Na cadência da logística do Carnaval 2026

Nos bastidores da festa, 3 mil caminhões, 5 mil paletes e um centro de controle 24h orquestram a logística de levar bebida e sorvete a milhões de foliões

Por Gustavo Queiroz

- fevereiro 11, 2026

Frota da JSL Carnaval

Enquanto milhões se preparam para cair na folia, uma sinfonia silenciosa de motores a diesel, paletes deslizantes e dados fluindo em telas de controle orquestra o verdadeiro milagre por trás do Carnaval brasileiro: fazer chegar às mãos dos foliões, no lugar e na hora certos, cada lata de cerveja, cada garrafa de água, cada pote de sorvete. Nos bastidores da maior festa popular do país, a engrenagem que sustenta o consumo é uma operação logística de precisão militar e escala colossal, um balé de caminhões e armazéns dançando no limite entre a demanda explosiva e o caos iminente.

Em 2026, com projeções da Confederação Nacional do Comércio apontando para uma injeção de R$ 14,48 bilhões na economia do turismo, a pressão sobre essa cadeia atinge níveis críticos. Respondendo ao chamado, a JSL, um dos maiores conglomerados logísticos da América Latina, acionou seu plano de guerra para a temporada, ampliando em 25% sua capacidade operacional nacional. O epicentro do esforço é o corredor Nordeste-Sudeste, um arco de milhares de quilômetros por onde fluem, em ritmo acelerado, os insumos da festa.

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Renato Accessor, CEO da Fadel
Renato Accessor, CEO da Fadel | Foto: Divulgação

No comando da ponta mais sensível dessa operação – a que toca o asfalto quente e os pontos de venda – está Renato Accessor, CEO da Fadel Transportes e Logística, empresa pertencente à JSL. Em sua visão, o Carnaval é mais do que um pico de demanda; é um laboratório de alto risco para a logística do século XXI. “O principal desafio está na previsibilidade e no planejamento antecipado”, explica o executivo. “A concentração geográfica é intensa, e o consumo é de categorias específicas e sensíveis, como bebidas, água e sorvetes. A partir dessa leitura, estruturamos uma operação flexível, combinando maior acionamento da frota dedicada com a ampliação da rede de agregados para absorver a demanda”, complementa.

A palavra “flexibilidade” ganha contornos tangíveis em números, considerando quase 3.000 veículos mobilizados, entre frota própria e parceiros homologados, formando um exército modular sobre rodas. Nos bastidores, quatro armazéns estratégicos – localizados em Pernambuco, Minas Gerais e Rio de Janeiro – funcionam como corações artificiais, pulsando com cerca de 5.000 posições-palete em ambiente controlado por temperatura. São nesses vastos galpões que produtos como cerveja e sorvetes são reposicionados estrategicamente, com os itens de maior giro colocados mais próximos das docas de carregamento, um ajuste de intralogística que rasga minutos preciosos do tempo de separação e acelera o fluxo rumo ao último elo da cadeia.

Transporte de bebidas na Fadel
Transporte de bebidas na Fadel | Foto: Divulgação

Mas a verdadeira maestria, segundo Accessor, reside na integração profunda com os clientes – gigantes como Ambev, Heineken, Minalba e Unilever. “Trabalhamos com planejamento conjunto e antecipado, recebendo a roteirização já alinhada com a indústria”, detalha o CEO. Isso se traduz em janelas de entrega ampliadas e negociadas, incluindo expedições noturnas e uma grade de descarga estendida no varejo, especialmente no canal de autosserviço. Em cidades tomadas pelo festejo, onde o trânsito se transforma e os horários comerciais se dilatam, a roteirização dinâmica se torna uma arte. “Ampliamos entregas em horários alternativos, como no fim da tarde ou à noite, e adotamos soluções para áreas com acesso limitado, como paradas estratégicas e uso de carrinhos para a entrega final”, complementa.

Nesse cenário de variáveis imprevisíveis, que vao de bloqueios de ruas por blocos a condições climáticas adversas, o centro nervoso da operação é uma sala de controle que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Ali, fluxos de dados de telemetria, monitoramento de fadiga de motoristas e gestão de risco de rotas são sintetizados em mapas em tempo real. “Utilizamos telemetria embarcada para acompanhar indicadores de condução, localização e performance”, afirma Accessor. “No crítico corredor Nordeste-Sudeste, esses dados permitem recalibrar a operação de forma dinâmica, ajustando itinerários e horários conforme as condições da rota. Sistemas com alertas automáticos identificam desvios, e a central atua imediatamente, entrando em contato com o motorista para orientar ajustes ou até interromper a operação, priorizando sempre a segurança.”

Projeções

Frota da JSL sobre ponte
Foto: Divulgação

Para o período do Carnaval 2026, a previsão é de 3,8 mil toneladas no segmento de água e refrigerantes, um aumento de 20% sobre a performance de 2025. Para o CEO, o sucesso da empreitada não se mede apenas pelo volume movimentado, mas por um conjunto rigoroso de Indicadores-Chave de Performance (KPIs). “Monitoramos de perto o OTIF (On Time In Full), que mede a entrega no prazo e na quantidade correta, e os índices de devolução, que precisam se manter nos níveis mais baixos possíveis”, revela. “Outro KPI relevante é a gestão da jornada do motorista, garantindo que as rotas sejam realizadas dentro dos limites, com segurança e eficiência”, diz em complemento.

Fadel Transporte e Logística
Foto: Divulgação

A operação Carnaval de 2026 também é um testemunho das sinergias pós-consolidação dentro do grupo JSL. Accessor observa que a integração proporcionou “uma rede nacional mais robusta, maior base de motoristas e ativos e maior flexibilidade para mobilizar recursos de forma rápida”. Em contrapartida, a expertise da Fadel em entrega urbana e gestão de operações sazonais injeta no grupo um conhecimento tácito sobre capilaridade e roteirização dinâmica em ambientes complexos.

O que está em jogo, no final das contas, vai além da logística, sendo a garantia de que a experiência do consumidor – o gole de cerveja gelada, a água para se hidratar – não seja interrompida pelo colapso da cadeia de abastecimento. “Nosso ponto estratégico está em traduzir o aumento de demanda em nível de serviço consistente”, confirma Accessor.

Enquanto a diversão acontece para os fãs do Carnaval, nos armazéns refrigerados e nas cabines dos caminhões, outra batida, metálica e precisa, mantém o ritmo da festa. “É colocar o cliente no centro, assegurando disponibilidade, velocidade e alto padrão, mesmo em cenários de alta complexidade. É essa capacidade que sustenta o crescimento e fortalece a confiança”, finaliza o executivo.

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