4G garante abrangência de dados nas rodovias e 5G vai no detalhe

Em 11 mil km de rodovias, a TIM aposta no 4G de baixa frequência para conectar serras, substituir fibra ótica e salvar vidas com iluminação inteligente

Por Gustavo Queiroz

- agosto 3, 2026

Leonardo Belotti, diretor de Vendas B2B da TIM Brasil

Imagine trafegar por uma serra envolta em neblina e ser avisado, com antecedência, por um código de cores na iluminação pública, de que há um incidente adiante. Imagine que, ao furar um pneu no meio do nada, seu pedido de socorro chegue instantaneamente ao centro de operações — não por um sinal de telefone instável, mas por uma rede dedicada, construída sob medida para aquela rodovia. Esse cenário já é realidade em mais de 11 mil quilômetros de estradas brasileiras.

A transformação digital chega ao asfalto pelas mãos de operadoras como a TIM, que há anos trabalha em projetos para tornar rodovias concedidas pelo Brasil em verdadeiros organismos vivos, capazes de enxergar, ouvir e se comunicar. E o protagonista dessa revolução não é o 5G — pelo menos, não sozinho.

Em um mundo onde cada lançamento de smartphone vem acompanhado do mantra “5G é o futuro”, a TIM fez uma aposta que, à primeira vista, soa como um contrassenso: o 4G. Mais precisamente, o 4G na frequência de 700 MHz.

Antena 4G da TIM
Antena 4G da TIM | Foto: Divulgação

O 4G no 700 MHz, por ser uma frequência mais baixa, te dá uma cobertura maior, uma capacidade de tráfego de dados muito boa que suporta diversas aplicações”, explica Leonardo Belotti, diretor de Vendas B2B da TIM Brasil. “Hoje, é a tecnologia e a frequência que melhor fecha o plano de negócios, ou seja, o melhor custo-benefício”, complementa.

A lógica é simples e poderosa, já que em uma rodovia que se estende por centenas de quilômetros, conectar cada centímetro com antenas 5G seria um desafio logístico e financeiro monumental. A frequência de 700 MHz, por sua vez, tem um alcance que pode chegar a de 20 a 30 quilômetros por antena, permitindo cobrir vastas extensões com uma infraestrutura muito mais enxuta.

Mas isso não significa que o 5G foi deixado de lado. “O 5G pode coexistir com o 4G, por exemplo, para fazer a conectividade do Free Flow” (sistema de pedágio automático que dispensa cabines e cancela, exigindo transmissão constante de imagens e baixa latência). É uma convivência de tecnologias que a gente entende que é o caminho”, explica Belotti.

Enquanto o 4G tece uma colcha de retalhos contínua sobre a rodovia, garantindo que nenhum ponto fique às escuras, o 5G atua como uma artéria de alta velocidade em pontos estratégicos, incluindo praças de free flow, trechos de serra com neblina, locais onde o volume de dados exige mais do que uma conexão comum pode oferecer.

E a fibra ótica?

Por muito tempo, a fibra ótica foi considerada o padrão ouro das telecomunicações. Enterrar cabos flexíveis de vidro ou de plástico ao longo de uma rodovia parecia a única maneira de garantir comunicação confiável. A TIM, no entanto, está reescrevendo essa regra.

Em parceria com a Way Brasil, a operadora substituiu a fibra ótica pelo 4G em um projeto que conecta 300 câmeras de monitoramento viário ao Centro de Controle Operacional, cobrindo 630 quilômetros de rodovias no Mato Grosso do Sul. “A fibra ótica tem suas vantagens tecnológicas, mas tem um índice de manutenção muito alto para a concessionária, com riscos de rompimentos constantes. Portanto, se trata de um item de transmissão de dados oneroso e que não necessariamente atende todos os objetivos da concessionária, que passam pela segurança viária e pela conexão do usuário”, ilustra Belotti.

Todas as 300 câmeras do sistema de monitor viário estão suportadas pelo 4G, sem a necessidade de fibra ótica”, destaca o diretor. “Isso é uma tendência muito forte daqui para frente”, confirma.

Leonardo Belotti, diretor de vendas B2B da TIM
Belotti: “O 5G pode coexistir com o 4G, por exemplo, para fazer a conectividade do Free Flow” | Foto: Divulgação

Rodovias que se comunicam

A conectividade, porém, é apenas o alicerce. Sobre ela, a TIM constrói camadas de serviços que transformam a experiência de quem trafega e um dos exemplos mais fascinantes está em teste na BR-277, no Paraná, em parceria com a EPR Litoral Pioneiro. Em um trecho de serra com alta incidência de neblina, a TIM desenvolveu um sistema de iluminação pública com sinalização por cores RGB. “Permite comunicar ao usuário, por exemplo, um incidente à frente da rodovia, sinalizando com cor vermelha”, descreve Belotti. “O CCO, naquele momento, solicita por meio de um comando que o trecho anterior a este incidente seja sinalizado com uma cor que demonstre perigo. O usuário, ao se aproximar, vai entender e reduzir a velocidade”, complementa.

