Tecadi aposta em tecnologia própria para ganho de 30% em produtividade

Operador logístico desenvolve WMS próprio e amplia eficiência operacional. Ferramenta poderá ser ofertada ao mercado futuramente

Por Gustavo Queiroz

- março 25, 2026

Matriz do Tecadi em Itajaí

Em meio a um cenário de pressão sobre custos e renegociações contratuais no setor de logística, o Tecadi, operador logístico com forte atuação na região Sul do Brasil, tem direcionado seus esforços para a internalização de tecnologias e a automação de processos como estratégia para ampliar sua competitividade. Com um portfólio que combina operações de armazenagem e transporte rodoviário, a companhia registrou investimentos da ordem de R$ 25 milhões a R$ 30 milhões no último ano, dos quais aproximadamente R$ 10 milhões foram destinados à renovação de frota.

Em entrevista, Rafael Dagnoni, CCO e sócio-fundador do Tecadi, detalhou as iniciativas em curso, com destaque para o desenvolvimento de um sistema próprio de gestão de armazéns (WMS) e a aplicação de inteligência artificial nos processos de programação interna. A estratégia, segundo ele, integra um movimento mais amplo de verticalização tecnológica conduzido pelo Tecadi Labs, estrutura interna que funciona como laboratório para o desenvolvimento de ferramentas operacionais.

Rafael Dagnoni, CCO e sócio-fundador do Tecadi
Rafael Dagnoni confirma a participação do Tecadi, com estande, na Intermodal 2026 | Foto: Divulgação

Um dos principais avanços recentes mencionados por Dagnoni foi a criação de um WMS desenvolvido internamente, em substituição à ferramenta da Totvs utilizada desde 2011. Atualmente, o sistema próprio está em fase de migração, com a operação sendo transferida gradativamente para a nova plataforma. De acordo com o executivo, os ganhos operacionais já observados nas unidades onde o sistema foi implementado alcançam cerca de 30% em produtividade.

Por exemplo, eu tinha no caso de uma operação específica aqui, eu chegava a fazer sete bips num processo todo de separação de pedido. Eu consegui reduzir para dois bips com o nosso WMS“, exemplificou Dagnoni, referindo-se aos processos de conferência e separação por meio de coletores de dados. A redução no número de etapas, segundo ele, impacta diretamente a velocidade de movimentação e a necessidade de mão de obra.

O coletor de dados também passou por desenvolvimento interno. Atualmente, o dispositivo opera com inteligência baseada em nuvem e integração em tempo real com os sistemas do cliente. Em operações de comércio eletrônico, por exemplo, o pedido finalizado no site do cliente é transmitido diretamente ao coletor do conferente, que realiza a separação e disponibiliza o produto para carregamento em até quatro horas.

Novos negócios

A expectativa da empresa, segundo o executivo, é que o conjunto de ferramentas desenvolvidas internamente possa, no futuro, ser comercializado como software para o mercado. “Quando todas essas ferramentas tiverem prontas, nós temos um plano de ter uma empresa de tecnologia vendendo essa solução para o mercado também“, revelou Dagnoni.

Por ora, o foco permanece no aperfeiçoamento interno. “Tudo que a gente faz e a gente levar para o mercado leva a nossa marca. Construímos uma identidade de muita credibilidade e, portanto, não podemos correr risco de levar um produto que não garanta o padrão Tecadi“, concluiu.

Estudos com RFID

Na unidade de Garuva (SC), o Tecadi já opera com nível de automação aplicado ao checkout e à finalização de pedidos. Para a nova unidade que está em fase de planejamento, a companhia estuda a implementação de portais de identificação por radiofrequência (RFID), tecnologia que, embora ainda apresente custo elevado no mercado internacional, vem sendo avaliada como estratégica para o próximo ciclo de investimentos.

A gente tá estudando muito a fundo a questão do RFID, algo que tem um custo elevado ainda a nível internacional, mas cada vez vem fazendo mais sentido, cada vez vem se tornando mais acessível, por mais que ainda é um custo elevado. Então, a gente tá inclusive nesse momento na fase final de avaliação na questão da implementação de portais de RFID“, afirmou Dagnoni.

