A logística, por muito tempo, foi o calcanhar de Aquiles do pequeno e médio empreendedor no Brasil. Um gargalo invisível, porém intransponível, que separava o sonho de crescer da dura realidade de competir com gigantes do varejo. Todavia, uma ruptura silenciosa em curso, movida a dados e inteligência artificial, está reescrevendo essa história no comércio eletrônico nacional. No centro dessa transformação está a Melhor Envio, uma logtech que, após uma década de operação, deixou de ser apenas uma intermediadora de fretes para se tornar o motor logístico de mais de 200 mil lojistas virtuais.
A empresa, que faz parte do ecossistema da LWSA (antiga Locaweb), uma gigante de tecnologia de capital aberto, processa uma quantidade de dados que a coloca em uma posição privilegiada para decifrar os códigos do consumo brasileiro. Com mais de 125 milhões de pacotes enviados em sua história e uma base de dados logísticos que se conta na casa do bilhão de cotações, a Melhor Envio não apenas vê, mas molda o fluxo de mercadorias que atravessa o país.
“Nós somos hoje a maior plataforma intermediadora de fretes do Brasil”, afirma Renato Junoy, diretor Geral da Melhor Envio. Executivo com passagens pelo Mercado Livre e como CEO da Logitech Eu Entrego, Junoy chegou à empresa no início de 2026 com um desafio claro: pivotar o negócio. “A gente quer realmente se tornar um facilitador dentro da jornada do pequeno e médio empreendedor”, explica. “Não queremos ser vistos apenas como uma plataforma que vai ‘bidar’ o melhor frete. Queremos dar mais gestão, mais visibilidade dos processos para que esse empreendedor consiga ganhar escala”.
Essa mudança de paradigma se materializa no Melhor Envio Prime, um modelo de assinatura que vai além da simples cotação de fretes. Ele representa a democratização de ferramentas antes restritas aos grandes embarcadores. “O Melhor Envio Prime surge porque queremos que nossos clientes gastem menos tempo operando logística e mais tempo se dedicando a crescer o seu próprio negócio”, detalha Junoy. O pacote inclui coleta programada, um gestor de conta dedicado, suporte especializado e, o mais inovador, dashboards com IA embarcada.
A IA na ponta do lápis logístico
É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser um conceito abstrato e se torna uma ferramenta tátil para o lojista. A inteligência artificial da Melhor Envio não se limita a recomendar a transportadora mais barata; ela analisa o histórico da operação, prevê custos e sugere rotas para otimizar prazos e reduzir erros. “A IA vai recomendar, trazer recomendações logísticas baseadas na operação dele”, exemplifica o diretor.
Contudo, a aplicação mais surpreendente, que Junoy destaca como uma inovação sem precedentes no mercado nacional, é a geração de etiquetas de envio diretamente pelo WhatsApp. “É uma novidade incrível. Imagina que hoje o empreendedor brasileiro utiliza uma ferramenta extremamente popular, e ele não vai precisar nem sair dela para poder emitir uma etiqueta”, destaca. Essa automação libera o empreendedor para pensar na estratégia do negócio, enquanto a plataforma cuida da complexidade operacional.
O Raio-X do Consumo Brasileiro

Os dados gerados por essa imensa operação pintam um retrato fiel do comércio eletrônico brasileiro. O estudo ME Envia 2026, baseado nos 1,85 milhão de pedidos processados em junho de 2026, revela que o setor de Moda é o grande protagonista, com mais de 7 milhões de envios em 2025, um crescimento de 50% em comparação a 2021. Logo atrás, vêm Joias e Relógios (4,3 milhões de envios) e Beleza e Cuidado Pessoal (3,3 milhões), esta última com um impressionante aumento de 86% no volume de fretes no mesmo período. “O frete é um fator decisivo para a conversão e o crescimento”, afirma Junoy, corroborando dados de mercado que apontam o custo e o prazo de entrega como os principais motivos para o abandono de carrinho.
A geografia do consumo revela que o eixo São Paulo – Rio de Janeiro – Minas Gerais concentra a maior parte dos envios e recebimentos, mas o diretor vê um crescimento promissor nas regiões Norte e Nordeste. “A gente sabe da dificuldade do empreendedor nessas regiões para competir. O nosso papel é justamente democratizar e ser vetor de crescimento”, pontua.
A Copa do Mundo como termômetro

Um dos testes mais rigorosos para essa engrenagem logística é a Copa do Mundo de 2026. Em uma análise inédita, a Melhor Envio dissecou o impacto do torneio no comportamento de compra dos brasileiros. Os dados mostram que nos dias em que a seleção brasileira entrou em campo, o volume total de pedidos despencou entre 9% e 40%. O jogo de uma segunda-feira, dia historicamente de pico no comércio eletrônico, causou a maior queda, de quase 40%.
Contra a intuição, a categoria Esporte & Saúde recuou 3,2% em junho, indicando que o pico de compras de itens esportivos acontece nos meses que antecedem o evento, e não durante ele. Enquanto isso, Moda foi a grande vencedora, com um salto de 6,2% nos pedidos, impulsionada por camisetas, artigos de torcida e vestuário. “A Copa redistribuiu a demanda”, resume Junoy. “O desafio não é um volume maior, mas a concentração de pedidos nos dias pré e pós-jogo, o que exige uma operação logística mais inteligente e ágil”, complementa.
O futuro é entregar
Para 2027, a Melhor Envio já tem um novo capítulo em seus planos: o Frete por Melhor Envio. A plataforma deixará de ser apenas a intermediária para se tornar também uma das opções de frete para o lojista. “A gente vai se posicionar também como uma das escolhas de frete para esse lojista”, revela Junoy.
A ambição é transformar a logística de um centro de custo em um motor de crescimento. “Queremos ser vistos como uma empresa de tecnologia ligada à logística, trazendo IA para tornar o dia a dia do nosso cliente mais simples, mais inteligente e mais automatizado”, conclui o executivo.
