A escalada do conflito no Oriente Médio elevou a volatilidade no mercado internacional de petróleo e já impacta o preço do diesel no Brasil, aumentando a pressão sobre empresas do transporte rodoviário de cargas. Segundo Kassio Seefeld, CEO da TruckPag, a recente queda do petróleo no mercado internacional pode reduzir a pressão por novos repasses, mas o cenário ainda está longe de uma normalização.
De acordo com o executivo, o barril do petróleo Brent crude oil registrou uma queda significativa nas últimas 48 horas, recuando mais de 27%, após atingir US$119,50 e chegar a cerca de US$86,77. A redução já começa a aparecer nos cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, que aponta que a defasagem do diesel nos polos da Petrobras caiu de 85% para cerca de 60%.
Mesmo assim, o diesel ainda apresenta uma diferença de aproximadamente R$1,94 por litro em relação à paridade internacional.
“O cenário melhorou, mas ainda não está resolvido. A defasagem atual continua muito elevada, cerca de cinco vezes o nível registrado antes do início da guerra”, afirma Seefeld.
Diesel já acumula alta acima de 13%

Segundo o CEO da TruckPag (foto), essa dinâmica ocorre porque postos e distribuidores precisam primeiro vender o combustível comprado anteriormente a preços mais altos antes de aplicar reduções.
“Historicamente, o preço sobe rápido quando o petróleo dispara, mas demora mais para cair quando o mercado internacional recua”, explica. Se o Brent se mantiver próximo aos níveis atuais, a tendência é de diminuição da pressão sobre novos aumentos nas próximas semanas.
Gestão de combustível vira questão de sobrevivência
Para as transportadoras, o momento exige atenção redobrada na gestão de custos, especialmente com combustível — principal despesa operacional do transporte rodoviário.
De acordo com Seefeld, as empresas precisam monitorar o consumo com mais rigor, identificar desperdícios e acompanhar o preço real pago pelo diesel, não apenas valores de referência divulgados em tabelas.
“Em momentos de crise, a gestão de combustível deixa de ser um detalhe operacional e passa a ser um diferencial de sobrevivência”, afirma.
O executivo também destaca que a atual volatilidade expõe um problema estrutural nos contratos de frete no Brasil: a maioria utiliza como referência os preços levantados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Segundo ele, a metodologia da agência considera preços de tabela nos postos e pode não refletir rapidamente as oscilações reais do mercado. Para o executivo, o cenário atual deve estimular uma conversa mais profunda entre transportadores e embarcadores sobre modelos de reajuste de frete baseados em preços efetivamente transacionados, que podem refletir melhor os custos reais do combustível.
Paraná já registra alerta sobre abastecimento
Além da pressão nos preços, há sinais de preocupação com o abastecimento em algumas regiões do país.
No Paraná, o diesel acumulou alta de 14,5% desde 28 de fevereiro, uma das maiores variações do país. Nesta semana, a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP) emitiu um alerta formal sobre risco de falta de combustível em entrepostos do interior.
Para Seefeld, o caso paranaense pode ser apenas um primeiro sinal de um problema mais amplo.
Estados das regiões Norte e Nordeste também registram aumentos expressivos no preço real do diesel, incluindo Tocantins, Pernambuco, Pará, Ceará, Bahia e Maranhão, todos com variações superiores a 14%. Regiões mais distantes das refinarias e com maior dependência de diesel importado tendem a sentir primeiro os efeitos da escassez.
Importações são chave para evitar crise maior
A queda recente do Brent pode abrir uma janela para retomada das importações e recomposição dos estoques de diesel no país. No entanto, se o conflito no Oriente Médio se intensificar antes dessa normalização, o Brasil pode enfrentar um cenário crítico de abastecimento.
“Se o conflito escalar antes da recomposição dos estoques, o país pode enfrentar sua maior crise de abastecimento de diesel desde a Greve dos Caminhoneiros no Brasil em 2018”, alerta o executivo.
Segundo ele, o comportamento dos preços e o nível dos estoques nas próximas semanas serão decisivos para determinar se o país atravessará esse período de volatilidade ou se enfrentará uma crise mais profunda no abastecimento.
