No sul do Brasil, onde o inverno é rigoroso e os vinhedos se estendem até onde a vista alcança, a Suspensys, empresa do grupo Randon Corp, opera uma das mais avançadas plataformas de engenharia para veículos comerciais da América Latina. Com capacidade para produzir 600 eixos e 400 suspensões por dia, a companhia não apenas fornece componentes, mas concebe sistemas que dialogam com a fisicalidade das estradas brasileiras, as exigências globais de sustentabilidade e a crescente complexidade da eletrificação.
A conversa com Juliano Pagnoncelli, diretor da Suspensys, revela uma empresa que aprendeu a traduzir os solavancos do mercado em algoritmos, os limites regulatórios em oportunidades de retrofit, e a confiança de montadoras como Mercedes-Benz em soberania tecnológica nacional.

Quando a Suspensys iniciou o desenvolvimento do sistema e-Sys, seu eixo elétrico, a premissa era clara e o produto nasceria inicialmente para semirreboques, não como um componente reativo, mas como uma unidade autônoma capaz de interpretar o ambiente. “Ele observa autometria, inclinação e velocidade. Ele transforma características físicas em parâmetros“, explica Pagnoncelli. Essa arquitetura autônoma permite que o sistema tome decisões sem depender exclusivamente da central eletrônica do veículo, sendo uma vantagem crítica em um mercado onde cada montadora opera com seus próprios protocolos de gerenciamento de bateria (BMS) e controle de tração.
A verdadeira transição, contudo, acontece quando o e-Sys migra dos semirreboques para a aplicação direta em caminhões comerciais, uma evolução apresentada na última Fenatran (2024) em parceria com a Volkswagen Caminhões e Ônibus. Nesse estágio, o produto deixa de ser meramente reativo e assume um comportamento proativo. “Passamos para uma etapa mais avançada, mais dinâmica, em que entramos numa discussão de integração do produto ao software do veículo“, detalha o diretor.
O desafio não é trivial, pois cada cliente, cada montadora, traz sua própria filosofia de controle. A solução encontrada foi desenvolver uma camada de comunicação parametrizável que respeita as particularidades de cada um sem sacrificar o desempenho do conjunto. O resultado é um sistema que regenera energia nas frenagens e entrega economia de combustível de até 20%, números que, no segmento de frotas, traduzem-se em vantagem competitiva imediata.
Do descarte ao retrofitting
Se a eletrificação impõe desafios técnicos de integração, a regulação ambiental adiciona uma camada igualmente complexa. Afinal, o que fazer com as baterias ao fim de sua vida útil, estimada em cinco mil ciclos? Pagnoncelli antecipa um movimento que o mercado de veículos de passeio já começou a enfrentar. “Temos estudado ‘N’ possibilidades“, afirma, citando aplicações secundárias em sistemas de armazenamento de energia estacionário, integrados a fontes renováveis.

Mas a aposta mais estratégica da Suspensys está no retrofit. “A própria bateria do e-Sys tem características que permitem estender sua vida com manutenção preditiva“, explica. Uma bateria é composta por células de armazenamento e por um sistema de gerenciamento eletrônico. Este último tem vida útil muito mais extensa. Ao substituir apenas as células degradadas ou realizar atualizações de software, o conjunto pode ser mantido em operação por muito mais tempo, com fração do investimento original. “É uma vertente possível de ser aproveitada“, resume Pagnoncelli, apontando para um modelo de negócio que alinha economia circular com redução de custos para o frotiista.
A empresa também mira ambientes fechados como portos, centros logísticos e pátios fabris, que são lugares em que a eletrificação traz ganhos imediatos em qualidade do ar e redução de ruído. O conceito AT4T, desenvolvido pela Randon Corp, já explora veículos autônomos eletrificados para movimentação interna, um campo fértil onde a Suspensys enxerga expansão natural. https://www.youtube.com/watch?v=Js7jtNsN6vM&t=15s
AXYS4
Se o e-Sys representa o futuro eletrificado, o eixo autodirecional AXYS4 corporifica o presente da engenharia de materiais. Desenvolvido para aplicações fora de estrada e para o segmento agro, que exige robustez em terrenos que alternam entre lama, areia e asfalto, o produto se destaca por uma combinação de leveza e durabilidade.

