Às cinco da manhã de uma quinta-feira qualquer, a Rodovia Presidente Dutra, a espinha dorsal logística que conecta o coração industrial de São Paulo ao polo petroquímico do Rio de Janeiro, já fervilha com milhares de caminhões. É o horário de pico silencioso do transporte de cargas brasileiro, aquele que os dados agora revelam como o mais perigoso do dia. Em 2025, enquanto o país contabilizava 1.504 acidentes graves envolvendo veículos de carga apenas nas operações monitoradas por um dos maiores ecossistemas de gestão de risco da América Latina, um padrão geográfico implacável emergiu dos números, o de que o risco não está distribuído de forma homogênea pelo território continental. Ele tem endereço, horário e, acima de tudo, um perfil humano que desafia o senso comum.
O levantamento conduzido pela nstech, empresa de software para supply chain que monitora centenas de milhares de viagens anualmente por meio de suas gerenciadoras BRK, Buonny e Opentech, aponta que a região Sudeste consolidou sua posição como o principal epicentro de acidentes no transporte rodoviário de cargas. Foram 847 ocorrências apenas na operação monitorada, sendo um salto de 12% em relação a 2024 e um aumento expressivo frente às 539 registradas em 2023. Três estados respondem pelo epicentro dessa crise, incluindo São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, nesta ordem.
São Paulo, sozinho, concentrou 417 acidentes em 2025, ante 388 no ano anterior. A via Anchieta, o Rodoanel, a Castelo Branco e a própria Dutra transformaram-se em laboratórios de risco onde confluem frota envelhecida, motoristas sob pressão por produtividade e uma infraestrutura que a Pesquisa CNT de Rodovias 2025 classificou como majoritariamente regular ou ruim — 62,1% da malha avaliada encontra-se nessas duas categorias.

Minas Gerais, por sua vez, não apenas manteve a segunda posição no ranking como protagonizou uma escalada alarmante, passando de 177 acidentes em 2023 para 259 em 2025. A BR-381, conhecida como Rodovia da Morte, sintetiza essa tragédia anunciada: seus 90 acidentes com caminhões no último ano representam um crescimento de 32% em relação a 2024, consolidando a via federal como a terceira mais crítica do país, atrás apenas da BR-116 e de trechos urbanos — estes, aliás, lideram o ranking absoluto de ocorrências, com 256 registros.
O mapa de risco, no entanto, não é estático. Enquanto o Sudeste sangra, o Centro-Oeste ensaia uma expansão silenciosa, porém consistente, ampliando de 149 para 170 acidentes entre 2024 e 2025, um crescimento de 14%. Mato Grosso, território estratégico para o escoamento da safra de grãos, saltou de 55 para 75 ocorrências. A BR-153, a Transbrasiliana, que atravessa o coração agroexportador do país, aparece entre as cinco rodovias mais perigosas, com 62 acidentes monitorados. O padrão sugere que o risco logístico acompanha a fronteira agrícola — e que onde a soja avança, os caminhões tombam.
Se a geografia dos acidentes traça um mapa da vulnerabilidade, a cronometragem das ocorrências revela a anatomia da rotina logística. Ao contrário do que sugeriria a intuição popular, que associa a escuridão e o cansaço noturno ao perigo máximo, o período mais crítico para acidentes com cargas é a manhã. Foram 480 ocorrências entre o nascer do sol e o meio-dia. Embora o número represente uma queda em relação às 543 de 2024, a estatística ainda posiciona a manhã como o intervalo de maior concentração de sinistros. A explicação, sugerem os especialistas, reside na sobreposição de fatores, por exemplo, o pico de veículos leves nos deslocamentos urbanos, a saída maciça de caminhões dos centros de distribuição e a fadiga residual de motoristas que iniciaram suas jornadas ainda na madrugada.
