A equação geopolítica do risco na logística global

Como a guerra no oriente médio está reescrevendo as regras da logística e do seguro marítimo global

Por Gustavo Queiroz

- março 18, 2026

Imagem meramente ilustrativa

Em um mundo onde as rotas marítimas sempre foram consideradas artérias previsíveis do comércio global, a atual escalada do conflito no Oriente Médio reintroduziu uma variável que os mercados financeiros e securitários temem acima de todas: a imprevisibilidade. Não se trata mais apenas de desviar de uma zona de combate, mas de uma reconfiguração completa da exposição ao risco, que começa nos estreitos do Golfo Pérsico e termina nos balanços das empresas.

Para entender a profundidade dessa transformação, é necessário mergulhar nos bastidores da indústria de riscos corporativos, onde cada rota alterada e cada cláusula suspensa acionam alertas que ressoam em escritórios de São Paulo, Londres e Dubai. A Acrisure Brasil, com sua atuação no segmento de Riscos Corporativos e Transportes, é uma das empresas que está na linha de frente desse monitoramento. Karina Andrade, vice-presidente de Riscos Corporativos da corretora, detalha como o setor está lidando com um cenário onde a palavra “guerra” deixou de ser uma hipótese remota nas apólices para se tornar um fator ativo de desorganização logística.

Karina Andrade, vice presidente de Riscos Corporativos da Acrisure Brasil
Karina Andrade, vice presidente de Riscos Corporativos da Acrisure Brasil | Foto: Divulgação

O primeiro impacto tangível do conflito foi cartográfico. Com o fechamento de passagens estratégicas como o Mar Vermelho e as imediações do Canal de Suez para muitas operadoras, a alternativa tem sido a longa circunavegação da África pelo Cabo da Boa Esperança. O que parece uma simples mudança no mapa, no entanto, é uma transformação profunda na engenharia do seguro.

Na Acrisure, avaliamos que o rezoneamento logístico global não altera apenas a rota, mas a natureza da exposição do risco“, explica Karina Andrade. “O desvio de rotas tradicionais no Oriente Médio para o Cabo da Boa Esperança estende o tempo de viagem e, consequentemente, o período de exposição da carga e do casco, tendo que haver uma reprogramação logística“, complementa.

Essas semanas adicionais no mar não aumentam apenas a conta de combustível, como inflam o período durante o qual a mercadoria e a embarcação estão suscetíveis a avarias de máquinas, intempéries ou erros de navegação. No entanto, o grande divisor de águas no mercado atual não é o risco “comum”, e sim o risco de guerra. Sobre ele, Karina é taxativa: “A cobertura de guerra, até segunda ordem do mercado ressegurador internacional, não é precificável“, explica.

Suspensão da cobertura

Em momentos de paz, o risco de guerra é calculável. Em meio a um conflito ativo com ataques diretos a quaisquer embarcações que tentarem furar o bloqueio no Estreito de Ormuz, ele deixa de ser um risco e passa a ser uma certeza de perda, o que inviabiliza qualquer modelo de precificação tradicional. O mercado segurador reage, então, com sua ferramenta mais drástica, que é a suspensão da cobertura.

Karina esclarece que atos de terrorismo e guerra são tratados de forma distinta, sendo o primeiro geralmente excluído das apólices e o segundo condicionado a regras específicas, como a Cobertura nº 211 (para embarques aquaviários e aéreos), um mecanismo rígido e verticalizado. “Quando a cobertura de guerra é suspensa por decisão dos mercados internacionais, não há possibilidade de reintegração nem de substituição por outra cobertura acessória“, afirma a vice-presidente. Essas decisões, tomadas majoritariamente nos centros resseguradores de Londres (principal mercado global de seguros e resseguros), aplicam-se a todo o mercado. “Não sendo viável a busca por soluções individuais ou condições de precificação diferenciadas“, completa.

