Como a integração hardware-software está redefinindo o veículo

A era do veículo como plataforma, atualizável e eficiente, exige uma nova arquitetura industrial e a Schaeffler consolida sua estratégia nesta direção

Por Gustavo Queiroz

- janeiro 6, 2026

Schaeffler na CES 2026

Em um cenário de transformação profunda na indústria automotiva, a Schaeffler se posiciona não mais como um mero fornecedor de componentes, mas como um arquiteto de sistemas integrados. Durante a CES 2026 (de 6 a 9 de janeiro, em Las Vegas/EUA), a empresa demonstra que o futuro da mobilidade é um ecossistema digital sobre rodas, onde a sinergia entre software, eletrificação e engenharia de precisão cria uma nova lógica para o veículo.

O conceito central desta transformação é o Veículo Definido por Software (Software-Defined Vehicle – SDV). Trata-se de uma mudança de paradigma em que funções antes fixas e mecânicas agora são dinâmicas e controladas por código. O mercado global de SDVs cresce a taxas superiores a 25% ao ano, impulsionando a indústria para além de ciclos de modelo tradicionais. Neste contexto, o software só realiza seu potencial máximo quando em perfeita simbiose com sistemas mecânicos e eletrônicos de alto desempenho, área onde a fabricante concentra sua expertise.

A evolução da Schaeffler, acentuada pela integração da Vitesco Technologies, reflete esta nova realidade. A companhia migrou de um fornecedor clássico para um provedor de soluções sistêmicos. Dessa forma, seu portfólio divulgado na CES 2026 é a materialização desta visão, apresentando desde arquiteturas de controle centralizado até sistemas de direção por fios (steer-by-wire), novos sensores e eletrônica de potência compacta.

Veículo Definido por Software

O coração deste novo veículo é sua arquitetura elétrica/eletrônica (E/E) e, no lugar de dezenas de unidades de controle eletrônico (ECUs) distribuídas, surgem módulos centrais poderosos, como a Unidade de Controle Mestre (MCU) e as Unidades de Controle de Zona (ZCU). Estes atuam como o “cérebro” e o “sistema nervoso” digital, processando dados de dinâmica veicular, gerenciamento térmico e energia em tempo real. Esta centralização reduz drasticamente a complexidade, permite atualizações contínuas over-the-air (pelo ar) e transforma o automóvel em uma plataforma atualizável, análoga a um smartphone sobre rodas.

Na propulsão elétrica, a sistemista exibe eixos motores modulares, como o EMR4, que integram motor, eletrônica de potência e transmissão em um sistema compacto de alta densidade energética. A arquitetura modular permite adaptação a diversas plataformas, com variantes que dispensam terras-raras, reduzindo dependências de recursos críticos.

No chassis, a evolução considera o sistema de direção por fios (steer-by-wire), que elimina a conexão mecânica entre o volante e as rodas. Um atuador no volante, equipado com um sistema de force feedback que inclui uma inovadora freio magnético a pó, simula sensações de direção realistas e adaptáveis. Isso abre espaço para novos conceitos de interior, como volantes retráteis, e é um elo crucial para a direção automatizada.

A eficiência energética, crucial para veículos elétricos, é perseguida diretamente no chassis. O sistema de direção nas rodas traseiras (iRWS), equipado com um sensor indutivo sem ímãs permanentes, aumenta a agilidade em baixa velocidade e a estabilidade em alta, compensando desvantagens de veículos com baterias no assoalho e contribuindo para a segurança ativa. Cada grama de atrito reduzido e cada movimento mais preciso no chassis se traduz em autonomia adicional.

Componentes tradicionais também são reinventados. Motores BLDC (Brushless Direct Current) para aplicações no chassis oferecem alta densidade de potência e segurança funcional. Atuadores eletromecânicos, como os de esferas planetárias, substituem sistemas hidráulicos com maior precisão e menor manutenção. Rolamentos otimizados, como a terceira geração do TriFinity, reduzem o atrito nas rodas, gerando ganhos diretos de eficiência para o powertrain elétrico.

O ápice da integração é visível em módulos como o SuperBox 4-em-1, uma unidade de eletrônica de potência 800V que combina inversor, carregador embarcado, conversor DC-DC e módulos para sistemas de 12V e 48V. Esta consolidação reduz peso, custo e complexidade enquanto habilita funções avançadas como comunicação veículo-rede (V2X).

As baterias são tratadas como sistemas complexos, com monitoramento contínuo do Estado de Carga (SoC) e Estado de Saúde (SoH) via software, gerenciamento térmico avançado e estruturas leves, assegurando performance e longevidade.

Esta abordagem culmina em um ecossistema de software escalável. A plataforma E/E da marca é uma plataforma que permite a criação de novos modelos de negócio baseados em serviços, funções adquiríveis pós-venda e atualizações que prolongam o ciclo de vida do veículo.

Clientes

Para as montadoras, esta transição significa ciclos de desenvolvimento mais ágeis, a possibilidade de manter modelos atualizados por mais tempo e novas fontes de receita com serviços digitais. Para a indústria, o software torna-se um diferenciador estratégico tão crucial quanto a excelência mecânica.

Para os usuários finais, a promessa é de veículos que evoluem, tornando-se mais inteligentes, personalizáveis e eficientes com o tempo, sem a necessidade de visitas à oficina para upgrades físicos.

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