Nova RMTC resolve dilema por frota a biometano

BRT de Goiânia investe em infraestrutura para rodar com 501 ônibus abastecidos com combustível alternativo até 2027

Por Gustavo Queiroz

- abril 1, 2026

O primeiro carregamento de gás foi levado do Paraná para Goiás

Goiânia dá a largada ao transporte público a gás/biometano no Brasil, pois enquanto o país debate o futuro do transporte, a capital do Goiás sai na frente com o recente anúncio de 501 ônibus com motor ciclo Otto para abastecimento com o combustível, além dos modelos elétricos anunciados no começo do ano. Em vez de esperar o mercado se estruturar, a Nova RMTC (Rede Metropolitana de Transportes Coletivos) decidiu produzir o próprio combustível dentro do estado.

O plano ousado, que envolve um consórcio especializado e uma usina própria em Goiás, quebra o velho dilema do “ovo e da galinha” e coloca a cidade no mapa nacional da inovação. Com os primeiros veículos já abastecidos por uma carreta vinda do Paraná enquanto a estrutura definitiva é erguida, a promessa é tirar do papel, até 2027, uma frota com cinco centenas de ônibus que transforma um problema ambiental em solução para os passageiros.

Como resume o diretor-executivo do Consórcio BRT, Laércio Ávila, o remédio para o colapso do setor era amargo, mas a receita encontrada promete curar de uma vez as feridas deixadas pela pandemia e pelo transporte ultrapassado. Ele contextualiza a iniciativa em um cenário mais amplo de recuperação e modernização do sistema de transporte metropolitano.

Laércio Ávila, diretor executivo do Consórcio BRT.
Laércio Ávila, diretor executivo do Consórcio BRT | Foto: Divulgação

Ávila recorda o período crítico da pandemia, quando o setor enfrentou um colapso sem precedentes. “O momento era tão desafiador que o remédio era, ‘além de perder sua demanda, operador, você vai ter que aumentar a sua oferta’. Porque não podemos ter aglomerações, não podemos ter muita gente no transporte público ativo, e o serviço é essencial. Você precisa aumentar a sua oferta.” A saída, segundo ele, veio do alinhamento entre poder público e iniciativa privada, resultando na criação da Nova Rede Metropolitana de Transporte Coletivo (RMTC) e na diretriz de não apenas sobreviver à pandemia, mas reconstruir um sistema de qualidade.

A estrutura de governança criada para viabilizar a transição energética inclui a formação do Consórcio BRT, entidade especializada em gestão de energia e infraestrutura de abastecimento. “Nós recebemos a diretriz de entregar uma frota verde, mas ela não se viabiliza só através dos ônibus. Precisa de infraestrutura, precisa de gestão do uso da energia. O operador não é especialista em gestão de energia elétrica, muito menos em biometano. Vamos criar uma entidade que será especialista nisso“, explica Ávila.

O modelo de financiamento adotado combina diferentes fontes e estruturas. Os veículos adquiridos são cedidos aos operadores mediante contrato de locação, enquanto as infraestruturas de abastecimento – tanto os eletropostos quanto o futuro bioposto – são gerenciadas de forma consorciada, com o Consórcio BRT adquirindo energia e biometano e repassando aos operadores conforme o uso efetivo. Linhas tarifárias específicas foram criadas para viabilizar os investimentos em infraestrutura energética, com caráter temporário vinculado à execução dos projetos.

O bioposto leste, localizado junto ao Terminal Novo Mundo, exemplifica essa abordagem. A estrutura definitiva está em fase de montagem e será entregue até setembro, mas os primeiros abastecimentos já ocorrerão em caráter imediato utilizando uma carreta posicionada no local.