O Tecadi Labs também tem incorporado inteligência artificial generativa no desenvolvimento de soluções. Segundo o executivo, a equipe de programação — composta por cerca de 18 profissionais — utiliza diferentes ferramentas de IA para acelerar a codificação, empregando uma abordagem em que uma ferramenta gera o código e outra realiza a correção.

Drone

O executivo citou o uso de drones para inventários, tecnologia que permitiu reduzir em 70% o tempo necessário para a contagem de estoques, embora tenha exigido a homologação de operadores junto às autoridades regulatórias.

Frota

Nova unidade do Tecadi em Navegantes

Na área de equipamentos de movimentação interna, o Tecadi já concluiu a substituição das baterias convencionais por baterias de lítio na maior parte das operações. Dagnoni destacou os ganhos operacionais decorrentes da mudança, especialmente em termos de durabilidade e tempo de recarga.

Hoje um funcionário paga para almoçar, faz o turno de almoço. Essas novas baterias permitem que na hora do almoço eu já plugo ali e carrega, assim como um celular. Você coloca no cabo, carrega um percentual e você volta a utilizar“, explicou, contrapondo ao modelo anterior, que exigia ciclos de recarga mais longos e a necessidade de baterias reserva.

Já no segmento de transporte rodoviário de longa distância, o cenário se mostra mais complexo. O Tecadi realizou estudos com a Volvo para avaliar a viabilidade de caminhões elétricos, mas a solução ainda não se mostrou economicamente viável para as rotas atendidas pela empresa. Dagnoni apontou a autonomia limitada — cerca de 400 quilômetros — e o custo de aquisição até três vezes superior ao de veículos a combustão como os principais entraves.

O Brasil tem dimensões continentais. Além disso, nós temos o problema das nossas serras. As baterias ainda não chegaram no nível de capacidade de autonomia assim como já chegaram nos carros. Nos veículos pesados, elas ainda estão com uma restrição em torno de 400 km, e com custo muito elevado“, disse.

Para veículos de menor porte e operações urbanas, no entanto, o executivo observa uma adoção mais acelerada da eletrificação, com esses equipamentos já compondo frotas de diversas empresas.

Composição do negócio e expansão geográfica

O Tecadi atua como operador logístico 3PL (Third-Party Logistics, que em português significa Logística de Terceira Parte), com foco em grandes companhias nacionais e multinacionais. Atualmente, a operação de armazenagem responde por 65% do negócio, enquanto o transporte rodoviário representa 35%. A companhia soma 240 mil metros quadrados de área operacional, posicionando-se como um dos maiores operadores logísticos da região Sul.

A frota rodoviária própria é composta por 60 cavalos-mecânicos e 120 implementos, predominantemente porta-contêineres bitrem. A renovação ocorre com idade média máxima de cinco anos, sendo os equipamentos atuais das marcas Volvo, Scania e, mais recentemente, DAF, que entrou em teste com 10 unidades por meio de sua mais recente aquisição e que vem colhendo bons resultados, segundo o executivo.

Dagnoni também antecipou que a empresa estuda a verticalização do serviço de cargas fracionadas, seja por aquisição ou desenvolvimento interno, como parte da estratégia de expansão no transporte rodoviário. Em paralelo, a companhia avança na diversificação geográfica, com unidades já estabelecidas no Paraná e em Cajamar (SP), antecipando movimentos de clientes diante do fim gradual dos benefícios fiscais interestaduais previsto para ocorrer até 2032.

Cenário de pressão

A conjuntura atual foi classificada por Dagnoni como “tumultuada”, com dois fatores centrais de pressão, incluindo a elevação do diesel, que responde por cerca de 40% do frete rodoviário, e a recente medida provisória que reforça a fiscalização sobre a tabela de frete mínimo (Tabela NIT), instituída após a greve de 2018. “O grande problema da escalada no custo do diesel é a questão da gente ter que renegociar todos os contratos e repassar este aumento para os clientes. É um custo que não tem como ser absorvido“, afirmou.

Sobre a tabela de frete, o executivo destacou que muitos grandes embarcadores operavam com valores abaixo do piso estabelecido, o que agora exige um trabalho extenso de readequação contratual em todo o mercado.

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