Quando se fala em marcas chinesas no Brasil, o brasileiro costuma se lembrar primeiro de BYD ou GWM. Mas há um novo protagonista desembarcando no país com um foco muito específico e uma retaguarda igualmente imponente. A Farizon, divisão de veículos comerciais elétricos do Grupo Geely, chegou ao Brasil no início de 2026 com uma ambição declarada: tornar-se a primeira ou segunda colocada no segmento de comerciais leves eletrificados. E os primeiros resultados já apareceram: no primeiro semestre de 2026, a marca liderou o mercado brasileiro de comerciais leves 100% elétricos, com 28,08% de participação.
Para entender a Farizon, é preciso olhar primeiro para quem a criou. O Zhejiang Geely Holding Group é um dos maiores conglomerados automotivos do planeta. Fundado em 1986 por Li Shufu como uma fabricante de peças de refrigerador, o grupo migrou para motocicletas em 1994 e para automóveis em 1997. Hoje, controla marcas como Volvo Cars, Polestar, Lotus, Smart (em joint venture com a Mercedes-Benz), Zeekr, Lynk & Co, Proton e London Electric Vehicle Company. Em 2025, produziu 4,1 milhões de veículos globalmente, dos quais 2,3 milhões eram elétricos ou híbridos plug-in, e faturou US$ 50,9 bilhões. Ocupa a posição 225 no ranking Fortune Global 500 e foi a segunda montadora que mais vendeu veículos eletrificados no mundo em 2025, atrás apenas da BYD, com 2,2 milhões de unidades.

A China como vitrine
Em menos de dez anos, a Farizon tornou-se líder do mercado chinês de veículos comerciais elétricos, com aproximadamente 22% de participação. Em 2024, foi a primeira fabricante do mundo a ultrapassar a marca de 500 mil veículos comerciais elétricos produzidos. Para 2026, a projeção é de 150 mil unidades. Tamanha produção também entrega um volume massivo de dados sobre desempenho, confiabilidade e manutenção em diferentes aplicações.
A China, vale lembrar, está em um estágio muito mais avançado de eletrificação. Nos automóveis, os elétricos já representam entre 30% e 40% do mercado. No transporte urbano por ônibus, a adoção se aproxima de 100%. E agora o processo avança com força sobre os veículos comerciais: justamente o território da Farizon.
Outro diferencial é o acesso ao ecossistema tecnológico do Grupo Geely. Na China, os veículos do grupo podem ser monitorados por uma rede própria de aproximadamente 60 satélites, usada para acompanhamento de operações, manutenção, conectividade e atualizações remotas de software.
Chegada ao Brasil
A operação brasileira começou a ser estruturada em agosto de 2025, sob a representação do Grupo Timber. A estratégia foi incomum: antes de vender um único veículo, a empresa montou estoque de peças, treinou equipes, homologou os produtos e preparou a estrutura de pós-venda.
“A decisão partiu do entendimento de que, no segmento de comerciais elétricos, não é suficiente apenas disponibilizar o produto: é necessário garantir peças, assistência técnica, infraestrutura de recarga e capacidade de orientar o cliente sobre a aplicação mais adequada”, diz Pikussa, que assumiu a operação em janeiro de 2026.
As primeiras entregas ocorreram em fevereiro. O portfólio inicial tem três modelos. A porta de entrada é a van V6E (R$ 260 mil), com motor elétrico de 136 cv, 6 m³ de volume de carga, 1.150 kg de capacidade útil e autonomia superior a 200 km, pensada para entregas urbanas e e-commerce, com recarga rápida em cerca de 30 minutos.
Para operações mais exigentes, a SuperVan (R$ 435 mil) oferece versões de 8 m³ e 11 m³, bateria de aproximadamente 82 kWh e autonomia que pode se aproximar de 400 km, combinando rotas urbanas com deslocamentos rodoviários entre municípios. O modelo traz câmeras com visão 360°, piloto automático adaptativo, monitoramento do motorista e alerta de tráfego cruzado.
Completa a linha o caminhão leve H9E (R$ 450 mil), nas versões de 6 e 8 toneladas, com baterias de aproximadamente 107 kWh e autonomia superior a 200 km, voltado à distribuição urbana e regional.
Ecossistema completo
A Farizon não quer ser apenas mais uma importadora. A estratégia comercial se divide em duas frentes: vendas corporativas para grandes locadoras, operadores logísticos e empresas de e-commerce, e varejo por meio de parceiros regionais. Mas, segundo Rodrigo, o que realmente diferencia a abordagem é o modelo de venda consultiva.
“Nosso primeiro desafio é garantir que o veículo esteja corretamente dimensionado para a aplicação. Utilizar uma bateria maior ou um veículo com capacidade acima da necessidade real pode elevar o investimento e comprometer o custo total da operação”, afirma Pikussa. Antes de recomendar um produto, a equipe avalia quilometragem diária, perfil das rotas, carga transportada, tempo disponível para recarga, infraestrutura elétrica existente e rotina dos motoristas.
Para apoiar esse processo, o Grupo Timber estruturou uma área dedicada a carregadores, com soluções que vão de wallboxes a equipamentos rápidos de 40 kW, 80 kW, 120 kW e 160 kW. A proposta é entregar um projeto completo de eletrificação. A Farizon também montou uma estrutura que inclui estoque central de peças em Curitiba, estoques de segurança em regiões como São Paulo e uma operação logística com a China capaz de abastecer componentes em menos de 30 dias.

A equação econômica
Com o imposto de importação a 35%, o preço de aquisição ainda é um ponto de atenção. Mas a Farizon estima que o custo de energia por quilômetro possa ser aproximadamente 70% inferior ao gasto com diesel, enquanto a manutenção pode custar entre 50% e 70% menos. A razão é a diferença no número de peças: um veículo elétrico tem cerca de 200 peças móveis, contra aproximadamente 1.400 de um similar a diesel.
“O desafio atual já não é apenas explicar ao gestor de frota o que é um veículo elétrico. A discussão passou a se concentrar na aplicação correta, no financiamento, na disponibilidade e na demonstração do retorno econômico”, resume Pikussa.
O que vem pela frente
Com operações em mais de 70 países (Reino Unido, Alemanha, França, Portugal e diversos países latinos), a Farizon vê o Brasil como peça-chave na consolidação da marca na América Latina. “O país possui dimensões continentais, uma economia fortemente dependente do transporte rodoviário e uma das maiores estruturas logísticas da região”, justifica o executivo.
A marca já trabalha na ampliação do portfólio local e aposta que a chegada das fabricantes chinesas vai acelerar o desenvolvimento de todo o ecossistema: infraestrutura de recarga, formação técnica, telemetria, gestão de energia, financiamento e definição do valor residual dos veículos.
“Na visão da Farizon, a eletrificação está deixando de ser apenas uma substituição do motor a combustão por uma bateria. Ela modifica a forma como as empresas planejam rotas, utilizam os ativos, acompanham os motoristas, gerenciam a energia e medem a eficiência logística”, conclui Pikussa. A especialista em comerciais elétricos chegou e não veio para fazer testes.









