ITDP discute acessibilidade universal com qualidade na eletromobilidade urbana

Jacarta integra tarifas e triplica passageiros. Cascavel eletrifica frota com usina solar e reduz custos. Guadalajara forma motoristas e cria subsídios. Qualidade, sustentabilidade e inclusão caminham juntas

Por Gustavo Queiroz

- abril 2, 2026

Princípios do Transporte Público

Em um contexto de pressão crescente sobre os sistemas de mobilidade urbana — marcado pelo aumento das emissões, pela queda no número de passageiros e por lacunas crônicas de financiamento —, o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) promoveu um webinar para lançar oficialmente sua nova publicação: os “Princípios do Transporte Público“. O evento, que contou com a participação de especialistas da Indonésia, Brasil e México, buscou oferecer uma estrutura clara e unificada para definir e construir sistemas de alta qualidade que sirvam verdadeiramente a todos os cidadãos.

A discussão, mediada pela equipe de comunicações globais do ITDP, partiu da premissa de que o transporte público é mais do que veículos em movimento; ele constitui o espaço onde a vida cotidiana acontece, conectando pessoas a empregos, educação, saúde e lazer. Beatriz Rodriguez, gerente de Transporte Público e Eletrificação do ITDP, abriu o debate destacando que, em muitas cidades, o transporte formal e informal representa entre 40% e 70% dos deslocamentos motorizados. No entanto, para que esse serviço seja verdadeiramente eficaz, Rodriguez argumentou que ele precisa se apoiar em três qualidades essenciais, incluindo oferecer um bom serviço (frequente, rápido e confiável), ser zero emissões (com frotas de energia limpa) e funcionar para todos (com acessibilidade universal, tarifas justas e infraestrutura segura).

Cases

Wahyu Setiawan, da TransJakarta
Wahyu Setiawan, da TransJakarta

A apresentação de Wahyu Setiawan, da TransJakarta (Indonésia), ilustrou como a qualidade do serviço pode ser aprimorada por meio da integração tarifária e institucional. Diante de uma realidade onde a tarifa do ônibus permaneceu congelada por 20 anos por razões políticas, levando a uma taxa de recuperação de custos de apenas 12%, a cidade enfrentava um desafio estrutural.

A solução encontrada foi a criação da PT Jaklingko Indonesia, uma empresa estatal que integra as tarifas de diferentes modais (ônibus, metrô e VLT). Com um sistema de pagamento unificado e um modelo que permite transferências por um período de até três horas pagando-se uma única tarifa reduzida, a cidade conseguiu não apenas melhorar a experiência do usuário, mas também quase triplicar o número de passageiros no período pós-pandemia. Setiawan enfatizou que o subsídio ao transporte público, embora politicamente sensível, gera um efeito multiplicador econômico de três vezes o valor investido, além de proporcionar economia significativa para as famílias de baixa renda.

Laura Leite, da empresa de transporte público de Cascavel (PR)
Laura Leite, da empresa de transporte público de Cascavel (PR)

Do Brasil, Laura Leite, da empresa de transporte público de Cascavel (PR), trouxe uma perspectiva prática sobre a transição para uma frota de emissão zero. Com uma população de cerca de 370 mil habitantes, a cidade incorporou 15 ônibus elétricos à sua frota de 149 veículos. Ela detalhou que o projeto não se limitou à compra dos veículos, que representam 10% da frota total, mas envolveu um investimento holístico, incluindo a construção de uma usina fotovoltaica sobre um antigo aterro sanitário, capaz de gerar energia não apenas para os ônibus, mas também para escolas e unidades de saúde.

Os resultados após um ano de operação demonstraram uma redução de 45% no custo por quilômetro em comparação com os veículos a combustão, uma economia de mais de 1 milhão de reais em abastecimento e a eliminação da emissão de 2.000 toneladas de gases poluentes. Apesar do alto investimento inicial, Laura destacou que o conforto e a aceitação pelos usuários — que relatam sentir-se “flutuando em uma nave espacial” — e a economia operacional de longo prazo justificam a aposta.

Patricia Martínez, da agência de planejamento IMEPLAN de Guadalajara (México)
Patricia Martínez, da agência de planejamento IMEPLAN de Guadalajara (México)

Encerrando as apresentações, Patricia Martínez, da agência de planejamento IMEPLAN de Guadalajara (México), focou no princípio de que o sistema deve funcionar para todos, com ênfase na perspectiva de gênero. Ela mostrou que, na região metropolitana, 55% das viagens de transporte público são realizadas por mulheres, geralmente ligadas a atividades de cuidado (levar filhos à escola, acompanhar familiares em consultas). Para responder a essa realidade, a cidade desenvolveu um programa de subsídio direcionado a mulheres chefes de família, garantindo passagens diárias que podem ser utilizadas também pelos filhos.

Guadalajara também implementou programas como o “Conductoras”, que capacita mulheres a se tornarem motoristas de ônibus, oferecendo bolsa-auxílio durante o treinamento e exigindo que as concessionárias privadas adaptem seus ambientes de trabalho com infraestrutura adequada (vestiários, banheiros e, futuramente, creches).

Por fim, a especialista destacou a importância de projetos-piloto e do planejamento integrado, onde os instrumentos de ordenamento territorial dialogam com as políticas de mobilidade para garantir que as intervenções, como a implantação de corredores de BRT (Bus Rapid Transit), incluam elementos como iluminação, acessibilidade e infraestrutura cicloviária.

Conclusão

Ao final, os painelistas concordaram que, embora os desafios financeiros e políticos sejam significativos, o caminho para um transporte público de qualidade começa com passos concretos e planejados. A recomendação unânime foi começar com projetos-piloto, monitorar os resultados de perto e usar os dados obtidos para refinar estratégias e convencer os tomadores de decisão.

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