Por trás das fachadas anônimas de galpões industriais que pontilham as periferias das grandes cidades latino-americanas, uma onda de modernização tecnológica está em curso. Não se trata mais apenas de esteiras rolantes ou braços mecânicos gigantes, mas de enxames de robôs móveis autônomos que deslizam pelo piso dos centros de distribuição como formigas em uma colônia perfeitamente orquestrada. Eles transportam prateleiras, separam caixas, organizam paletes e movimentam cargas com uma precisão que supera 99,99% de acurácia, tudo isso enquanto aprendem, em tempo real, os padrões de demanda de um mercado que não para de crescer.
Esta é a promessa da Geek+, empresa chinesa de capital aberto que, após uma década de existência, consolida-se como líder global em robótica intralogística pelo sétimo ano consecutivo. E agora, a companhia volta suas atenções para a América Latina com uma estratégia ousada, que não consiste em apenas comercializar tecnologia, mas reconfigurar a própria arquitetura da cadeia de suprimentos regional.
A próxima fronteira é humanoide

Durante uma visita à sede da Geek+ na China no mês passado, Ana Braga, vice-presidente de Business Development & Partnerships LATAM da companhia, se deparou com uma área da qual foi proibida de entrar. Trata-se do centro de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) dedicado às inovações da marca, incluindo o novo Gino, o primeiro robô humanoide especializado em intralogística do mundo, cujo lançamento está previsto para o último trimestre de 2026. “Os dados estão sob sete chaves. O que posso dizer é que ele é específico para intralogística. Não vai ser para somente andar e fazer ações humanas, pois ele virá com toda a inteligência de intralogística embarcada“, revela com exclusividade à Frota&Cia.
O Gino representa a materialização de uma tendência que a Geek+ vem cultivando desde sua fundação, há 11 anos, que trada da convergência entre inteligência artificial incorporada e automação física. Enquanto outros humanoides genéricos já circulam por diferentes mercados, a aposta da empresa é verticalizar a tecnologia para um ambiente específico (o armazém) onde cada movimento, cada decisão e cada ajuste de trajetória podem ser otimizados por algoritmos treinados em milhões de horas de operação real.
Flexibilidade
O que distingue a abordagem da Geek+ no competitivo mercado de automação logística, para além dos equipamentos, é a filosofia que a orienta. A empresa organiza seu portfólio em três famílias principais de ferramentas, contemplando o Pallet-to-Person, Tote-to-Person e Shelf-to-Person, sendo cada uma desenhada para diferentes densidades, pesos e volumes de carga. “O próprio cliente está variando o tipo de mercado que ele atua e os próprios clientes finais“, explica Braga. “Antigamente se falava muito de uma única solução. Porém, se o meu cliente precisa manusear outro tipo de material, aquela solução já não se adapta“, complementa.

É nesse ponto que entra o grande diferencial competitivo da empresa: um software de comando capaz de gerenciar até 5.000 robôs simultaneamente em uma única interface. “Não é só fabricar um equipamento, é saber coordenar como ele vai funcionar em relação aos outros que estão no mesmo sistema“, enfatiza a executiva.
A arquitetura de software da Geek+ permite que diferentes famílias robóticas operem de forma integrada sob uma única plataforma. Um cliente pode, por exemplo, iniciar com uma solução Shelf-to-Person para itens pequenos e, à medida que sua operação evolui, adicionar módulos Tote-to-Person para caixas plásticas e Pallet-to-Person para cargas paletizadas, tudo isso sem a necessidade de substituir o sistema existente ou migrar para um novo software.
Motivos para automatizar
Os números que motivam a expansão da Geek+ na América Latina são reveladores. Enquanto a China já alcançou 47% de penetração do comércio eletrônico e os Estados Unidos flutuam em torno de 40%, o Brasil estaciona em 12% e o México em 15%.”Essa é a média da América Latina. E é por isso que se justifica a automação. Existe essa lacuna onde as pessoas ainda não estão tão acostumadas a fazer compras online, e a tendência é evoluir. Quando a gente tem esse dado gráfico que mostra a tendência para o mercado da América Latina como uma região de alto crescimento, se justifica todo o investimento em novas tecnologias“, avalia a executiva.

A lógica é implacável e se a demanda por entregas rápidas e precisas vai crescer, a infraestrutura logística precisa acompanhar. E acompanhar, no contexto atual, significa automatizar.
Os clientes da Geek+ já atingiram patamares de produtividade que não podem ser ampliados por métodos manuais. “Eles chegaram numa escala altíssima de produtividade, onde não conseguem subir sem automatizar“, afirma Braga. “Imagina: são tantos dados, tantas informações que eles precisam gerenciar. Se a cadeia está manual, eles não conseguem avançar na eficiência de processamento de ordens e em todo o processo operacional“, complementa.
A pressa dos clientes em automatizar não é fruto de modismo tecnológico, mas de indicadores financeiros e operacionais que não deixam margem para dúvidas. A rotatividade média de mão de obra em centros de distribuição da região alcança 70% ao ano, um número que compromete a previsibilidade operacional e inviabiliza a escalabilidade.”Esse turnover faz com que você não tenha segurança de que, na hora de um pico de compras como a Black Friday, as pessoas estejam disponíveis“, alerta Braga.
Há também a questão do espaço físico. “Num armazém com processo não automatizado, você vê muito espaço vazio. Você está acumulando ar naquele espaço e paga por cada metro quadrado um valor muito alto“, ilustra Ana. A tecnologia permite aumentar a densidade de armazenamento e, em alguns casos, em até cinco vezes, sem ampliar a área construída.
O retorno sobre o investimento, segundo a empresa, se materializa em um período de 12 a 36 meses, com ganhos de produtividade que justificam a decisão de automatizar. E a taxa de recompra de 78% entre clientes globais atesta a satisfação com os resultados.
O case chileno

