O corte drástico nas encomendas das montadoras, assim como a redução das exportações, vem sendo compensado na indústria de pneus pelo bom desempenho do canal de reposição, responsável hoje por 63% das vendas desse produto. A produção nas fábricas brasileiras de pneumáticos subiu 2% no primeiro semestre, chegando a 35,8 milhões de unidades entre janeiro e junho, segundo informa levantamento feito pela Anip, entidade que representa o setor.
Noperíodo, as entregas no mercado de reposição, superiores a 23 milhões de unidades, avançaram 10,9%, minimizando o impacto das menores vendas a montadoras, que caíram 18,7%, e dos embarques ao exterior, cujo recuo no acumulado do semestre foi de 12,1%, a despeito do ganho de competitividade permitido pela desvalorização cambial.
Embora estejam num dos poucos ramos da indústria automobilística ainda no azul – nas montadoras, a atividade cai ao menor nível em nove anos -, os fabricantes de pneus se queixam que, sem ser totalmente absorvida pelo mercado, a maior produção tem resultado em estoques elevados, que, combinados à concorrência dos importados no mercado de reposição, pressionam preços e, como consequência, a rentabilidade do negócio.
Estoques
A Anip não faz um acompanhamento estatístico dos estoques, mas o indício de que a situação é preocupante está no descolamento entre as curvas da produção, em alta, e de vendas, em leve queda de 0,6% se somados os volumes dos três canais de escoamento: reposição, exportações e montadoras. “Esse 0,6% de queda é um número irreal porque a situação é dramática”, afirma Alberto Mayer, presidente da Anip.
Sofrem mais nesse contexto as linhas voltadas a veículos comerciais pesados, onde todos canais estão em baixa – nem a reposição salva. A fabricação de caminhões e ônibus cai, respectivamente, 45,2% e 27,8% neste ano, provocando redução de 44,5% nas entregas de pneus a montadoras desses veículos, conforme dados do primeiro semestre. E diferentemente dos pneus de automóveis, o segmento também encolhe no mercado de reposição, onde a queda é de 6,2%.
Por conta do frágil desempenho dos pneus mais pesados – e também mais caros -, a produção da indústria de pneumáticos, embora ascendente em unidades, mostra queda de 6,6% se for levado em conta o peso do que foi produzido: 476,2 mil toneladas nos seis primeiros meses deste ano.
Fabricantes iniciam período de “layoff” e férias coletivas
Amanhã, a Pirelli dá início às férias coletivas que vão parar pelas próximas três semanas a fábrica de Santo André, no ABC paulista, onde produz pneus de caminhões e tratores agrícolas. Já na segunda-feira, férias também de três semanas serão concedidas a 430 empregados do setor que faz pneus radiais de caminhões e ônibus na unidade da multinacional italiana em Gravataí, no Rio Grande do Sul.
A situação está melhor no segmento de carros de passeio, beneficiado pelas trocas de pneus de uma frota que quase dobrou de tamanho na última década. Apesar das férias em operações voltadas a veículos comerciais, a Pirelli diz que, por outro lado, suas fábricas de pneus para automóveis em Campinas (SP) e Feira de Santana, na Bahia, estão reintegrando nesta semana 340 dos 1,2 mil funcionários afastados desde maio das quatro operações brasileiras do grupo. A volta do pessoal, que estava com contratos de trabalho suspensos em esquema de “layoff”, foi possível graças à redução dos estoques internos dos pneus de carros de passeio.
Na Bridgestone, terceira maior fabricante desse setor no país, a produção na fábrica de Santo André começou a ser gradualmente retomada na segunda-feira da semana passada, após um mês de férias coletivas – antecipadas em junho devido a um incêndio na subestação de energia da unidade. Não há mais férias previstas.
A Goodyear diz que sua produção vem sendo ajustada ao nível da demanda atual, mas que, no momento, não há previsão de afastamento de operários via “layoff” ou cortes via programa de demissões voluntárias. Segundo o sindicato que representa os trabalhadores da categoria em Americana (SP), onde está a fábrica da Goodyear, a empresa está, individualmente, concedendo todas as férias já vencidas para adequar a força de trabalho à necessidade de produção.
A Michelin, por sua vez, informa que vai acompanhar a demanda do mercado e, se necessário, fará adaptações ao plano de produção. Por enquanto, a produção está dentro do previsto, ressalta a multinacional francesa.
Fonte: Valor Econômico
