostram que aproximadamente 25% dos caminhões vendidos na China em 2025 foram elétricos. O resultado contribuiu para que as vendas globais da categoria ultrapassassem 400 mil unidades, o dobro do registrado anteriormente.
A IEA atribui esse crescimento principalmente à redução dos custos das baterias e às vantagens operacionais dos veículos elétricos.
Em alguns casos analisados pela entidade, o custo total de propriedade de um caminhão pesado elétrico na China, considerando cinco anos de operação, já alcançou paridade com modelos movidos a diesel.
Fora do mercado chinês, entretanto, a realidade ainda é diferente. Segundo a agência, os caminhões elétricos continuam custando pelo menos o dobro dos equivalentes a diesel em grande parte dos mercados internacionais, fator que limita uma adoção mais acelerada.
Fabricantes chinesas ampliam presença global
A expansão da Sany ilustra a estratégia adotada pelas fabricantes chinesas para ganhar espaço no mercado global. Em 2026 a empresa vai inaugurar sua primeira fábrica no Brasil.
Tradicionalmente conhecida pela produção de máquinas para construção, a companhia ingressou no segmento de veículos elétricos há apenas cinco anos. Desde então, deixou de comercializar caminhões a diesel no mercado doméstico e passou a direcionar investimentos para a eletrificação e para as exportações.
Boa parte dessa competitividade está associada ao elevado nível de automação industrial. A fábrica da Sany em Changsha, na província de Hunan, possui capacidade para produzir até 300 mil caminhões por ano utilizando componentes fabricados localmente. Segundo a companhia, mais de 60% de sua receita de 89,7 bilhões de yuans registrada em 2025 teve origem em mercados internacionais.
Concorrência global se intensifica
Enquanto a China amplia sua presença no segmento, montadoras tradicionais e novas empresas também aceleram seus projetos de eletrificação. A Tesla trabalha para ampliar as entregas do caminhão Semi, enquanto a Mercedes-Benz segue promovendo o eActros 600, seu modelo elétrico para operações de longa distância lançado recentemente no mercado europeu.
Para Jing Yang, diretor de ratings corporativos para a região Ásia-Pacífico da Fitch Ratings, os caminhões elétricos ainda representam uma parcela pequena das exportações chinesas, mas vêm registrando forte crescimento desde 2025.
Caso a tendência seja mantida, o segmento poderá se juntar aos automóveis elétricos e aos semicondutores como um dos principais motores das exportações chinesas nos próximos anos, reforçando a posição do país em setores estratégicos da economia global.

