A Volkswagen AG apresentou ao conselho fiscal, em reunião realizada na última quinta-feira (09/07), um pacote abrangente de medidas que compõem seu “plano futuro” para a próxima fase de transformação da empresa. O plano prevê a redução gradual do portfólio de modelos em até 50%, com foco nos segmentos de mercado mais atrativos, e a diminuição da complexidade de oferta, incluindo opções de equipamento, em até 75%.
A iniciativa ocorre em um momento de pressão crescente sobre o maior fabricante de automóveis da Europa. O CEO Oliver Blume busca convencer o conselho sobre a necessidade de cortes profundos, que poderiam eliminar até 100 mil empregos e fechar quatro fábricas na Alemanha. A reunião, no entanto, terminou sem um acordo sobre as reduções mais severas na força de trabalho.
Ajuste de capacidade e foco no negócio automotivo
A Volkswagen ajustará sua capacidade técnica global para cerca de 9 milhões de veículos por ano, em resposta às mudanças no ambiente de mercado e ao aumento da concorrência. Antes da pandemia de Covid-19, a empresa havia investido para uma capacidade de aproximadamente 12 milhões de unidades e já reduziu 2 milhões. Novos cortes devem ocorrer na China e na Europa.
O grupo também concentrará seus campos tecnológicos-chave, incluindo plataformas, arquiteturas eletrônicas e softwares, harmonizando-os para atender aos requisitos dos mercados ocidental e oriental, com o objetivo de eliminar estruturas paralelas e fortalecer a liderança tecnológica.
Desinvestimento e fortalecimento do balanço
Como parte da estratégia de foco no negócio automotivo central, a Volkswagen já iniciou a execução de seu plano com a venda da participação majoritária na Everllence. O acordo, fechado com a Bain Capital no final de junho, prevê a venda de 51% das ações da fabricante de motores a diesel e turbomaquinário por aproximadamente €7,4 bilhões. A empresa manterá uma participação de 49% no médio prazo. “Sem uma reestruturação decisiva, a Volkswagen corre o risco de sofrer um declínio gradual“, afirmou Tanja Bauer, especialista em sustentabilidade e governança corporativa da Deka Investment, uma das maiores gestoras de fundos da Alemanha.
Desafios globais e concorrência na China
O plano futuro chega em meio a um ambiente global desafiador, com tensões geopolíticas, aumento de custos impulsionado por tarifas, requisitos regulatórios crescentes e concorrência acirrada. A Volkswagen estima que as tarifas dos EUA impostas há um ano gerem custos adicionais de €4 bilhões anualmente.
A China, tradicional fonte de lucros para a montadora, segue como principal preocupação. No primeiro trimestre de 2026, a Volkswagen recuperou a liderança de mercado no país com participação de 13%, superando a BYD, mas as entregas de veículos elétricos caíram 64% no período. A empresa planeja lançar 13 modelos na China em 2026, incluindo híbridos plug-in e elétricos. “Precisamos mudar fundamentalmente nosso modelo de negócios e alcançar melhorias estruturais e sustentáveis em todas as áreas e em todos os níveis. Se falharmos nisso, colocaremos em risco nosso futuro“, alertou o CFO Arno Antlitz.
O grupo projeta crescimento de vendas entre zero e 3% em 2026, com margem operacional central entre 4% e 5,5%. No primeiro trimestre, o lucro líquido caiu 28%, para €1,56 bilhão.
A Volkswagen oferece atualmente cerca de 150 linhas de modelos em suas marcas, que incluem Porsche, Audi, Skoda e veículos comerciais. O plano de redução do portfólio faz parte de um esforço mais amplo para direcionar investimentos e recursos de desenvolvimento para os produtos e tecnologias que entregam maior valor agregado aos clientes e maior contribuição de valor ao grupo.
Veículos comerciais

A Volkswagen Commercial Vehicles (VW Nutzfahrzeuge) está inserida no Brand Group Core (BGC), o bloco de marcas de volume que inclui também Volkswagen Passenger Cars, Škoda e SEAT/CUPRA. A partir de janeiro de 2026, as funções de Produção, Desenvolvimento Técnico e Compras passaram a ser geridas de forma transversal entre as marcas. O novo modelo de governança prevê a redução de cerca de um terço do número total de membros dos conselhos das quatro marcas até meados de 2026. Só na área de Produção, a reorganização desbloqueia um potencial de economia cumulativa de €1 bilhão até 2030.
A marca mantém uma linha completa de veículos comerciais leves, abrangendo desde as furgonas urbanas Caddy e Caddy Maxi até o Crafter para operações logísticas pesadas, passando pelo Transporter T7 e pela picape Amarok. A linha elétrica inclui o ID. Buzz e ID. Buzz Cargo, este com autonomia de 431 km. Para 2026, a Volkswagen Commercial Vehicles anuncia um amplo pacote de atualizações de produtos e tecnologia, com novas versões e derivados sendo lançados gradualmente. Também está prevista a adição de uma versão de longa distância entre-eixos (LWB) da furgoneta ID. Buzz Cargo.
A Volkswagen Commercial Vehicles encerrou 2025 com receita de €16,9 bilhões. Para 2026, a marca anuncia um programa robusto de atualizações. Já a Traton (Grupo detentor da marca VW) projeta para 2026 uma margem operacional ajustada entre 5,3% e 7,3%, em um cenário de cautela devido às incertezas econômicas em mercados-chave. No primeiro trimestre de 2026, o lucro operacional da Traton caiu para apenas €60 milhões, ante €651 milhões no mesmo período de 2025.
O plano de reestruturação do grupo prevê o fechamento da fábrica de veículos comerciais em Hannover em 2032, após o encerramento das unidades de Zwickau e Emden. A medida, ainda em discussão com o conselho fiscal, faz parte de um esforço mais amplo que pode eliminar até 100 mil postos de trabalho na Alemanha.
