Gulf Oil investe na expansão de suas atividades no Brasil

Na maior planta de SP, empresa investe pesado para atender gigantes globais e criar lubrificantes que combatem os efeitos do biodiesel

Por Gustavo Queiroz

- dezembro 22, 2025

Fábrica da Gulf em Iperó

Em um cenário global de transformação energética e pressões por eficiência operacional, a Gulf Oil, marca centenária com 120 anos de história, consolida sua presença no Brasil através de uma aquisição emblemática e uma estratégia técnica singular. Dois anos após a compra da maior planta de lubrificantes do Estado de São Paulo, localizada em Iperó, a empresa navega pelas complexidades do mercado nacional de lubrificantes para veículos pesados, um segmento vital para a infraestrutura logística do país.

A operação brasileira não é apenas uma unidade produtiva; é uma peça estratégica dentro do grupo anglo-indiano Hinduja, um conglomerado que detém, entre outros ativos, a Ashok Leyland, a quarta maior fabricante de ônibus do mundo. Essa conexão corporativa confere à Gulf uma credencial única no universo dos lubrificantes, que é a visão integrada de quem também é montadora.

Renato Mendes, gerente Geral da Gulf Oil
Renato Mendes, gerente Geral da Gulf Oil | Frota&Cia

Minha vocação em diesel, em pesados, ela está dentro da gente, diferente de qualquer outra empresa que fabrica lubrificante. Eu sou de uma montadora. Qual outra montadora que tem marca de lubrificante? Ninguém”, afirma Renato Mendes, gerente Geral da Gulf Oil. “Nós somos uma empresa de lubrificante automotivo, industrial, marítimo, e a marca pertence a uma montadora de pesados. Ninguém tem essa credencial no mundo”. Essa sinergia, ainda não totalmente explorada no mercado brasileiro, conforme admite o executivo, representa um potencial diferencial em desenvolvimento técnico e aprovação de especificações.

A planta de Iperó, atualmente em um processo de reforma e modernização com investimentos superiores a um milhão de dólares apenas em 2025, é o epicentro das operações. Com capacidade de 7 milhões de litros mensais, a unidade opera com sete linhas de produção e 62 tanques de armazenamento, passando por automação e melhorias de layout para ganhar eficiência. “Estamos fazendo investimentos em melhoria da automação das linhas, uma interligação melhor entre os tanques, para tornar o processo produtivo mais eficiente e adequado aos clientes”, explica Mendes. A fábrica tem um caráter dual, uma vez que abastece o mercado sob a marca Gulf e atua como toll blender (produtora por contrato) para outras empresas internacionais, incluindo montadoras japonesas e alemãs. “Para isso, tenho que ter tecnologia que seja adequada ao que ele exige para os motores que eles atendem”, ressalta, evidenciando o nível de exigência técnica da operação.

O foco técnico da conversa com Mendes recai sobre os lubrificantes para veículos pesados, um mercado onde a Gulf lançou o óleo lubrificante Gulf Super Duty CI-4 15W-40 durante o segundo semestre de 2025. A formulação deste produto vai além da lubrificação básica; é uma resposta direta aos desafios impostos pela evolução do combustível no Brasil, especialmente com a adição de biodiesel.

Mendes detalha o cenário: “O B15 (diesel com 15% de biodiesel) entrou agora há pouco e já tem gente reclamando que está gerando mais borra do que foi estudado antes, aumentando a manutenção, aumentando os custos”. O cerne do problema, segundo ele, está na natureza higroscópica do biodiesel, que atrai até 30 vezes mais água que o diesel mineral, promovendo a formação de microrganismos, borra e contaminantes que podem comprometer a performance e a vida útil do motor.

Linha de produção na fábrica da Gulf Oil em Iperó
Linha de produção na fábrica da Gulf Oil em Iperó (SP) | Foto: Divulgação

O lubrificante tem um papel muito importante que é melhorar a performance do motor para que ela não seja tão afetada”, explica Mendes. “O biodiesel tira um pouco da potência, mas com a higroscopia, aumenta a formação de borra, a necessidade de substituição de filtros, a limpeza de motor. E aí o lubrificante tem um papel que é diminuir o ciclo de troca de lubrificante para melhorar o econômico do frotista”, complementa.

A função do produto, portanto, é de detergência e proteção, incluindo reter partículas e contaminantes, controlar a temperatura e manter a performance ao longo de intervalos de troca que podem chegar a 40.000 km, armazenando as impurezas que, de outra forma, seriam liberadas no meio ambiente ou degradariam componentes críticos do motor. A empresa mantém uma equipe de 14 engenheiros e técnicos químicos para monitorar a performance dos motores em uso com B15, antecipando-se às futuras evoluções do combustível, como o B20 e B25 previstos na legislação.

Embora a base do negócio ainda seja o óleo para motores de combustão interna, Mendes demonstra clara consciência da transição energética. Para veículos pesados, ele vê a eletrificação como uma realidade iminente, não distante. “As baterias estão ficando cada vez mais leves, práticas e baratas. Acredito que no nosso mundo de pesados vai haver uma evolução também para eletrificação”, projeta.

Todavia, a adaptação da Gulf, neste caso, se dá pelo deslocamento do foco de óleos motores para fluídos funcionais. “A empresa não é exclusivamente dependente de lubrificante para motor. Produzimos fluidos funcionais e coolants, que são os líquidos de arrefecimento, por exemplo”, afirma. “Bateria é um item que esquenta muito. Para isso, temos coolants, monoetanol glicol para refrigerar a temperatura. Temos, ainda, no portfólio graxa e fluído de freio”. A estratégia é de diversificação dentro do ecossistema do veículo, mitigando a dependência de um único componente.

Vista aérea do complexo industrial da Gulf Oil no interior paulista
Vista aérea do complexo industrial da Gulf Oil no interior paulista | Foto: Divulgação

Dois pilares importantes da operação atual são a economia circular e a logística integrada. Na frente ambiental, a Gulf trabalha com a coleta de 50% do óleo lubrificante usado (conforme exigência legal) e de embalagens plásticas. “Nossas embalagens plásticas já são de oriundas de reciclagem”, destaca Mendes. Um projeto em andamento, ainda em fase de testes e homologação, visa incorporar até 50% de óleo rerrefinado (coletado, tratado e re-aditivado) na composição de novos lubrificantes. “O lubrificante pode ser rerrefinado continuamente. É só uma questão trata-lo”, explica.

Na logística, a empresa opera com controle total sobre o armazenamento, ocupando 80.000 m² em Iperó, divididos entre um setor produtivo e quatro armazéns. “A logística de armazenagem, administração e controle de estoque é toda da Gulf. Não terceirizamos a logística interna”, afirma Mendes. O transporte até os clientes, no entanto, é terceirizado para empresas do setor.

Apesar do portfólio completo para pesados – que inclui, além do óleo para motor, fluidos para transmissão, direção hidráulica, sistemas hidráulicos e graxas –, Mendes reconhece que a Gulf ainda está construindo sua história de casos no Brasil. “Estamos abertos a qualquer empresa que tenha uma frota de transporte para desenvolver um trabalho conjunto de melhoria da eficiência operacional”. Ele sinaliza, porém, que está em tratativas confidenciais com duas montadoras de “linha amarela” (tratores e caminhões) para potenciais parcerias em 2025.

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