A experiência de uma viagem rodoviária de ônibus sem sempre foi algo confortável e ao alcance dos dedos. Muitas vezes, passageiros deveriam se deslocar com planejamento até as rodoviárias, encarar filas em guichês e, após o embarque, guardar o bilhete da viagem para eventual comprovação. Características inerentes de um mundo ainda bastante analógico. Hoje em dia, a mesma viagem pode ser planejada na tela de um celular, com comparação de preços em tempo real e embarque sem contato humano por meio de ferramentas que estão redesenhando os contornos da mobilidade num país de dimensões continentais.
Segundo Jefferson Castro, diretor Regional da Buson no Brasil, o movimento é apenas o começo de uma transformação mais profunda. “Entramos em um novo ciclo de evolução do setor. Nosso foco é usar tecnologia para simplificar a experiência do passageiro, dando mais transparência e autonomia na escolha da viagem”, avisa.
O dado é incontornável: o Brasil possui a segunda maior malha rodoviária do mundo, com mais de 1,7 milhão de quilômetros de estradas, e o ônibus segue como o principal meio de transporte coletivo interestadual e intermunicipal, movimentando centenas de milhões de passageiros por ano. Até recentemente, no entanto, a experiência desse viajante pouco havia mudado desde a criação das primeiras rodoviárias, na década de 1950. A compra de passagens exigia deslocamento até o ponto de venda físico, o embarque dependia de bilhetes de papel e a comparação entre rotas e horários era uma tarefa artesanal, restrita a quem tinha paciência e tempo para percorrer guichês.

De olho neste filão, a Buson, fundada em 2013, inicialmente como um modesto “guichê virtual” acessível apenas por computadores desktop, amadureceu e se tornou o maior marketplace de passagens rodoviárias das Américas após a fusão com a global Busbud em 2024, conectando mais de 300 empresas de transporte a um ecossistema que abrange 70 mil rotas e se estende desde a venda direta ao consumidor até a distribuição B2B e soluções de inteligência artificial para gestão de frotas. A pergunta que orienta essa jornada, na visão de Castro, não é mais se o setor vai digitalizar, mas como essa digitalização pode ir além da simples transação comercial para reconfigurar toda a cadeia logística e a relação entre empresa e passageiro.
Experiência da aviação

O passageiro rodoviário de 2026 já colhe benefícios concretos que, até poucos anos atrás, eram privilégio de quem viajava de avião. Em poucos segundos, é possível comparar preços, horários e categorias de serviço entre dezenas de operadoras, concluir a compra inteiramente pelo celular e embarcar apresentando apenas o QR Code armazenado na carteira digital do smartphone.
O bilhete eletrônico eliminou etapas e filas que antes consumiam tempo e paciência. “A segurança não está no QR Code em si, mas em toda a inteligência por trás da operação”, explica Castro. “O código funciona como um identificador do bilhete, enquanto a validação acontece nos sistemas da empresa, que confirma a autenticidade da passagem e evita usos indevidos ou duplicados.”
A integração com Apple Wallet e Google Wallet já permite que o passageiro mantenha o bilhete sempre acessível no celular, de forma prática e segura. E o horizonte inclui tecnologias como identidade digital e biometria, que prometem tornar o embarque ainda mais ágil. Mas, para o diretor da Buson, o verdadeiro salto de qualidade virá de algo menos visível, que é a integração dos sistemas das empresas rodoviárias. “Quanto mais conectados estiverem os canais de venda, as plataformas digitais, os sistemas das empresas e as ferramentas utilizadas na operação, maior será a capacidade de oferecer uma experiência realmente contínua, segura e omnichannel para o passageiro”, afirma.
Apesar dos avanços, desafios estruturais persistem. Ao contrário do transporte aéreo, em que a compra antecipada é a norma, no rodoviário ainda predominam aquisições feitas poucos dias, ou até mesmo poucas horas/minutos, antes do embarque. Esse comportamento reduz a capacidade de planejamento operacional das empresas, desde a gestão da oferta até a alocação de frota. “Ainda existe uma desconexão na jornada do passageiro”, admite Castro. “Em muitos casos, o passageiro que compra pelo site da empresa e aquele que compra por um parceiro digital acabam sendo tratados como clientes distintos, o que dificulta ações de relacionamento, fidelização e personalização da experiência.”
A inteligência por trás da estrada
Se a ponta visível da digitalização é a compra de passagens, o coração da transformação está nos bastidores, na massa de dados gerada por milhões de pesquisas e transações diárias. A plataforma da Buson processa um volume gigantesco de informações sobre comportamento de demanda, incluindo quais rotas são mais procuradas, em que momento o passageiro decide viajar, qual a antecedência média da compra, onde existem oportunidades de oferta não atendidas. Esses sinais, tratados por algoritmos de inteligência artificial, estão sendo transformados em ferramentas de gestão para as empresas de transporte.