Isso não significa, porém, que as embarcações estejam desprotegidas. Um dos grandes desafios do setor é comunicar aos clientes a natureza cirúrgica dessa exclusão. “Quando uma empresa recebe uma comunicação a respeito do cancelamento da cobertura de guerra, é importante ressaltar que demais riscos amparados por coberturas básicas, adicionais e específicas seguem vigentes“, destaca Karina. Ela exemplifica e diz que se um navio sofrer uma quebra de eixo ou encalhar no Oriente Médio sem qualquer agressão bélica, o sinistro pode ser coberto pelas garantias tradicionais da apólice. A exclusão é restrita ao ato direto de guerra, que, uma vez suspenso, “fica integralmente sem efeito, sem qualquer possibilidade de pagamento parcial“.

Volatilidade

Para além do risco geopolítico imediato, há o efeito colateral econômico. A volatilidade cambial e o preço do petróleo, ingredientes clássicos de qualquer crise de grandes proporções, distorcem os custos logísticos de forma global. No Brasil, isso impõe um desafio técnico adicional para a manutenção de apólices adequadas. “Se o custo logístico sobe e o valor das mercadorias transportadas oscila, o ideal é que a apólice acompanhe essa variação“, observa Karina.

Neste caso, a recomendação da Acrisure tem sido por uma revisão constante das importâncias seguradas. Com o valor de reposição dos bens em flutuação, uma apólice desatualizada pode gerar subseguro e levar a recuperações aquém do necessário em caso de sinistro. “Nossa abordagem é técnica, pois realizamos uma análise ampla para estudar a viabilidade de ajuste nas apólices“, explica, lembrando que o seguro de transportes, por ser um risco decorrido (com prêmio calculado após os embarques), exige que qualquer alteração contratual respeite os riscos já em curso.

Cortar custos pode não ser uma boa

Em um ambiente de fretes mais caros e insumos voláteis, a tesoura no orçamento do seguro se torna uma tentação natural para empresas que buscam aliviar o fluxo de caixa. A Acrisure, que monitora um universo de mais de 1.500 clientes corporativos, confirma essa tendência através de sua inteligência de dados. “Esse movimento é bastante esperado em momentos de pressão de custos“, reconhece Karina.

Os pedidos de revisão de limites, elevação de franquias e cortes em coberturas acessórias aumentam. O paradoxo, porém, é que os dados também mostram que, em contextos de maior estresse logístico, a probabilidade e o impacto dos sinistros crescem. “Por isso, mais do que simplesmente reduzir custos, o ideal é fazer um ajuste mais estratégico“, aconselha a executiva. O uso de inteligência de dados, nesse caso, serve justamente para calibrar a decisão, simulando cenários e mostrar o risco real de uma economia que pode se revelar ilusória diante de um prejuízo maior.

Reconfiguração da proteção

Olhando para o futuro, a perspectiva de um conflito prolongado ou escalado obriga o setor logístico a se preparar para gargalos estruturais. Estreitos como o de Ormuz e o Canal de Suez permanecem como pontos cegos no radar. A tendência é de um mercado segurador ainda mais restritivo, com capacidade reduzida e condições rigorosas para operações próximas a zonas de risco.

Nesse ambiente, Karina Andrade projeta uma mudança na demanda por produtos securitários e ferramentas como o seguro de crédito e o seguro garantia devem ganhar tração. “Eles oferecem proteção contra inadimplência e riscos políticos, além de viabilizarem transações em um ambiente mais incerto“, afirma.

A mensagem final da especialista é de que a tecnologia e a análise geopolítica são as novas bússolas do setor. A inteligência de dados, hoje, permite à Acrisure não apenas reagir aos eventos, mas simular cenários e antecipar necessidades. O objetivo é evitar que as empresas, em busca de proteger o caixa no curto prazo, naveguem cegas em direção a tempestades que poderiam ter sido previstas. No tabuleiro geopolítico atual, onde as rotas mudam e as coberturas são suspensas, a única navegação segura é aquela apoiada na informação mais detalhada e técnica possível.

Compartilhe nas redes sociais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *