Combustível drop-in também está na rota da transição energética

Tecnologia de ponta que injeta óleo vegetal no refino do petróleo gera um diesel renovável e idêntico ao fóssil

Por Gustavo Queiroz

- fevereiro 10, 2026

Petrobras biorrefino

A transição energética no setor de transportes pesados e de carga, historicamente dependente do diesel mineral, exige soluções tecnológicas que conciliem a redução imediata das emissões de gases de efeito estufa (GEE) com a compatibilidade integral com a infraestrutura e a frota motriz existente. Neste contexto, o coprocessamento emerge como uma tecnologia de biorrefino de relevância estratégica, posicionando-se como uma via de descarbonização gradual e pragmática. A Petrobras, em linha com seu Plano de Negócios 2026-2030, que prevê investimentos da ordem de US$ 1,5 bilhão em biorrefino, está implementando o combustível drop-in em escala industrial, com foco direto no mercado de diesel rodoviário.

Tecnicamente, o coprocessamento consiste na co-alimentação e processamento conjunto de fluxos de petróleo e matérias-primas renováveis – como óleos vegetais (soja, em predominância), gorduras animais ou resíduos lipídicos – dentro das mesmas unidades de hidrotratamento (HDT) de uma refinaria convencional. O processo ocorre sob condições severas de temperatura e pressão, na presença de catalisadores e hidrogênio. Neste ambiente, tanto as moléculas do óleo diesel mineral quanto os triglicerídeos e ácidos graxos das fontes renováveis são desoxigenados, isomerizados e craqueados, resultando em uma cadeia hidrocarbônica linear e ramificada indistinguível, em sua composição química final, daquela derivada exclusivamente do petróleo.

O produto resultante é classificado como um combustível “drop-in”. Esta denominação indica que ele é quimicamente idêntico ao diesel fóssil, atendendo integralmente às especificações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)em particular à do diesel S-10 (teor máximo de 10 ppm de enxofre). Consequentemente, sua utilização não requer qualquer adaptação em motores ciclo Diesel, sistemas de injeção, tanques de armazenamento ou logística de distribuição, eliminando barreiras críticas para adoção em larga escala.

Para o mercado rodoviário, a principal manifestação desta tecnologia é o Diesel R (Renovável). Atualmente, a Petrobras o comercializa em blends (misturas) que variam de 5% a 10% de conteúdo renovável (denominados R5 e R10). A parcela renovável, por ser de origem biogênica, apresenta um balanço de carbono significativamente mais favorável. Durante sua fase de crescimento, a biomassa (como a soja) absorve CO₂ da atmosfera, que é parcialmente reemitido na combustão do combustível final. Este ciclo resulta em uma redução de até 90% nas emissões líquidas de GEE na fração renovável, quando comparada ao diesel fóssil equivalente. Em termos do produto comercializado (blend R10, por exemplo), a redução total do ciclo de vida é proporcional, contribuindo diretamente para a diminuição da intensidade de carbono da matriz de transportes.

Um diferencial crucial do Diesel R em relação ao biodiesel convencional (éster metílico de ácido graxo – FAME, conforme especificação ANP B100) é o processo de hidrotratamento. Enquanto o FAME é produzido por transesterificação e mantém grupos oxigenados em sua molécula – o que pode levar a desafios como maior higroscopicidade, instabilidade oxidativa e potenciais incompatibilidades com alguns materiais –, o diesel coprocessado é completamente desoxigenado. Isto confere ao produto final uma estabilidade química superior, maior resistência à degradação microbiana, menor risco de formação de borras e compatibilidade total com os elastômeros e metais presentes nos sistemas de combustão modernos. O resultado é um combustível que oferece os benefícios ambientais do renovável, mas com as características de performance e confiabilidade do diesel mineral de alta qualidade.

Diesel Premium

A linha Diesel Petrobras Podium, um combustível premium com aditivos de última geração para desempenho e limpeza do sistema de injeção, também incorpora a tecnologia. Sua formulação atual integra 5% de conteúdo renovável via coprocessamento. Este incremento gera uma redução aproximada de 3% nas emissões de GEE do ciclo de vida total do produto, mantendo todas as propriedades de fluxo a frio, número de cetano e poder calorífico do diesel S-10 mineral de alto padrão. Sua produção ocorre na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão (SP), demonstrando a integração da tecnologia em unidades industriais de grande porte.

A aposta da Petrobras no coprocessamento reflete uma estratégia dual: acelerar a descarbonização do setor de transporte rodoviário no curto e médio prazos, aproveitando a infraestrutura de refino e distribuição já consolidada; e, paralelamente, desenvolver competências em biorrefino que possam ser escaladas no futuro. A tecnologia serve como um vetor de transição energética justa, ao minimizar custos de transição para frotistas e transportadores, e de segurança energética, ao diversificar as fontes de matéria-prima para a produção de combustíveis críticos para a economia nacional. De acordo com a empresa, a meta é oferecer um produto de baixo carbono robusto e tecnicamente avançado para o coração logístico do país.

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