Os aplicativos de frete se consolidaram como uma ferramenta indispensável para o caminhoneiro autônomo no Brasil. A avaliação é de Everaldo Bastos, vice-presidente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) e presidente da FETRABENS, que vê nas plataformas digitais um avanço importante para a contratação de cargas, mas também um caminho que saiu do trilho ao longo dos últimos anos.
Na prática, segundo Bastos, os apps ajudaram a reduzir o tempo de espera por fretes, diminuíram períodos de veículo parado e facilitaram o acesso do caminhoneiro à carga. Mas, em sua leitura, a lógica inicial de aproximação entre oferta e demanda acabou dando lugar a um ambiente de disputa intensa, com fretes abaixo do custo operacional, riscos de golpes e pouca responsabilização das plataformas.
“Hoje o caminhoneiro independente trabalha praticamente com os aplicativos”, afirmou. Para ele, a tecnologia trouxe eficiência, mas a ausência de filtros e de critérios mais rígidos abriu espaço para distorções que prejudicam justamente quem está na ponta.
Mais acesso, menos previsibilidade
A principal mudança provocada pelos aplicativos de frete foi a reorganização da busca por cargas. Antes, o caminhoneiro dependia mais da espera em postos, pátios e rodovias. Com as plataformas, passou a visualizar oportunidades em tempo real e a reduzir o tempo ocioso.

O problema, afirma Bastos, é que a busca por escala levou muitas plataformas a operar como vitrines de fretes baratos, sem compromisso com o piso mínimo e com a sustentabilidade da operação do autônomo. Ele critica práticas que resultam em valores incompatíveis com o custo do transporte, além de registros irregulares de pagamento e situações associadas ao vale-pedágio e à carta frete.
Na avaliação do dirigente, o resultado foi uma deterioração da confiança. O que começou como uma solução para facilitar a contratação teria se convertido, em muitos casos, em um ambiente de pressão sobre a renda do caminhoneiro.
Outro ponto sensível destacado na entrevista é o crescimento do chamado falso frete. Bastos relata que a ausência de filtros nas plataformas facilitou a atuação de criminosos que se passaram por contratantes para atrair caminhoneiros a locais inexistentes ou utilizados como armadilha para roubo de carga e do veículo.
Ele cita ainda casos de falso caminhoneiro e golpes envolvendo Pix falso, além de operações policiais que, segundo ele, tiveram origem em denúncias do setor em São Paulo. Para a CNTA, esse cenário mostra que a plataforma não pode se limitar a divulgar fretes: ela precisa validar usuários, checar documentos e oferecer alguma camada de segurança para embarcadores e transportadores.
O modelo que a entidade defende
Apesar das críticas, a CNTA não vê os aplicativos como um problema em si. A proposta é que eles evoluam para um modelo mais organizado, com base em qualificação, segurança e integração de serviços.
Bastos defende um formato em que a plataforma funcione como administradora dos direitos do caminhoneiro autônomo, concentrando etapas como contratação, documentação, emissão de sinais eletrônicos, controle de vale-pedágio, comprovação de entrega e até meios de pagamento. O futuro do setor passa por um ecossistema digital mais fechado e confiável, com menos dispersão e mais controle.
Nesse modelo, o caminhoneiro cadastrado teria documentos e certificações validados, enquanto o embarcador ganharia mais previsibilidade sobre quem está transportando a carga. Bastos também afirma que plataformas mais estruturadas tendem a favorecer a formalização e a reduzir riscos de inadimplência.
A discussão sobre os aplicativos de frete se conecta diretamente à defesa de regras mais rígidas para o transporte rodoviário. Bastos cita a MP 1.343 como uma peça importante nesse processo, especialmente por reforçar o piso mínimo do frete e prever mecanismos de contratação mais organizados.
Na visão da CNTA, a regulação pode ajudar a corrigir distorções e impedir que plataformas divulguem fretes abaixo do valor mínimo legal. O argumento é que, sem esse tipo de limite, a tecnologia tende a apenas acelerar a disputa por preço, e não a melhorar a remuneração do caminhoneiro.

Impacto direto na rotina do caminhoneiro
Para o caminhoneiro autônomo, o debate vai além do uso de um aplicativo. Envolve renda, segurança, previsibilidade e capacidade de planejar a própria operação. A CNTA sustenta que a digitalização pode ser positiva, desde que venha acompanhada de filtros, validação de documentos e respeito às regras do setor.
A entidade defende que o autônomo precisa ter acesso a cargas, mas sem abrir mão de garantias básicas, como piso mínimo, vale-pedágio e proteção contra golpes. Em resumo, a tecnologia só faz sentido se gerar mais organização e menos vulnerabilidade para quem está na estrada.
Os aplicativos de frete já alteraram a forma como caminhoneiros encontram cargas no Brasil. Mas, para a CNTA, o setor ainda precisa amadurecer para que a promessa de eficiência não venha acompanhada de precarização, fraude e perda de renda.