Frota a gás da Nova RMTC
Frota a gás da Nova RMTC | Frota&Cia

Essa aqui já é a primeira carreta de abastecimento dos ônibus. Reforço que o combustível será produzido em Goiás, porque nós já iniciamos a implantação da primeira usina de biometano do estado, na cidade de Guapó, que ficará pronta em 24 meses“, detalha Ávila. Durante o período de construção da usina, o Consórcio BRT adquire biometano ou gás natural de outros estados – a carreta que abastecerá os primeiros veículos, por exemplo, veio do Paraná.

A cadeia produtiva do biometano, ressalta o diretor-executivo, pode ser alimentada por diferentes matérias-primas orgânicas, incluindo resíduos agropecuários, lodo de esgoto ou resíduos sólidos urbanos, por exemplo. No caso da primeira usina em Goiás, a matéria-prima escolhida foi o resíduo urbano.

Quem nasce primeiro?

O dilema clássico que trava o desenvolvimento do mercado de biometano – saber se nasce primeiro o ovo (a produção) ou a galinha (a demanda) – foi resolvido pela decisão de produzir localmente. “Esse dilema foi quebrado com a decisão de implementar uma política que transforma um problema em solução, que é produzir. A gente vai botar o ovo aqui em Goiás“, diz.

A projeção de demanda do Consórcio BRT está alinhada ao cronograma de expansão da frota. Foram adquiridos inicialmente 50.000 m³ de biometano, volume que será ampliado progressivamente. “Vamos começar com os oito veículos, um consumo inicial, duas carretas daquela por dia, uma carreta a cada dois dias mais ou menos. É uma logística um pouco frenética à medida que a gente vai avançando“, admite Ávila. A expectativa é que, até o início de 2027, uma terceira rodada de contratação atenda os 500 veículos previstos.

Patrick Lucas, gestor de Infraestrutura e Manutenção do Consórcio BRT
Patrick Lucas, gestor de Infraestrutura e Manutenção do Consórcio BRT | Foto: Divulgação

Ao ser questionado sobre a posição de Goiânia no cenário nacional de transporte sustentável, Patrick Lucas, gestor de Infraestrutura e Manutenção do Consórcio BRT, ressalta o pioneirismo alcançado. “Goiânia, não só está na vanguarda, como comprova isso que pela primeira vez na história você consegue ter no mesmo estado duas frotas de modais diferentes que nunca foram rodadas, que agora viraram protótipo e agora se transformaram em realidade, que é o elétrico e o biometano. Isso daí é motivo de orgulho, de alegria.”

O cronograma estabelece a entrega dos oito veículos iniciais como a primeira fase de um programa que prevê 101 ônibus a biometano em operação até o final de 2026, com horizonte de expansão para 501 unidades. A infraestrutura de abastecimento definitiva deve estar concluída em setembro deste ano, incluindo o bioposto leste e as adequações necessárias para suportar a demanda crescente.

Os próximos passos, conforme delineado pelo Consórcio BRT, envolvem a solidificação das duas frotas verdes em implantação – elétrica e a biometano – e a extração do máximo desempenho dessas tecnologias nos próximos dois anos. “São frotas novas, que literalmente até um dia desses era um protótipo“, resume Patrick Lucas, capturando a essência de um momento em que o futuro do transporte público coletivo deixa os laboratórios e os projetos-piloto para ganhar as ruas de Goiânia em escala comercial.

O modelo adotado em Goiânia, combinando a expertise do operador, a tecnologia do fabricante, a estruturação financeira adequada e a integração com a cadeia produtiva de combustíveis renováveis, configura-se como um case de referência para outras cidades brasileiras que buscam trilhar o caminho da descarbonização do transporte público. A frase que Patrick Lucas repetiu ao longo da entrevista – sobre transformar problemas em oportunidades – parece sintetizar a abordagem que tem guiado esse processo, pois ao invés de esperar que o mercado de biometano se desenvolva espontaneamente, o Consórcio BRT assumiu a tarefa de criá-lo, investindo em infraestrutura, qualificando profissionais e estabelecendo as bases para que a frota a gás se torne uma realidade duradoura e escalável no sistema de transporte da região metropolitana.

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