Em um contexto de pressão crescente sobre os sistemas de mobilidade urbana — marcado pelo aumento das emissões, pela queda no número de passageiros e por lacunas crônicas de financiamento —, o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) promoveu um webinar para lançar oficialmente sua nova publicação: os “Princípios do Transporte Público“. O evento, que contou com a participação de especialistas da Indonésia, Brasil e México, buscou oferecer uma estrutura clara e unificada para definir e construir sistemas de alta qualidade que sirvam verdadeiramente a todos os cidadãos.
A discussão, mediada pela equipe de comunicações globais do ITDP, partiu da premissa de que o transporte público é mais do que veículos em movimento; ele constitui o espaço onde a vida cotidiana acontece, conectando pessoas a empregos, educação, saúde e lazer. Beatriz Rodriguez, gerente de Transporte Público e Eletrificação do ITDP, abriu o debate destacando que, em muitas cidades, o transporte formal e informal representa entre 40% e 70% dos deslocamentos motorizados. No entanto, para que esse serviço seja verdadeiramente eficaz, Rodriguez argumentou que ele precisa se apoiar em três qualidades essenciais, incluindo oferecer um bom serviço (frequente, rápido e confiável), ser zero emissões (com frotas de energia limpa) e funcionar para todos (com acessibilidade universal, tarifas justas e infraestrutura segura).
Cases

A apresentação de Wahyu Setiawan, da TransJakarta (Indonésia), ilustrou como a qualidade do serviço pode ser aprimorada por meio da integração tarifária e institucional. Diante de uma realidade onde a tarifa do ônibus permaneceu congelada por 20 anos por razões políticas, levando a uma taxa de recuperação de custos de apenas 12%, a cidade enfrentava um desafio estrutural.
A solução encontrada foi a criação da PT Jaklingko Indonesia, uma empresa estatal que integra as tarifas de diferentes modais (ônibus, metrô e VLT). Com um sistema de pagamento unificado e um modelo que permite transferências por um período de até três horas pagando-se uma única tarifa reduzida, a cidade conseguiu não apenas melhorar a experiência do usuário, mas também quase triplicar o número de passageiros no período pós-pandemia. Setiawan enfatizou que o subsídio ao transporte público, embora politicamente sensível, gera um efeito multiplicador econômico de três vezes o valor investido, além de proporcionar economia significativa para as famílias de baixa renda.

Do Brasil, Laura Leite, da empresa de transporte público de Cascavel (PR), trouxe uma perspectiva prática sobre a transição para uma frota de emissão zero. Com uma população de cerca de 370 mil habitantes, a cidade incorporou 15 ônibus elétricos à sua frota de 149 veículos. Ela detalhou que o projeto não se limitou à compra dos veículos, que representam 10% da frota total, mas envolveu um investimento holístico, incluindo a construção de uma usina fotovoltaica sobre um antigo aterro sanitário, capaz de gerar energia não apenas para os ônibus, mas também para escolas e unidades de saúde.
Os resultados após um ano de operação demonstraram uma redução de 45% no custo por quilômetro em comparação com os veículos a combustão, uma economia de mais de 1 milhão de reais em abastecimento e a eliminação da emissão de 2.000 toneladas de gases poluentes. Apesar do alto investimento inicial, Laura destacou que o conforto e a aceitação pelos usuários — que relatam sentir-se “flutuando em uma nave espacial” — e a economia operacional de longo prazo justificam a aposta.

Encerrando as apresentações, Patricia Martínez, da agência de planejamento IMEPLAN de Guadalajara (México), focou no princípio de que o sistema deve funcionar para todos, com ênfase na perspectiva de gênero. Ela mostrou que, na região metropolitana, 55% das viagens de transporte público são realizadas por mulheres, geralmente ligadas a atividades de cuidado (levar filhos à escola, acompanhar familiares em consultas). Para responder a essa realidade, a cidade desenvolveu um programa de subsídio direcionado a mulheres chefes de família, garantindo passagens diárias que podem ser utilizadas também pelos filhos.
Guadalajara também implementou programas como o “Conductoras”, que capacita mulheres a se tornarem motoristas de ônibus, oferecendo bolsa-auxílio durante o treinamento e exigindo que as concessionárias privadas adaptem seus ambientes de trabalho com infraestrutura adequada (vestiários, banheiros e, futuramente, creches).
Por fim, a especialista destacou a importância de projetos-piloto e do planejamento integrado, onde os instrumentos de ordenamento territorial dialogam com as políticas de mobilidade para garantir que as intervenções, como a implantação de corredores de BRT (Bus Rapid Transit), incluam elementos como iluminação, acessibilidade e infraestrutura cicloviária.
Conclusão
Ao final, os painelistas concordaram que, embora os desafios financeiros e políticos sejam significativos, o caminho para um transporte público de qualidade começa com passos concretos e planejados. A recomendação unânime foi começar com projetos-piloto, monitorar os resultados de perto e usar os dados obtidos para refinar estratégias e convencer os tomadores de decisão.
