A Foton Motor deu um passo estratégico de grandes proporções no mercado brasileiro de veículos comerciais. A montadora apresentou, simultaneamente, sete novos modelos elétricos: o mini truck eWonder, as vans eView Connect, eView Grand e eToano Pro, além da linha de caminhões eAumark nas versões 6 toneladas, 9 toneladas e 12 toneladas. O movimento não se limita a um mero exercício de ampliação de portfólio, marcando uma virada de chave na abordagem comercial da empresa para o segmento de novas energias no país.
Até então, o discurso dominante no setor era o de que veículos elétricos comerciais só faziam sentido para grandes embarcadores/operadores logísticos com metas ESG e acesso a subsídios. Mas, a Foton chega com uma tese diferente, a de que o cliente-alvo não é quem já compra elétrico, mas quem hoje opera com diesel. E para isso, a alavanca não é apenas ambiental, ela é matemática. “Não quisemos comparar com o elétrico da concorrência, mas contra os seus modelos a diesel. É aí que a gente tem que mostrar a viabilidade“, afirmou Audie Carrara, gerente de Marketing da Foton.
Linha eView

A equação começa a fazer sentido quando se examina a tabela. O eWonder, mini truck elétrico com bateria de 41,86 kWh e autonomia de 189 km (ciclo Inmetro), parte de R$ 235.900. A eView Connect, van de 7,2 m³ com 50,23 kWh e alcance de 245 km (WLTP), chega por R$ 259.900. A eView Grand, com bateria de 77,28 kWh e até 303 km de autonomia, tem preço inicial de R$ 299.900. A eToano Pro, maior van da linha com 12,2 m³ de capacidade, parte de R$ 449.900. Os valores, segundo a montadora, posicionam os modelos como os veículos elétricos de menor custo de aquisição em suas respectivas categorias quando considerado o suporte de uma grande marca com rede estabelecida.
As vans, por sua vez, trazem diferenciais operacionais pensados para a realidade logística brasileira. A eView Connect, por exemplo, oferece portas traseiras com abertura de 270 graus e porta lateral com 1,1 metro de vão – suficiente para entrada de pallets. O compartimento de carga tem 7,2 m³ com formato quadrado, maximizando o aproveitamento de caixas e volumes.
Já a eView Grand, disponível em teto baixo (6,8 m³) e teto médio (7,9 m³), traz um detalhe curioso de desenvolvimento de produto: em vez da central multimídia de tela, a versão final adotou rádio convencional. “Em clínicas com clientes de e-commerce, eles apontaram que telas distraem o motorista e são mais caras para reparar. Ouvimos isso e adaptamos“, revelou Carrara.
Caminhões

A linha eAumark merece análise à parte, não apenas pela capacidade de carga, mas pela estratégia de mercado. O modelo 6T opera com PBT de 6.000 kg, bateria de 100 kWh e capacidade útil de 3.330 kg (incluindo carroceria). O 9T, também com 100 kWh, suporta até 5.420 kg de carga útil na versão padrão. Já o 12T eleva a aposta com bateria de 162,28 kWh e capacidade útil superior a 7.200 kg. Em todos os casos, a Foton adotou células LFP (Lítio Ferro Fosfato) da CATL, priorizando ciclos de vida longos e estabilidade térmica em detrimento da densidade energética máxima – uma escolha alinhada à aplicação comercial urbana e regional.
Um detalhe técnico relevante está na arquitetura de integração da bateria. Nos modelos 6T e 9T, o pack foi posicionado centralmente no chassi, facilitando a implementação de carrocerias e evitando interferências com tomadas de força ou equipamentos auxiliares. A decisão reduz a complexidade para implementadores e mantém a estabilidade veicular.
Para operações que demandam PTO (power take-off), como cestos aéreos ou compactadores de lixo, a Foton disponibiliza suporte técnico especializado, uma vez que a ligação de alta tensão para implementos exige cuidados adicionais em relação ao diesel. “O manual de implementador é mais criterioso. Grandes implementadores já estão acostumados, mas temos engenharia de campo para suportar“, explicou Mauricio Santana, diretor Nacional de Vendas e Pós-Vendas da Foton no Brasil.
Diferentemente dos outros modelos que tiveram seus preços revelados, a chinesa resolveu não abrir o jogo com relação à sua linha de caminhões leves em consonância com a prática do mercado de caminhões. Todavia, para além da questão dos preços de aquisição, a montadora afirma que o payback (retorno sobre investimento) de seus produtos eletrificados é de apenas dois anos e meio, reforçando a lógica do TCO também para frotas eletrificadas.
TCO para bater de frente

