Escassez de Caminhoneiros: 88,9% das empresas logísticas enfrentam dificuldades para contratar, revela estudo

Levantamento revela que escassez de caminhoneiros já compromete operações, eleva custos e acelera investimentos em tecnologia

Por Victor Fagarassi

- julho 28, 2026

Escassez de Caminhoneiros: 88,9% das empresas logísticas enfrentam dificuldades para contratar, revela estudo

A carência de condutores habilitados, impulsionada principalmente pela insuficiência de trabalhadores capacitados, já vem afetando as operações das companhias vinculadas à Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (ABOL). Os dados são de um estudo conduzido pela própria entidade entre seus associados. A entidade alerta para esse panorama, que tem fomentado discussões no setor, acelerado os aportes em inovação e fortalecido a defesa de medidas governamentais voltadas à dignificação da profissão e à construção de um ambiente capaz de seduzir as novas gerações para o ofício.

Conforme os resultados da sondagem, a insuficiência de mão de obra especializada é indicada por 88,9% das organizações participantes como a principal barreira para expandir ou conservar o efetivo de caminhoneiros. Em segundo lugar aparece a pouca atratividade da carreira, mencionada por 66,7% dos respondentes. A carência de treinamento apropriado e as condições laborais e de carga horária desfavoráveis também figuram como obstáculos expressivos, ambas assinaladas por 44,4% das empresas, ao passo que a elevada rotatividade e a desvalorização da função foram citadas por 33,3% dos entrevistados.

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Impactos Diretos nas Operações e nos Custos

As consequências já são sentidas na rotina das transportadoras. Para 66,7% dos Operadores Logísticos que integraram a pesquisa, a falta de motoristas prejudica os negócios de maneira moderada, enquanto 22,2% relatam efeitos severos. Entre os desdobramentos mais relevantes figuram o alongamento do prazo para contratação (77,8%) e o encarecimento das operações (66,7%), além das dificuldades para cumprir a demanda e da perda de capacidade operacional.

Escassez de Caminhoneiros: 88,9% das empresas logísticas enfrentam dificuldades para contratar, revela estudoDe acordo com Marcella Cunha, diretora executiva da ABOL, esse contexto representa um dos maiores desafios estratégicos enfrentados pelo mercado atualmente. “A logística presta um serviço essencial para a economia e não pode parar. Se não conseguirmos renovar essa força de trabalho, aumentar a multimodalidade e desenvolver alternativas tecnológicas sustentáveis para suprir essas lacunas, o setor poderá perder competitividade”, declara.

Para os próximos dois anos, a maioria dos Operadores Logísticos planeja ampliar os investimentos em tecnologia como resposta ao déficit de mão de obra. Sistemas de roteirização e otimização de rotas (77,8%) e telemetria com monitoramento de frota (77,8%) encabeçam a lista de prioridades, acompanhados por soluções baseadas em Inteligência Artificial e análise de dados (66,7%) e pela automação de processos (55,6%).

Bem-Estar do Caminhoneiro e Infraestrutura como Chave para a Retenção

Essa movimentação, na avaliação de Marcella, evidencia que a inovação vem sendo empregada como recurso para aumentar a eficiência e contornar a crescente dificuldade de recrutamento. “A resposta não é escolher a tecnologia em detrimento de pessoas. Não se trata de substituição, mas de complementaridade para solucionar o problema da baixa atratividade da profissão de motorista de longas distâncias que estamos vivenciando não só no Brasil, mas no mundo. O impasse é fazer as duas agendas caminharem juntas. As ferramentas tecnológicas, por ora, estão sendo utilizadas para reduzir tarefas repetitivas, apoiar a tomada de decisão e elevar a produtividade, ao mesmo tempo em que qualifica o trabalho do caminhoneiro”, enfatiza.

O estudo da ABOL também revela uma percepção cada vez mais aguçada sobre o vínculo entre qualidade de vida e permanência na profissão. Para 55,6% das empresas ouvidas, a ausência de atenção à saúde física e mental dos condutores contribui, ainda que parcialmente, para a escassez de profissionais, ao passo que 22,2% manifestam concordância integral com esse diagnóstico.

Quando indagadas sobre quais ações mais colaborariam para melhorar a vivência dos caminhoneiros, as associadas apontaram prioritariamente o aprimoramento da infraestrutura dos locais de parada e repouso (66,7%). Na sequência surgem o aumento do respeito e da valorização por parte dos contratantes, programas voltados à saúde e segurança, além do aperfeiçoamento dos pacotes de benefícios — todos citados por 55,6% dos participantes.

Na visão de Marcella, tornar as profissões logísticas mais sedutoras demanda uma articulação entre iniciativas da esfera privada e do poder público. “É preciso investir continuamente em capacitação, desenvolvimento, aperfeiçoamento do recrutamento, fortalecimento da cultura organizacional e inovação nos pacotes de remuneração e benefícios, que devem ser compatíveis com a complexidade da atribuição. O caminho não é tratar o capital humano como um custo operacional, mas como parte da estratégia de competitividade”, ressalta.

Esse entendimento já integra a realidade do segmento. O mais recente levantamento do perfil dos Operadores Logísticos indica que 96% investem em força de trabalho qualificada, corroborando que a competitividade está atrelada à combinação entre digitalização, infraestrutura e profissionais preparados. “A logística do futuro será cada vez mais digital, mas continuará sendo conduzida por profissionais capacitados para transformar a tecnologia em geração de valor”, conclui a diretora.

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