Pagnoncelli atribui o desempenho a três frentes, incluindo o uso de aços de alta resistência na construção do tubo, um conceito de alinhamento versátil que simplifica a manutenção, e o Centro Tecnológico Randon (CTR), campo de provas da Randon Corp que permite testar componentes em condições reais antes de levá-los ao mercado. “A gente tem uma vantagem, que é a verticalização dentro das nossas empresas, aliada a todo ciclo de teste“, afirma.
O resultado é um eixo que não apenas suporta altas cargas, mas também compartilha componentes com outros produtos da linha. Essa modularidade reduz o estoque de peças de reposição necessárias para o frotista e acelera o atendimento na rede de mais de mil pontos de venda espalhados pelo Brasil. “Quem compra um produto AXYS4 está comprando uma solução Suspensys“, resume o diretor, mencionando a integração com freios Master e componentes Castertech.
A plataforma, que começou com o AXYS4, agora se expande como base unificada para futuras suspensões pneumáticas, todas compartilhando a mesma filosofia de materiais e processos.
Dinâmica veicular
Em um momento em que a indústria automotiva mundial se rende às suspensões ativas e semiativas, capazes de ajustar a rigidez em tempo real com base em sensores e atuadores, a Suspensys mantém o foco em soluções que priorizam durabilidade e capacidade de carga. Não por conservadorismo, mas por adequação à realidade brasileira. “O grande desafio é atender as características do cliente“, pondera Pagnoncelli.
O mercado nacional opera com terrenos extremamente variados, desde o fora de estrada severo até as melhores rodovias, frequentemente no mesmo trajeto. Além disso, os veículos comerciais brasileiros já nascem vocacionados, como um caminhão florestal, por exemplo, que possui requisitos radicalmente distintos de um veículo de transporte de grãos. Nesse contexto, a Suspensys tem investido em soluções dedicadas, como suspensões com sistema de rebaixamento para facilitar o carregamento de madeira, respeitando os limites de altura total. “Isso não quer dizer que não haja espaço para eletrônica“, esclarece o diretor.
O sistema TBS (Trailer Brake System) da Suspensys já incorpora controle de rolagem de segunda geração, indo além do ABS convencional. O próximo passo, segundo Pagnoncelli, é o monitoramento de carga por eixo, uma demanda histórica do transporte brasileiro, onde a capacidade nominal e a carga real frequentemente divergem. “A gente pode ajudar o frotista nesse sentido“, afirma, antecipando uma camada de software que transformará dados de telemetria (temperatura, vibração, peso) em informações preditivas.
Um marco de confiança

Nenhuma conversa sobre a Suspensys estaria completa sem mencionar o contrato de fornecimento de eixos dianteiros para a Mercedes-Benz, que atende tanto o mercado brasileiro quanto a planta da Argentina. A história, porém, é menos sobre fornecimento e mais sobre transferência de competência.
Em determinado momento, a Mercedes decidiu que a manufatura daqueles eixos não seria mais interna, mas sim terceirizada. A Suspensys se apresentou como parceira, preparou a fábrica de Mogi Guaçu e assumiu ativos que antes pertenciam à montadora em São Bernardo do Campo. O resultado foi a criação de um novo hub estratégico, com capacidade instalada para 65 mil eixos por ano. “No ano passado já chegamos a 35 mil eixos“, comemora Pagnoncelli. O contrato, válido por dez anos, é o maior da história de quase oito décadas do grupo Randon Corp.
Os próximos passos
“Estamos atuando em segmentos onde fomos mais tímidos, como ônibus. Em breve, terá produto rodando com nossa expertise.” Além disso, a empresa prepara suspensões dedicadas ao mercado florestal e a aplicações de alta capacidade de carga no off-road. “Não posso contar mais detalhes. Mas já dei duas dicas“, antecipa.