A tarde, no entanto, não ficou atrás. Com 438 ocorrências em 2025, o período cresceu 14% em relação ao ano anterior, tornando-se a segunda janela mais perigosa. Mais preocupante ainda é a trajetória ascendente dos turnos noturno e da madrugada com – respectivamente – 292 e 294 acidentes, ambos com aumentos expressivos frente a 2024. O dado sugere uma migração silenciosa do risco para fora do horário comercial, possivelmente impulsionada pela expansão das operações logísticas 24 horas e pela pressão por redução de prazos de entrega.
Dias mais perigosos
Quando a análise recai sobre os dias da semana, emerge um padrão que os gestores de frota conhecem bem, mas que os números agora cristalizam com precisão cirúrgica. As quintas-feiras são, de longe, os dias mais críticos e contabilizaram 260 acidentes em 2025, superando as 243 de 2024 e consolidando uma tendência de três anos.
As sextas-feiras aparecem em seguida, com 249 ocorrências, também em trajetória de alta consistente. A explicação mais plausível combina dois fenômenos, incluindo o acúmulo de fadiga ao longo da semana de trabalho e a antecipação logística para entregas que precisam ser concluídas antes do final de semana. Os sábados e domingos, previsivelmente, registram os menores índices, com 180 e 153 acidentes, respectivamente, mas mesmo aqui há um sinal de alerta, pois as ocorrências aos domingos cresceram de 129 para 153 ocorrências entre 2024 e 2025.
Tipos de ocorrências
O coração mecânico dos acidentes, porém, pulsa em um ritmo ainda mais preocupante quando se examina a natureza das ocorrências. As colisões seguem como o tipo predominante, com 518 registros em 2025, um crescimento de 5,7% em relação a 2024 e de impressionantes 58% frente a 2023.
Os tombamentos, igualmente graves por seu potencial de interdição total de vias e contaminação ambiental, atingiram 498 ocorrências, mantendo uma escalada consistente que já dura três anos: foram 391 em 2023, 455 em 2024 e agora 498. Choques, saídas de pista e incêndios completam o ranking, este último com uma trajetória particularmente inquietante, chegando a 108 ocorrências em 2025, ante 102 no ano anterior e apenas 72 em 2023.
Cargas
A tipologia das cargas envolvidas acrescenta uma camada adicional de complexidade a esse cenário. As chamadas cargas fracionadas, que consolidam produtos de diferentes embarcadores em um mesmo veículo, lideram com folga o ranking de acidentes, registrando 700 ocorrências. Embora o número represente uma discreta queda em relação às 709 de 2024, o segmento ainda responde por quase metade de todos os sinistros monitorados. O setor alimentício aparece em segundo lugar, com 559 acidentes, também em crescimento.
Mas o dado que mais chama a atenção e que deveria soar como um alarme para seguradoras e gestores de risco é o salto explosivo nos acidentes envolvendo cargas siderúrgicas, que aumentou de somente 5 ocorrências em 2024 para 44 em 2025. Um aumento de 780% em um único ano, impossível de ser atribuído ao acaso ou a flutuações estatísticas normais. O fenômeno merece investigação aprofundada, mas hipóteses iniciais apontam para a combinação de fatores como o crescimento da produção siderúrgica nacional, as características específicas desse tipo de carga (pesada, com centro de gravidade elevado e sujeita a deslocamentos durante o transporte) e, possivelmente, um relaxamento nos protocolos de amarração e segurança.
Motoristas
O perfil dos motoristas envolvidos nesses acidentes, revelado pela primeira vez no levantamento deste ano, derruba uma das crenças mais arraigadas do setor. Não são os jovens inexperientes os principais protagonistas dos sinistros. Ao contrário, a faixa etária mais representativa é a de 40 a 50 anos, responsável por 473 ocorrências, seguida de perto por motoristas com mais de 50 anos, com 452 acidentes.