Entre os projetos mais emblemáticos da Geek+ na região está uma operação no Chile com um dos maiores fornecedores de groceries (alimentos e bens de consumo) da América Latina. O projeto, que se estende até 2030, visa ampliar a cadeia de suprimentos para que o cliente final seja atendido em até 24 horas, considerado um desafio logístico dos mais difíceis em um país de geografia alongada como o Chile.
O que torna o caso particularmente interessante é a abordagem incremental adotada pelo cliente. “Ele começou com o Shelf-to-Person numa zona mais restrita, fez alguns testes, aprovou a eficiência e a operatividade“, conta Braga. “Nesse segundo projeto, ele vai fazer também por partes. Você não precisa comprar tudo de uma vez.”
A flexibilidade do sistema permite que o cliente combine três tecnologias distintas (Tote-to-Person, Shelf-to-Person e Pallet-to-Person) que trabalham em conjunto sob uma única plataforma de software.
Estratégia regional
A Geek+ não chega à América Latina como uma novata. A empresa já atuava na região, mas os números apontaram a necessidade de uma estrutura dedicada. Em 2026, foi criada uma operação regional com CEO próprio, equipes de vendas, engenheiros de desenvolvimento (elétrico e mecânico) e gestão de projetos.Em 2025, a companhia alcançou um faturamento global de US$ 590 milhões, sendo que a América Latina respondendo por 14% desse total.
A estratégia de expansão da empresa não se limita à força de vendas própria. Desde 2020, a Geek+ adotou um modelo de parcerias com integradores locais, que são certificados e qualificados para atuar como extensões da companhia. No Brasil, a mais recente parceria foi firmada com a Bertolini Sistemas de Armazenagem.
Produtos sob medida
Um dos desafios enfrentados por empresas globais de tecnologia é conciliar a padronização de produtos com as particularidades de cada mercado. No caso da Geek+, a equação envolve desde questões técnicas, como diferenças na parte elétrica e nos requisitos de segurança de cada país, até aspectos mais sutis, como a gestão de dados e as leis locais.
“O equipamento em si muda na parte elétrica e de segurança, porque cada país, cada região tem as suas próprias leis. Cada país gerencia de uma forma o fluxo de dados“, explica Ana. “Quando dizemos que o equipamento já está disponível, é porque já passou por todas essas análises, certificações e aprovações para estar instalado na região“, complementa.
Há, contudo, um elemento que permanece invariável é a qualidade e a interoperabilidade dos sistemas. “Nós temos uma equipe de projetos globais, o que faz com que a gente padronize todos os processos, independente do país“, afirma a executiva. “O mesmo projeto que vai ser entregue na Ásia é o mesmo que vai ser entregue na Europa, na América Latina e na América do Norte.”
Essa padronização é particularmente relevante para clientes com contas globais, que adquirem projetos para múltiplos países e precisam da garantia de que a experiência operacional será consistente em todas as localidades.
Abertura de capital

A listagem da Geek+ na Bolsa de Hong Kong em 2025, com mais de 70% de seus investidores oriundos dos Estados Unidos, não foi apenas um evento financeiro, mas um selo de credibilidade que impacta diretamente a percepção de clientes e parceiros. “Isso mostra que nós somos uma empresa muito estruturada, com processos estruturados. Tanto para o acionista, que vê um investimento seguro, quanto para o cliente final que está comprando essa tecnologia“, destaca a executiva.
A abertura de capital também trouxe maior rigor em termos de governança, compliance e transparência, atributos que, em um mercado B2B de alto valor agregado como o de automação logística, são diferenciais competitivos significativos.
Próximos lançamentos
Além do Gino, cujos detalhes técnicos permanecem sob sigilo, a Geek+ prepara outras novidades para o mercado latino-americano. A empresa planeja lançar em breve novos robôs para movimentação de cargas pesadas, com capacidades de navegação por SLAM a laser e desvio de obstáculos em 360 graus, destinados a operações industriais e de manufatura.
“Nos próximos três anos, a expectativa é consolidar uma operação regional mais robusta, ampliar a base de clientes e fortalecer a presença em setores estratégicos como comércio eletrônico, varejo, logística, farmacêutico, alimentos e manufatura“, afirma Xi Chen, CEO da Geek+ para América Latina.
Eficiência
Ao final da conversa, Ana Braga resume o que talvez seja o motor mais profundo dessa transformação, já que a automação não é um fim em si mesma, mas um meio para que as empresas possam escalar sem perder eficiência e, mais importante, para que os trabalhadores possam desempenhar funções mais qualificadas e menos desgastantes.
“Eu visitei um cliente nos Estados Unidos e perguntei a uma funcionária como estava sendo a experiência de trabalhar com os equipamentos. Ela respondeu: ‘Muito melhor. Eu ficava andando o dia inteiro de um lado para o outro, não gostava muito. Agora eu trabalho com robôs, faço atividades mais legais‘”, ilustra a executiva.
A anedota revela uma verdade que os números, por si só, não conseguem capturar: a automação, quando bem projetada, não substitui o trabalho humano, mas o realoca para funções de maior valor agregado, onde a criatividade, o julgamento e a capacidade de resolução de problemas ainda são insubstituíveis.
Enquanto os robôs da Geek+ deslizam silenciosamente pelos corredores dos centros de distribuição latino-americanos, carregando consigo não apenas caixas e paletes, mas a promessa de uma logística mais inteligente, mais ágil e mais humana, fica a pergunta: será que estamos testemunhando não apenas a automação dos armazéns, mas a reinvenção do próprio trabalho na era da inteligência artificial? A resposta, como os dados sugerem, pode estar mais próxima do que imaginamos.
