Melissa Mattedi, da BorgWarner, defende agilidade inspirada na China

Para a executiva, engenharia precisa trocar burocracia por agilidade para ganhar competitividade em mercado que pede avanços constantes

Por Gustavo Queiroz

- agosto 18, 2026

Melissa Mattedi, diretora geral da divisão Turbos & Thermal Technologies (TTD) no Brasil

Em um setor cada vez mais pressionado por regulações ambientais, prazos de desenvolvimento e concorrência global, a engenharia tradicional corre o risco de se tornar um departamento isolado, perdendo a conexão com as demandas reais do mercado e do cliente. Para Melissa Mattedi, diretora-geral da divisão Turbos & Thermal Technologies (TTD) da BorgWarner no Brasil, esse é um dos maiores desafios a serem superados pela indústria automotiva ocidental. Em entrevista à Frota&Cia, a executiva defendeu uma transformação cultural profunda que coloque a engenharia no centro do negócio, aproveitando ferramentas tecnológicas e se inspirando na agilidade do mercado chinês para não ficar para trás.

O ponto de partida da reflexão de Melissa é a necessidade de integrar a engenharia ao dia a dia do negócio, rompendo com a lógica do “silo de jazida”, um departamento que opera de forma isolada, distante dos processos e das necessidades do cliente. “Estamos trazendo essa parte muito técnica para ser uma área mais próxima de processo e do cliente para que a gente consiga, realmente, ter essa parceria”, afirmou.

Para ela, o excesso de burocracia e documentação acaba sufocando o potencial criativo e estratégico dos engenheiros. A automação e a inteligência artificial surgem como aliadas essenciais para liberar tempo e permitir que esses profissionais pensem, desenvolvam e inovem. “É tanta documentação, é tanta regulamentação, é tanta coisa técnica que precisa preparar, preencher, documentar, que às vezes eles ficam tão focados ali dentro da área do departamento preenchendo papel”, observou. “Temos que aproveitar o que temos hoje: combinação de software, combinação de inteligência artificial e combinação de pessoas”, complementou.

A executiva ressaltou que a agilidade nos testes, no desenvolvimento e no design é fundamental, e que as ferramentas disponíveis atualmente permitem acelerar o trabalho de forma significativa. “Não dá mais para a gente continuar fazendo as mesmas coisas que fazia como sempre”, alertou. “Se você tem uma IA, uma base de documentação, uma base única de desenho, é muito mais fácil acelerar o trabalho, porque ficar preenchendo aquele monte de coisa gasta muito tempo”, exemplificou.

O exemplo chinês e a necessidade de agilidade

Melissa Mattedi, diretora geral da divisão Turbos & Thermal Technologies (TTD) no Brasil
Melissa: A BorgWarner está evoluindo para acompanhar a demanda pelas inovações | Foto: GQ/Frota&Cia

A comparação com a indústria chinesa foi um dos pontos centrais da entrevista. Questionada sobre a característica dos fabricantes chineses que estão ganhando mercado não apenas pelo preço competitivo, mas principalmente pela agilidade e capacidades de decisão e de investimentos, Melissa ilustrou essa diferença com um exemplo concreto: enquanto montadoras tradicionais impõem uma “lista pétrea” de especificações técnicas — definindo materiais, pesos e composição dos componentes —, os chineses adotam uma abordagem radicalmente diferente. “Eu perguntei: qual é a sua lista pétrea? A resposta foi: ‘vocês são os donos do produto, faz você a lista pétrea. Eu só quero a lista que funciona. Eu não vou te dar uma receita para você seguir exatamente o que eu preciso’”, contou sobre a resposta de um parceiro chinês.

Essa autonomia concedida ao fornecedor acelera o desenvolvimento, pois a BorgWarner pode utilizar materiais e soluções já pré-definidos e testados, sem precisar se adaptar a especificações restritivas. A mesma lógica se aplica aos testes, pois enquanto montadoras ocidentais costumam ditar quais ensaios devem ser realizados, o cliente chinês confia nos processos e sistemas já validados. “Isso me agiliza para fazer as coisas mais rápidas”, resumiu a executiva.

