Empresa nascida do spin-off da divisão automotiva da Continental em setembro de 2025 anunciou oficialmente suas operações no país. Com faturamento global de € 18,5 bilhões em seu primeiro ano fiscal e cerca de 82 mil colaboradores em mais de 80 localidades distribuídas por 24 países, a Aumovio herda décadas de conhecimento tecnológico e se posiciona como uma fornecedora independente de sistemas eletrônicos e softwares, bem como produtos e serviços para a mobilidade. O portfólio inclui desde sensores e sistemas de freio até displays, centrais de telemetria, tacógrafos digitais, antenas conectadas e sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS).
A criação da companhia respondeu à aceleração das inovações no setor automotivo global, impulsionadas pela eletrificação, digitalização e pela demanda por arquiteturas definidas por software. De acordo com Ricardo Rodrigues, líder da operação nacional da Aumovio, a separação do grupo Continental foi uma decisão estratégica para ganhar agilidade na tomada de decisões e foco no negócio automotivo.
“Enquanto a maré está tranquila, diferentes unidades conseguem conviver. Mas quando as disrupções aparecem, precisamos de agilidade. Quem não é ágil não sobrevive”, afirmou Rodrigues durante a apresentação. O executivo também revelou que as inovações de mercado se mostraram mais fortes do que o inicialmente previsto, e que, sem o spin-off concretizado em 2025, a operação enfrentaria um cenário significativamente mais desafiador.
A empresa encerrou o ano fiscal de 2025 com free cash flow positivo e projeta para 2026 margem EBIT entre 3,5% e 5% e fluxo de caixa livre três a quatro vezes superior ao do ano anterior.
Impacto na operação brasileira

O Brasil responde atualmente por cerca de 3% do faturamento global da AUMOVIO, que em 2025 totalizou € 18,5 bilhões. A expectativa da companhia é crescer a receita local a uma taxa de 3% a 5% ao ano nos próximos anos, impulsionada pela expansão do aftermarket e pelo aumento do conteúdo eletrônico e conectado nos veículos produzidos no país.
Rodrigues destacou que a operação brasileira já mantém diálogos com três montadoras chinesas que estão iniciando ou ampliando produção local de veículos leves, sinalizando um movimento de reindustrialização. “Ou a gente é flexível e participa, ou a gente fica rígido e desaparece”, afirmou.
Sobre os benefícios da independência da Aumovio, o executivo diz que a agilidade nas decisões tem impacto no planejamento global da marca. “Hoje, todas as nossas plantas respondem diretamente a um membro do conselho executivo. Portanto, o processo de decisão, que antes contava com dois ou três níveis para chegar até o conselho executivo, passou a ser por contato direto. Dessa forma podemos acelerar as estratégias de investimento ou desinvestimento, por exemplo. Assim, nos tornamos muito mais dinâmicos e assertivos”, exemplifica.
Estrutura nacional
No Brasil, a nova marca opera com três plantas industriais e um centro de distribuição. A unidade de Guarulhos (SP) é especializada em componentes eletrônicos, incluindo centrais de controle, painéis de instrumentos analógicos e digitais, displays multimídia e módulos de telemetria, além de abrigar a engenharia de aplicação local.
A fábrica de Várzea Paulista (SP) concentra a produção de sistemas de freio completos, desde componentes mecânicos convencionais até sistemas eletrônicos de estabilidade, e também o armazém com as peças para distribuição que atende todo o território nacional.
Já a planta de Jacutinga (MG) é dedicada a antenas automotivas, incluindo modelos do tipo shark, antenas de aço e componentes internos para conectividade 4G, 5G, GNSS (GPS) e sistemas keyless (sem chave), sendo a única produtora local desse tipo de antena conectada no país. Ao todo, são 1.600 funcionários no Brasil, dos quais mais de 100 atuam em engenharia.
Produtos
O portfólio da Aumovio no país está organizado em quatro grandes frentes. Para veículos leves de passageiros, a companhia oferece sistemas eletrônicos de freio, controles de estabilidade, sensores de impacto, centrais de airbag, além de displays centrais, clusters digitais e head-up displays. No segmento de veículos comerciais, atende caminhões, ônibus e veículos especiais com tacógrafos digitais, painéis de instrumentos (analógicos e digitais), módulos eletrônicos de controle de carroceria, soluções de ADAS e telemetria.
Um dos destaques é o novo tacógrafo digital VDO 2.1, com previsão de lançamento para o início de 2026, que incorpora conectividade Bluetooth e USB, além de proteções técnicas contra escassez de semicondutores. A produção do modelo analógico MTCO foi encerrada no mês passado, após 25 anos e mais de 4,5 milhões de unidades fornecidas.
No aftermarket, a companhia atua com as marcas VDO (linha pesada, incluindo tacógrafos, sensores, e o recém-lançado óleo de motor para diesel) e ATE (freios, componentes hidráulicos, pastilhas, discos, fluidos). O segmento de reposição dobrou de tamanho nos últimos cinco anos, e a meta é triplicar nos próximos três anos, elevando sua participação na receita total do Brasil dos atuais 10% para 20% em cinco anos. Para 2026, o roadmap inclui a ampliação do portfólio ATE com pastilhas, válvulas, sensores ABS e cilindros de embreagem, além de novos itens VDO como bicos injetores, bobinas de ignição e aditivo de radiador.
No campo dos serviços digitais, a Aumovio já ultrapassou a marca de 100 mil veículos conectados no Brasil por meio de soluções de telemetria e rastreamento. A plataforma VDO Onboard integra dados de tacógrafo digital à nuvem, gerando relatórios automáticos de jornada, infrações e desempenho. O serviço VDO FTS Financial Services foi desenhado para instituições financeiras, permitindo rastreamento em tempo real de garantias (de bicicletas a caminhões) com conformidade à LGPD. Já a solução de aferição digital de tacógrafos – atualmente um processo essencialmente manual e burocrático – está em implantação para eliminar papel e reduzir custos da máquina pública. A empresa também oferece o Buscontrol para gestão de transporte fretado corporativo, com roteirização inteligente e check-in por aplicativo.
Na área de antenas, a empresa desenvolve soluções que combinam funções de broadcast (rádio digital, TV, rádio via satélite) com aplicações telemáticas (telefonia, Wi-Fi, Bluetooth, GNSS). A primeira antena com GPS de alta precisão – com raio de acurácia de um metro – está em desenvolvimento para um grande cliente nacional, com início de produção previsto para os próximos meses. As tendências apontadas para o setor incluem a integração de múltiplas funções em módulos telemáticos únicos, a tecnologia de veículo conectado a tudo (C2X), e leitores NFC para acesso e partida via smartphone, alinhados a modelos de carsharing e gestão de frotas.
