Há uma cadência nova nas estradas europeias, um ritmo que não se ouve, mas se mede. A Daimler Truck, por meio da Mercedes-Benz Trucks, consolidou uma liderança que já não depende de projeções ou promessas: cerca de 38% dos caminhões pesados e médios sem emissão de CO₂ vendidos na Europa no primeiro semestre de 2026 carregam a estrela de três pontas. É um número que traduz, em participação de mercado, uma década de investimento obstinado em arquiteturas elétricas e a hidrogênio e que encontra, no eActros 600, sua expressão mais madura.
O carro-chefe elétrico da Companhia não é um exercício de laboratório. Desde seu lançamento comercial, no final de 2024, a frota de clientes do eActros 600 já acumulou mais de 160 milhões de quilômetros percorridos sem emissão de CO₂, dados telemáticos anônimos do serviço TruckLive que revelam algo mais profundo que uma métrica de vaidade: metade de toda a quilometragem diária desses veículos ultrapassa 400 quilômetros, e cerca de 20% supera 600 quilômetros. São distâncias que, até muito recentemente, pertenciam com exclusividade ao diesel.
O eActros 600, em sua configuração mais eficiente energeticamente e com peso bruto total combinado de 40 toneladas, alcança até 560 quilômetros de autonomia — e o faz com um trem de força que combina dois motores elétricos, transmissão de quatro velocidades e uma arquitetura de 800 volts, capaz de recuperar energia por condução preditiva e devolvê-la às baterias.
A engenharia, porém, não se detém no asfalto. Enquanto os caminhões GenH2 movidos a hidrogênio já somam quase 600 mil quilômetros em testes com clientes, a Daimler Truck prepara o salto para a produção em pequena série do NextGenH2, cujo primeiro veículo de uma série de 100 unidades deve entrar em operação junto a clientes até o final do ano. O interesse é eloquente, considerando que quase metade da pequena série já foi alocada, apesar de uma infraestrutura de reabastecimento ainda incipiente. Até o final da década, a Companhia investirá centenas de milhões de euros nessa rota tecnológica, trabalhando em conjunto com empresas líderes dos setores industrial e energético para construir um ecossistema de hidrogênio que seja não apenas potente, mas economicamente viável, sendo que novos detalhes que serão anunciados em 15 de setembro, na IAA Transportation.
eActros Lowliner
É nesse palco que a Mercedes-Benz Trucks expande seu portfólio elétrico com o eActros Lowliner, um cavalo mecânico 4×2 com distância entre eixos de 4.000 mm e cabina de 2,50 metros de largura, projetado para o transporte de alto volume. Sua grande sacada é a integração dos conjuntos de baterias, que permitiu rebaixar a quinta roda e o vão livre em relação ao solo a patamares comparáveis aos dos caminhões a diesel, viabilizando alturas totais de até três metros para cargas volumosas.
Sob o chassi, a tecnologia é a mesma que provou seu valor no eActros 600: eixo de transmissão elétrico com dois motores de 400 kW contínuos e 600 kW de pico, transmissão de quatro velocidades, células de bateria de fosfato de ferro-lítio (LFP) e arquitetura de 800 volts. O eActros 600 Lowliner, com três packs de 207 kWh cada, oferece cerca de 500 quilômetros de autonomia em plena carga; o eActros 400 Lowliner, com dois packs, reduz o peso do veículo e eleva a carga útil máxima para cerca de 24 toneladas, contra aproximadamente 21 toneladas da versão de três baterias. A recarga CCS2 de série, no lado esquerdo, chega a 400 kW — de 10 a 80% em cerca de 46 minutos com dois packs, ou 70 minutos com três —, e a compatibilidade com o Sistema de Recarga Megawatt (MCS) está prevista para o segundo semestre de 2027, quando tempos inferiores a 30 minutos se tornarão realidade.
Segundo a montadora, os caminhões elétricos à bateria já podem ser implantados de forma confiável e econômica em um número crescente de aplicações, mas a ampliação de sua adoção continua significativamente limitada pela expansão da infraestrutura de recarga na Europa e pelo fornecimento insuficiente de energia, especialmente a preços competitivos. A demanda do cliente ainda não se desenvolve no ritmo exigido pelas regulamentações atuais, criando um fosso crescente entre objetivos políticos ambiciosos e condições reais de mercado. Em termos simples: a regulamentação e a realidade não estão alinhadas.
Diesel firme e forte

Enquanto o motor de combustão interna permanece relevante para muitos clientes, a Mercedes-Benz Trucks apresenta, na IAA Transportation 2026, o novo Powerliner, cuja interação entre motor, transmissão e eixo proporciona maior eficiência, maior desempenho e menores custos operacionais.
A empresa também expande seu portfólio de segurança ativa com o Active Cross Traffic Assist e o Active Side Guard Assist 3, que auxiliam os motoristas em situações de trânsito particularmente críticas e estabelecem novos padrões para veículos comerciais pesados. E impulsiona a digitalização com um novo mundo de produtos Fleetboard, a My TruckPoint Store e serviços de conectividade expandidos, criando um ecossistema digital integrado para operações de frota transparentes, previsíveis e eficientes.
Outro foco estratégico é o desenvolvimento de soluções de transporte autônomo em conjunto com a subsidiária Torc, com foco inicial no transporte de longa distância nos Estados Unidos, onde as primeiras operações sem condutor em vias públicas estão programadas para este ano, com aplicações comerciais esperadas para 2027 e dimensionamento a partir de 2028.
Infraestrutura de recarga
A eletrificação, contudo, não se completa sem que a recarga se torne tão fluida quanto abastecer um tanque. Com o TruckCharge, a Daimler Truck oferece consultoria, planejamento, hardware, operações e serviços digitais, apoiando as empresas durante toda a eletrificação de suas frotas e criando um ecossistema integrado que liga veículos, infraestruturas de recarga e operações.
A TruckCharge Network expande o acesso à infraestrutura, incluindo locais semipúblicos operados por empresas e disponibilizados para usuários adicionais. E, com a recarga contínua ativada pelo Autocharge, desenvolvida em conjunto com a joint venture Milence, as sessões podem ser iniciadas e faturadas automaticamente após um processo de instalação único, sem cartão de recarga ou aplicativo: basta conectar o caminhão à estação e a identificação do veículo ocorre automaticamente. Ferramentas digitais como o Fleetboard Charge proporcionam transparência sobre o status de recarga, os processos de carregamento e a prontidão do veículo, apoiando o gerenciamento eficiente na garagem e na rodovia.
O que se desenha, portanto, não é uma transição linear, mas uma convivência técnica sofisticada entre bateria, hidrogênio e combustão, cada qual com sua engenharia, seu custo e sua aplicação. A Daimler Truck não aposta em uma única resposta, mas em um portfólio que reconhece a complexidade do transporte pesado real. Falta, agora, que a infraestrutura e a regulação acompanhem o ritmo que a engenharia já impôs.