Gestão de risco e a cultura do “falhar rápido”

A diferença cultural mais significativa, segundo a diretora, está na gestão de risco. “A grande diferença é gerenciamento de risco e autonomia para gerenciar esse risco”, explicou. “Se o risco é baixo, eles têm muito mais autonomia para poder interferir e mexer num produto e propor uma coisa diferente. Coisa que eu vejo que do nosso lado aqui mais ocidental, a gente tem menos autonomia, a gente tem mais controle sobre isso”, complementou.

Ela destacou que esse gerenciamento de risco distribuído está presente em várias camadas da engenharia, não apenas na gestão, e permite uma tomada de decisão muito mais rápida. “Risco baixo é custo baixo, faz. Você já desenvolveu, já testou, você entende do produto, dificilmente dá errado”, disse, descrevendo a mentalidade que a equipe BorgWarner tem observado nas trocas de conhecimento com engenheiros chineses.

A cultura do “falhar rápido” é outro pilar desse modelo. “Eles avaliam o risco, tomam as decisões e fazem. Se errar, é melhor falhar logo do que deixar para falhar. Errou, conserta, acerta, consertou, vai, faz um novo. Com isso, eles ganham muita agilidade”, afirmou. Ela revelou que a BorgWarner tem acompanhado desenvolvimentos na China realizados em menos da metade do tempo do que seria habitual na Europa, nos Estados Unidos ou na América do Sul.

Um tsunami que exige transformação

Para Melissa, a velocidade de inovação chinesa é um verdadeiro “tsunami” que a indústria ocidental não pode ignorar. “Se não absorver um negócio desse, a indústria ocidental acaba. Fica para trás, porque a velocidade de inovação deles é muito rápida”, alertou. “A gente tem que se transformar e a gente tem que aprender. A gente pode olhar do ponto de vista catástrofe e a gente pode olhar do ponto de vista da apreensão da oportunidade”, mostrou o caminho.

Ela enfatizou que a mudança não é apenas tecnológica, mas cultural. “É uma questão de modo de trabalhar e raciocínio. A gente sempre teve muito tempo para fazer tudo. Os investimentos são lentos, tudo que a gente investe aqui é para durar muito tempo”, comparou. “Lá, o cliente bate na porta de três em três meses perguntando: ‘O que que você vai fazer de diferente agora?’

Aprendizado global e protagonismo da engenharia

A BorgWarner, segundo Melissa, tem fomentado ativamente essa troca de experiências entre regiões. A empresa promove workshops com equipes da China, e a executiva já enviou três turmas de engenheiros brasileiros para conhecer de perto os processos e a cultura de trabalho do país. “Temos que aprender com eles. Eu sei que eles têm muito mais tecnologia, eu sei que eles têm muito mais engenheiros, mas tem alguma coisa de processo que eles fazem que a gente tem que passar a fazer, que não é uma questão de tecnologia”, afirmou.

A visão da companhia, segundo ela, reforça essa abordagem: “O que uma região consegue aprender com a outra? Temos que aproveitar o fato de sermos uma companhia global para trocar essas experiências. Não existe só uma receita do bolo.” A executiva destacou que a empresa não tem restrições quanto à origem das boas ideias. “Se for bom e vem da companhia, bora fazer”, confirmou.

No centro dessa transformação está o protagonismo da engenharia. Melissa defende que a área técnica assuma o papel de “dona da tecnologia” e proponha soluções com base em seu conhecimento, em vez de seguir passivamente receitas impostas pelos clientes. “Temos que ter esse protagonismo”, concluiu.

A entrevista revela uma executiva ciente dos desafios impostos pela nova dinâmica do setor, mas otimista quanto à capacidade de adaptação da indústria brasileira e da BorgWarner. A chave, para ela, está em combinar o melhor da tecnologia com uma mudança cultural que valorize a agilidade, a autonomia e o aprendizado contínuo.

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