Um dos pontos mais debatidos durante o lançamento foi a mudança no papel dos concessionários. A Foton estruturou um programa de cinco etapas para que a rede atue não como vendedora de veículos, mas como “consultora de soluções”. O processo começa com a análise detalhada da operação do cliente, incluindo rotas diárias, janelas de carga, turnos de trabalho e tipo de mercadoria transportada. A partir daí, calcula-se o TCO (Total Cost of Ownership/Custo Total de Propriedade) realista, considerando não apenas aquisição e combustível, mas manutenção, vida útil da bateria e, quando aplicável, incentivos fiscais como isenção de rodízio municipal.
A etapa seguinte envolve infraestrutura de recarga. A montadora optou por não atuar diretamente na instalação, mas firmou parcerias com integradores credenciados para oferecer carregadores homologados.
Durante a apresentação, a equipe destacou um case ilustrativo de um cliente com operação de transbordo que demandava paradas de 40 a 45 minutos para carga e descarga. Orientado a carregar o veículo nessa janela, entre 20% e 80% da bateria (faixa que prolonga a vida útil das células LFP), o operador passou a utilizar o tempo ocioso para recarga, eliminando paradas dedicadas e mantendo a produtividade.
“A grande questão é entender que o veículo elétrico não é para todas as rotas, mas para rotas específicas dentro da frota. Se você tentar substituir um caminhão que faz 700 km diários por um elétrico hoje, não funciona. Mas se mapear as operações de curta distância, última milha ou entregas regionais, o ganho é expressivo“, ponderou Carrara.
Garantias e pós-venda
A Foton estruturou um regime de garantias escalonado por componente e modelo. Para a linha de vans e o eWonder, a garantia completa é de 3 anos ou 100.000 km, enquanto a bateria de alta tensão varia entre 8 anos ou 400.000 km para a eView Connect, 6 anos ou 300.000 km para eView Grand e eToano Pro. Nos caminhões, a garantia da bateria chega a 8 anos ou 400.000 km para as versões 6T e 9T, e 5 anos ou 200.000 km para o 12T. O MSD (Main Switch Disconnect), fusível de alta voltagem, tem cobertura específica em cada modelo.
O suporte pós-venda conta com um centro de distribuição em Itajaí (SC) com mais de 165 mil itens em estoque, e a rede de concessionárias deve chegar a 100 pontos até o final de 2026. A capilaridade, segundo a montadora, é condição necessária para viabilizar a adoção por frotistas que exigem disponibilidade de peças e mão de obra especializada em todo território nacional.
Onde a Foton quer chegar
A montadora chinesa, que acumula 20 anos consecutivos de liderança no mercado de veículos comerciais na China e 14 anos como maior exportadora chinesa do setor, enxerga no Brasil um laboratório para sua estratégia global de descarbonização. A meta corporativa é que 50% da produção seja de novas energias até 2030, com neutralidade de carbono até 2050. Para isso, a empresa mantém joint ventures estratégicas com Cummins, Daimler e ZF, e investe 3,5% da receita em P&D, que envolve um percentual de 35,4% dos trabalhadores da marca.
No mercado brasileiro, o movimento agora é de ocupação de espaços. Com um portfólio que vai do mini truck de 2.550 kg PBT ao caminhão de 11,5 toneladas, a Foton cobre uma faixa de preço que dialoga diretamente com o custo de aquisição de equivalentes a diesel. A aposta é que, com a maturação da infraestrutura de recarga e a consolidação dos modelos de negócio baseados em TCO, a equação penda definitivamente para o lado elétrico.