Profissionais com mais de duas décadas de experiência, em tese mais preparados para lidar com situações adversas, são justamente os que mais se envolvem em ocorrências graves. A explicação, ainda preliminar, remete a um fenômeno complexo que envolve a fadiga acumulada ao longo de carreiras exaustivas, a resistência à adoção de novas tecnologias de segurança e, possivelmente, um excesso de confiança que leva à assunção de riscos desnecessários.
Outro dado estrutural veio da análise do vínculo trabalhista em que os motoristas agregados — autônomos ou vinculados a transportadoras sem relação empregatícia formal — lideram com disparidade o ranking de acidentes, respondendo por 840 ocorrências, ante 365 de funcionários efetivos. A diferença de 130% sugere que a padronização operacional, os treinamentos sistemáticos e a supervisão contínua associados ao vínculo empregatício formal funcionam como importantes fatores de proteção. Em outras palavras, a terceirização da condução, tão comum no setor de cargas brasileiro, vem acompanhada de uma externalidade negativa medida em vidas e prejuízos.
O que explica, afinal, essa persistência dos acidentes em níveis tão elevados, mesmo com o avanço tecnológico e a crescente conscientização sobre segurança viária? A resposta, como quase sempre acontece em sistemas complexos, é multifatorial. A Pesquisa CNT de Acidentes Rodoviários 2025 atribui à conduta dos motoristas o protagonismo na gênese dos sinistros, já que a falta de reação e a reação tardia ou ineficiente – somadas – foram responsáveis por 30,7% das ocorrências. Nos casos com mortes, comportamentos de risco como trafegar na contramão (15,9%) e realizar ultrapassagens indevidas (6,7%) foram os principais vilões.
Mas a conduta individual não opera no vácuo. Ela é moldada por condições objetivas adversas. O levantamento da nstech, amparado em dados da plataforma Onisys, identificou os principais desvios críticos cometidos por motoristas em 2025. O excesso de velocidade, em suas múltiplas variações, lidera com folga, seguido por rotações por minuto (RPM) excedidas, acelerações bruscas, frenagens abruptas, fadiga, distração, não uso do cinto de segurança, mão fora do volante, objetos soltos na cabine, uso de celular e interação com dispositivos eletrônicos. No total, foram mais de 39 milhões de desvios registrados em 740 empresas monitoradas ao longo do ano.
Se esses números parecem abstratos, sua tradução em comportamento cotidiano é brutalmente concreta. O uso de celular durante a condução foi flagrado mais de 470 mil vezes. Quase 497 mil motoristas foram identificados dirigindo sem o cinto de segurança. Distração e fadiga ultrapassaram 1,3 milhão de ocorrências combinadas, sendo 1.046.266 episódios de distração e 303.024 de fadiga. As câmeras de monitoramento capturaram mais de 1,1 milhão de registros de olhos fechados e 853 mil bocejos, sinais inequívocos de comprometimento da atenção ao volante.
Metrificação
O paradoxo, apontado por Thiago Azevedo, diretor de Produto da nstech, é que o setor avançou significativamente na capacidade de monitoramento, mas ainda patina na capacidade de intervenção. O número de viagens acompanhadas pelo ecossistema da companhia cresceu 34,8% entre 2024 e 2025, e o valor das cargas monitoradas avançou 19,7% no mesmo período. No entanto, o aumento dos acidentes foi de apenas 4,7% — um indicador de que a tecnologia já produz resultados, mas ainda está longe de seu potencial máximo.
Infraestrutura
A infraestrutura rodoviária, elemento frequentemente invocado como bode expiatório para todos os males do transporte brasileiro, recebe sua devida cota de responsabilidade no relatório, mas não como único vilão. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 analisou 114.197 quilômetros e constatou que apenas 10,1% da malha pavimentada foi classificada como ótima e 27,8% como boa. A maior parte, 43%, permanece em condição regular, enquanto 19,1% se dividem entre ruim e péssimo. Foram identificados 2.146 pontos críticos ao longo das rodovias federais e estaduais. Isso significa que, mesmo nos trechos pavimentados, a infraestrutura ainda representa um fator relevante de risco.