A precificação dinâmica, por exemplo, embora continue sendo uma decisão das operadoras, é apoiada por sistemas de IA que analisam centenas de variáveis simultaneamente (antecedência da compra, sazonalidade, eventos regionais, ocupação histórica, comportamento de demanda e tendências de mercado) para recomendar ações comerciais mais assertivas. “Muitas vezes, a melhor resposta para um aumento de demanda não é apenas alterar a tarifa, mas avaliar a inclusão de um horário extra, o reforço da frota em determinada rota ou uma campanha promocional para redistribuir a demanda ao longo do dia”, observa Castro. “A inteligência artificial amplia a capacidade de antecipar esses movimentos e apoiar decisões que antes dependiam exclusivamente da experiência e da análise manual das equipes”, complementa.
A arquitetura tecnológica que sustenta essa operação precisa estar preparada para momentos de pico, como vésperas de feriados, quando o volume de consultas cresce exponencialmente. Para isso, segundo o executivo, a Buson investe em infraestrutura escalável e resiliente, com mecanismos de cache distribuído e sincronização de inventário em tempo real. O objetivo é garantir que o passageiro encontre informações consistentes em qualquer canal, contemplando site, aplicativo, marketplace, Google Bus ou assistentes de inteligência artificial como o ChatGPT, onde a plataforma já permite pesquisar rotas por meio de conversação natural.
Ecossistema em evolução

A trajetória da Buson reflete a própria maturação do mercado. O que começou como um marketplace B2C evoluiu para uma plataforma B2B que oferece soluções de distribuição, integração de sistemas e inteligência comercial para as próprias empresas de transporte. “No início, o principal desafio era digitalizar a venda de passagens e tornar o transporte rodoviário mais acessível ao consumidor”, recorda Castro. “À medida que a digitalização avançou, ficou claro que o maior desafio não estava apenas na venda, mas em toda a infraestrutura que conecta empresas, canais de distribuição e passageiros”, reavalia.
Hoje, a empresa se posiciona como uma plataforma neutra de tecnologia e distribuição para o setor rodoviário, um papel que Castro define como essencial para fortalecer o ecossistema como um todo. “Acreditamos que uma plataforma deve fortalecer o setor como um todo, preservando a autonomia das empresas de transporte, a confidencialidade de suas estratégias comerciais e a liberdade para que estejam presentes em diferentes canais de distribuição. Nosso papel é ampliar o alcance das empresas e levar seu inventário para onde o passageiro estiver”, informa.
Um dos exemplos mais promissores desse modelo é a possibilidade de conectar trechos operados por diferentes empresas, ampliando a capilaridade da malha rodoviária sem a necessidade de criar novas linhas. É um conceito consolidado na aviação, o chamado codeshare, que começa a ganhar tração no transporte terrestre. “Muitas vezes, o passageiro não encontra uma opção porque procura uma viagem direta, quando, na realidade, ela pode ser realizada por meio da combinação de trechos operados por diferentes empresas”, explica Castro. “Estamos levando esse conceito também para nossa plataforma B2B. As empresas que utilizam nossa tecnologia poderão compartilhar inventários entre si de forma estruturada, criando oportunidades de integração operacional e comercial.”
O futuro da mobilidade

O ritmo da digitalização, no entanto, não é uniforme. Castro alerta para a existência de “múltiplos Brasis” quando se analisa a penetração das vendas online no transporte rodoviário. Por exemplo, em alguns mercados, as vendas digitais já representam entre 30% e 40% do total; em outros, não chegam a 5%. Há operadoras que ultrapassam 70% de vendas por canais digitais e há quem tenha praticamente substituído o guichê físico. “A tecnologia já está disponível; o ritmo de adoção depende das características de cada mercado e da estratégia de transformação digital de cada empresa”, pondera.
O diretor da Buson faz questão de desmistificar, porém, a ideia de que digitalização significa o fim do atendimento presencial. “Mesmo uma venda realizada presencialmente pode ser totalmente digital do ponto de vista operacional, emitida em sistemas integrados e conectada aos demais canais da empresa. O grande objetivo não é eliminar o atendimento físico, mas construir uma operação verdadeiramente omnichannel, em que passageiro, guichê, site, aplicativo, parceiros e novos canais compartilhem a mesma informação e a mesma experiência”, destaca.
Para os próximos anos, a visão de Castro é de uma mobilidade cada vez mais integrada e o conceito de Mobility as a Service (MaaS), em que diferentes modais conversam entre si em uma única jornada. “O passageiro não pensa em modais; ele pensa em chegar ao seu destino da forma mais conveniente, combinando custo, tempo, conforto e disponibilidade”, afirma. “Acreditamos que o futuro da mobilidade passa por ecossistemas conectados, nos quais cada empresa contribui com sua especialidade para entregar uma experiência mais completa”, complementa.
Enquanto passageiros passam a mostrar o celular para o motorista em vez do papelzinho, a indústria que os transportam já mira um horizonte em que a inteligência artificial antecipa sua próxima viagem, a frota se ajusta em tempo real à demanda e o bilhete eletrônico é apenas a ponta visível de uma revolução que, silenciosamente, está reescrevendo as regras da mobilidade num país onde a estrada ainda é a principal linha que une o território.