A rodovia, antes muda, agora fala com os motoristas em uma linguagem universal de cores. O projeto, ainda em fase de testes, já instalou 20 dispositivos de sinalização luminosa ao longo da rodovia e prevê a expansão para 200 luminárias em um trecho de oito quilômetros.

A conectividade também proporciona avanços na comunicação interna das concessionárias, como sistema push-to-talk e push-to-video, que permitem que inspetores transmitam imagens ao vivo do local de um incidente, não apenas por voz, mas por vídeo em tempo real. “Um profissional da concessionária pode filmar naquele momento um incidente e já comunicar ao CCO não só por comandos de voz, mas também por imagens”, explica Belotti.

O desafio de construir no Brasil

Levar conectividade a rodovias brasileiras é uma empreitada que vai muito além de fincar postes e ligar antenas. “Quando a gente vai fazer um sistema de cobertura 4G, nos deparamos com várias dificuldades”, admite Belotti.

O primeiro desafio é geográfico, pois é preciso encontrar espaço para construir torres em trechos de serra, onde o relevo impõe limites. O segundo é ambiental: “Nós respeitamos ‘absurdamente’ a parte de licenciamento ambiental”, afirma. O terceiro, e talvez o mais crítico, é a energia, já que em regiões distantes de centros urbanos, levar eletricidade para as antenas exige planejamento e, muitas vezes, antecipação do fornecimento pela concessionária.

A solução encontrada pela TIM envolve redundância em todos os níveis, incluindo meios de transmissão principal e secundários, garantindo que, mesmo em caso de falha, a comunicação não seja interrompida. “Isso vale para trecho de serra, vale para trechos distantes de centros urbanos ou de vilarejos”, detalha o diretor.

11 mil quilômetros (e contando)

Rodovias inteligentes
O avanço da conectividade nas rodovias nacionais permitirá a troca de dados entre veículos e com a infraestrutura local | Foto: Divulgação

O trabalho começou em 2019, com um esforço de convencimento que levou três anos até o fechamento da primeira concessão, em 2022. “Foi um trabalho de detalhamento técnico, apresentação da proposta comercial, de quais seriam os ganhos da nossa solução perante as soluções que já eram utilizadas”, recorda Belotti.

Hoje, o número impressiona: mais de 11 mil quilômetros de rodovias conectadas, em mais de 30 concessões. E o ritmo não diminui. O mercado de concessões rodoviárias está aquecido, com novos editais federais e estaduais surgindo. “Nós entendemos que ainda tem um belo caminho a ser trilhado”, afirma o executivo.

Mas a ambição vai além da cobertura. A TIM quer adicionar camadas de serviço sobre essa infraestrutura, tais como gestão de iluminação pública com o Smart Lighting, monitoramento de frotas com NB-IoT (Narrow Band IoT), portais de monitoramento que entregam às concessionárias um dashboard completo de todos os sites em operação. “Além da conectividade, nós temos um portfólio completo de serviços que vai desde comunicação até serviço de monitoramento e gestão da concessão”, resume Belotti.

Automação

Antena TIM
4G na frequência de 700 MHz assegura maior cobertura e boa capacidade de tráfego de dados | Foto: Divulgação

Sobre quando veremos veículos autônomos trafegando por rodovias inteligentes no Brasil, Belotti adota um tom cauteloso, porém otimista. “Quando a gente fala de automação, a gente fala de V2X (troca de dados entre veículos e de veículo para infraestrutura). É um tema importante, que nós estamos acompanhando de perto, atuando em alguns desenvolvimentos com parceiros”, revela. “Tudo que nós estamos fazendo ao longo desses anos serve como uma base, como um alicerce para desenvolver também o V2X”, complementa.

A conectividade que hoje já permite ao CCO enxergar cada canto da rodovia, que já transforma postes de luz em mensageiros de segurança e que já substitui cabos de fibra ótica por ondas de rádio, essa mesma infraestrutura é o alicerce sobre o qual o futuro da mobilidade autônoma será construído. A Anatel já reservou a faixa de 5,9 GHz para homologação de equipamentos V2X, e as operadoras já realizam testes em rodovias como a dos Bandeirantes.

O modelo de uma rodovia conectada, primeiramente, é uma rodovia segura e que vai dar informação para o usuário”, define Belotti. “É uma rodovia onde você consiga trafegar com a certeza de que terá comunicação ao longo de todo o trecho, que não vai ter áreas de sombra onde você pode ter um imprevisto”, finaliza.

Pouco a pouco, as rodovias transformam seus pontos mais inóspitos em ambientes conectados e mais seguros, fazendo a diferença diretamente na percepção de qualidade daqueles que trafegam por elas.

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