A Ford Motor Company está aplicando princípios e tecnologias oriundos da Fórmula 1 no desenvolvimento de sua futura picape média elétrica, o primeiro modelo a ser construído sobre a nova Plataforma Universal de Veículos Elétricos da marca. O processo de engenharia, que visa otimizar a eficiência energética e a autonomia do veículo, adota o conceito de “falhar rápido, aprender mais rápido” como filosofia central, aliado a um rigoroso trabalho de aerodinâmica conduzido por especialistas com trajetória nas pistas.
A estratégia de desenvolvimento representa uma inversão do processo tradicional da indústria. Em vez de utilizar túneis de vento apenas na fase final para validação de um design já definido, a equipe de engenharia empregou essas instalações como uma ferramenta de desenvolvimento desde as fases iniciais do projeto. Mais da metade da equipe de aerodinâmica da Ford é proveniente da Fórmula 1, trazendo uma cultura de obsessão por detalhes mínimos e otimização contínua.
Para viabilizar esse processo acelerado, a construção dos veículos de teste adotou um sistema modular semelhante a um “Lego”, permitindo a troca rápida de componentes como protetores de chassi, grade dianteira e elementos da suspensão. Essas peças, produzidas por meio de impressão 3D e usinagem de precisão, puderam ser testadas em túnel de vento antes mesmo de existirem como protótipos funcionais completos.
De acordo com Saleem Merkt, gerente sênior de Aerodinâmica Avançada de Veículos Elétricos da Ford, a alta precisão dimensional dessas peças permitiu uma correlação mais profunda entre as simulações digitais e os resultados físicos, gerando dados cruciais sobre o impacto de cada alteração nas forças aerodinâmicas verticais, longitudinais e laterais, e, consequentemente, na autonomia real do veículo.

Paralelamente à experimentação física, a Ford reformulou seu conjunto de ferramentas digitais aerodinâmicas para processar o fluxo massivo de dados dos sensores. O sistema foi configurado para fornecer visualizações e informações em tempo real para toda a equipe durante os testes no túnel de vento, permitindo a comparação imediata com as simulações. Essa infraestrutura digital, sem as limitações regulatórias de processamento impostas à Fórmula 1, estabelece as bases para o futuro do design orientado por inteligência artificial (IA), permitindo à engenharia identificar com precisão as modificações com maior impacto no custo da bateria e na autonomia.
A aplicação prática dessa metodologia resultou em inivações técnicas específicas para o desafio aerodinâmico de uma picape. A linha do teto, por exemplo, foi meticulosamente esculpida para criar um perfil de “gota” que se estende sobre a caçamba, formando uma “superfície virtual”. Essa concepção permite que o fluxo de ar contorne a abertura da caçamba, tratando a silhueta do veículo como um corpo mais aerodinâmico. Em outro caso, a simplificação de um componente crítico gerou ganhos, como no caso das funções de ajuste do vidro e rebatimento elétrico dos espelhos que foram fundidas em um único atuador, reduzindo o volume total do componente em mais de 20% e permitindo um formato mais aerodinâmico. Esse detalhe, isoladamente, adiciona cerca de 2,4 km à autonomia estimada.
O tratamento do assoalho do veículo seguiu a filosofia de um carro de corrida. Considerado tipicamente um ponto crítico para a turbulência, o fundo da picape foi projetado com parafusos embutidos e um chassi que direciona o ar ao redor dos pneus dianteiros e da suspensão. A engenharia buscou gerenciar a turbulência gerada pelos pneus, canalizando o fluxo de ar dos pneus dianteiros para incidir sobre os traseiros. Essa estratégia visa mitigar a criação de uma zona de baixa pressão independente na região dos pneus traseiros, resultando em um ganho adicional estimado em 7,2 km de autonomia.
O resultado integrado desse processo de desenvolvimento, segundo a Ford, é uma melhoria de mais de 15% na eficiência aerodinâmica da nova picape média elétrica em comparação com as concorrentes atuais. A empresa projeta que, se equipada com a mesma bateria de uma picape a gasolina com a aerodinâmica mais eficiente disponível atualmente nos Estados Unidos, o novo modelo elétrico alcançaria aproximadamente 80 km a mais de autonomia, com um ganho de 30% na eficiência em velocidades de estrada. Atualmente, o veículo se encontra agora em fase de testes em pistas e vias públicas para validação final dos parâmetros antes do início da produção.
