O transporte farmacêutico iniciou 2026 com expectativa de maior aproximação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A avaliação é de Gylson Ribeiro, representante da Comissão de Transportes Farmacêuticos do SETCESP, que aponta a mudança na diretoria da agência como um dos fatos mais relevantes para o segmento neste ano.
Segundo ele, a troca de quatro diretores da Anvisa, incluindo a presidência do órgão, abriu espaço para um relacionamento mais próximo com as entidades do transporte. Em abril, representantes da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC) participaram de uma reunião com a presidência da agência para discutir demandas do setor.
De acordo com Ribeiro, o principal avanço percebido pelas transportadoras é a disposição da Anvisa em ouvir as dificuldades operacionais enfrentadas pelas empresas na aplicação das normas sanitárias. “A norma precisa ser economicamente viável e executável. O diálogo é fundamental para que ela funcione na prática”, afirmou.
A expectativa do setor agora é firmar um acordo de cooperação entre a Anvisa e as entidades representativas do transporte. A proposta prevê reuniões periódicas, criação de grupos técnicos conjuntos e maior alinhamento sobre interpretação das regras e processos de fiscalização.
Fiscalização e interpretação das normas seguem entre os principais desafios
Apesar do avanço no diálogo, o setor ainda enfrenta dificuldades relacionadas à interpretação das regulamentações sanitárias em diferentes regiões do país. Segundo Ribeiro, um dos principais desafios está na uniformização da fiscalização.

“O Brasil possui milhares de órgãos municipais ligados à vigilância sanitária, o que acaba gerando entendimentos distintos sobre uma mesma norma. Se o fiscal entende a regra de uma forma e a transportadora de outra, isso gera insegurança operacional”, explicou.
Entre os pontos que seguem em discussão está a operação de cross-docking, prática comum no transporte rodoviário de cargas. Atualmente, a Anvisa entende que a armazenagem temporária durante a transferência de produtos entre veículos configura atividade de armazenagem, exigindo estrutura e documentação específicas.
Para o setor de transporte, porém, o processo faz parte da movimentação logística e não deveria receber o mesmo enquadramento de um centro de armazenagem convencional. A intenção das entidades é ampliar o diálogo técnico para revisar interpretações consideradas incompatíveis com a dinâmica operacional do transporte.
Última milha ainda gera preocupação no transporte farmacêutico
Outro tema que permanece no radar das transportadoras é a chamada última milha, especialmente nas entregas realizadas entre farmácias e consumidores finais.
Segundo Ribeiro, as exigências regulatórias aplicadas ao transporte especializado não são cobradas com o mesmo rigor nas operações realizadas por empresas de e-commerce e entregadores independentes. Para ele, isso cria uma assimetria competitiva e pode comprometer o controle de qualidade dos medicamentos.
“O produto farmacêutico exige cuidados específicos. Hoje ainda existe uma abertura regulatória nessa etapa final da cadeia”, afirmou.
Mesmo diante desse cenário, o representante do SETCESP afirma que as transportadoras especializadas seguem investindo no cumprimento das normas sanitárias e em melhorias operacionais, especialmente no controle de temperatura e rastreabilidade dos produtos.
Tecnologia e soluções térmicas ganham espaço nas operações
A evolução tecnológica também tem ampliado as alternativas para o transporte farmacêutico. Segundo Ribeiro, o setor vem acompanhando o surgimento de novas soluções térmicas passivas e tecnologias voltadas ao monitoramento da cadeia fria. Essas inovações têm sido discutidas em encontros promovidos por entidades como Sindusfarma, Interfarma, ABOL e Abrafarma, que reúnem representantes da indústria, transporte, armazenagem e varejo farmacêutico.
Encontro NTC Farma em outubro
Como parte desse movimento de integração do setor, a NTC deve realizar em 6 de outubro a segunda edição do Encontro NTC Farma, no Palácio dos Transportes, em São Paulo. O evento reunirá representantes da indústria farmacêutica, operadores logísticos, transportadoras, armazenadoras, especialistas técnicos e entidades setoriais para debater regulamentação, tecnologia e boas práticas no transporte de medicamentos.
Para Ribeiro, iniciativas como essa ajudam a fortalecer o alinhamento entre os diferentes elos da cadeia e contribuem para a construção de normas mais aplicáveis à realidade operacional do setor.

