A paisagem do transporte público e rodoviário brasileiro está no centro de uma revolução silenciosa, mas de impacto profundo. A ZF, gigante global da tecnologia automotiva, tem atuado como uma das principais arquitetas dessa transformação, não apenas fornecendo componentes, mas moldando ativamente o futuro da mobilidade sobre rodas no país. Em uma conversa exclusiva, Flávio Grippe, gerente Sênior de Vendas e Regional Líder de Produto da ZF América do Sul, detalhou as estratégias e inovações que posicionam a empresa na vanguarda de um setor em ebulição.
Um dos movimentos mais significativos da ZF é a internalização da produção de componentes estratégicos, um pilar da estratégia de localização que responde às demandas do mercado e da legislação brasileira. A produção local de módulos eletrônicos de freio (ECU) na unidade de Limeira (SP) é um exemplo claro dessa diretriz. “A competitividade é obviamente super importante. Isso está dentro da estratégia de localização. E não só a competitividade do nosso produto, mas também do nosso cliente”, explica Grippe.
Segundo o executivo, a montadora busca por localização, até por questões de financiamentos, e essa iniciativa, que abrange veículos a partir de 6 toneladas, visa suportar o cliente final. O ganho de competitividade é duplo: a ZF otimiza sua cadeia logística e ganha flexibilidade, enquanto suas clientes, as montadoras, aumentam o conteúdo local de seus veículos, um fator crucial para se enquadrar nas regras de financiamento como o Finame.
A eletrônica embarcada nos veículos comerciais é um campo de batalha cada vez mais decisivo, especialmente com a chegada de novas regulamentações. A partir de janeiro de 2025, o controle eletrônico de estabilidade (ESC) tornou-se obrigatório para caminhões, ônibus e implementos rodoviários fabricados no Brasil.
A ZF, com sua unidade de Limeira que já produziu mais de 8 milhões de módulos eletrônicos para sistemas de freio, direção e airbags desde 2013, está perfeitamente posicionada para atender a essa demanda. “A ZF, por ser uma empresa global e atuar em todos esses mercados, acaba tendo uma vantagem de conseguir acompanhar todas essas necessidades de tecnologias para atender novas legislações”, destaca Grippe. A empresa participa ativamente de fóruns e comitês técnicos, garantindo que seus produtos estejam sempre na vanguarda, antecipando a “escalada da legislação em termos de segurança e eficiência”.
Produtos
No segmento de ônibus rodoviários, a transmissão automatizada TraXon, que já equipa modelos da linha O500 da Mercedes-Benz, é um exemplo de tecnologia consagrada que chega ao mercado brasileiro com virtudes específicas. “A TraXon é uma transmissão já consagrada, ela tem uma aplicação bastante ampla do lado dos caminhões e também aplicação ônibus”, afirma Grippe, ressaltando seus benefícios para o transporte interestadual de passageiros. A caixa se destaca pelo baixo índice de manutenção e pelo conforto que proporciona tanto ao motorista quanto aos passageiros, além de oferecer recursos de conectividade, uma demanda crescente no setor. A engenharia brasileira da ZF teve um papel crucial nesse processo, sendo responsável pela calibração e personalização dos softwares que controlam essas transmissões, consolidando-se como referência mundial em customização.
A eletromobilidade, embora ainda mais focada no ambiente urbano, é outra fronteira que a ZF está conquistando com tecnologia de ponta. Para além dos componentes convencionais, como amortecedores e sistemas de freio que também equipam os veículos elétricos, a empresa desenvolveu soluções específicas para essa nova geração. O CeTrax, um motor central elétrico, e o AxTrax AVE, um eixo elétrico com motores integrados, são exemplos desse portfólio. Um dos desafios singulares dos ônibus elétricos é o ruído. Com a eliminação do motor a diesel, o compressor de ar, outrora mascarado, torna-se a principal fonte de ruído. A ZF respondeu a essa “dor” com o e-comp Scroll, um compressor de ar elétrico e livre de óleo que opera com níveis de ruído excepcionalmente baixos, em torno de 67 dB(A), e com baixa vibração. Grippe explica que esses produtos “atingem necessidades diferentes desse mercado que está numa transformação tão grande”, abordando tanto a segurança e a inteligência do veículo quanto as necessidades acústicas impostas pela nova tecnologia de trem de força.
A inteligência veicular é, de fato, o fio condutor de várias inovações da ZF. O City Bus Assist, um sistema em fase de conceito, automatiza a aproximação dos ônibus aos pontos de parada, auxiliando o motorista com precisão para encostar na guia. Simultaneamente, o sistema integra o controle de ajoelhamento da suspensão, reduzindo o vão entre o veículo e a calçada para melhorar o acesso dos passageiros. “A gente vai ver cada vez mais veículos inteligentes. E o Bus Assist é mais uma função que vai nessa direção de veículos inteligentes”, comenta Grippe, destacando seu papel na prevenção de acidentes e na preservação da infraestrutura.
Essa inteligência se estende à gestão de frotas com o Bus Connect, a solução de telemetria dedicada da ZF para ônibus. A plataforma transforma dados brutos em insights acionáveis, conectando múltiplos domínios do veículo, como trem de força, freios e sistemas auxiliares. Para o operador de frota, isso se traduz em previsibilidade. “Ela consegue prever manutenções e com isso você aumenta a disponibilidade do seu veículo, assim como consegue planejar a manutenção sem correr o risco de uma manutenção inesperada”, detalha Grippe, mencionando a redução de custos e a possibilidade de otimizar rotas com base em dados de localização e inteligência analítica.
Por trás de toda essa conectividade e inteligência, está o conceito de “veículo definido por software“, uma tendência irreversível na indústria automotiva. A ZF, que além de hardware possui uma linha de negócios dedicada a software, tem um centro de excelência no Brasil: o hub digital em Campinas (SP), inaugurado no final de 2025. “Os engenheiros brasileiros são reconhecidos mundialmente. A gente vê uma busca por desenvolvedores de software global e os brasileiros estão muito bem posicionados nisso”, afirma Grippe. Nesse hub, a equipe local contribui de maneira significativa para o desenvolvimento de softwares utilizados pela ZF em todo o mundo, um testemunho da importância da engenharia brasileira no cenário global de inovação da empresa.
Competitividade global
Esse cenário de inovação acelerada é impulsionado, em grande parte, pela nova dinâmica competitiva introduzida pelas marcas chinesas. Grippe reconhece a mudança: “De fato, alguns anos atrás, a gente já imaginava que os chineses estariam muito bem posicionados. Hoje, é realidade e eles entregam, além de tecnologia, qualidade com bastante rapidez”. Isso cria uma pressão significativa sobre as empresas tradicionais, mas a ZF responde com uma estrutura corporativa que está sendo moldada para atender a essa nova realidade, mantendo-se conectada e ágil, finaliza o gerente Sênior de Vendas e Regional Líder de Produto da ZF América do Sul.












