Em meio a um cenário de transformação acelerada no varejo, o mercado de transporte rodoviário de cargas fracionadas (LTL) se prepara para um 2026 de desafios e oportunidades. A análise é de AliceAna Paiva, diretora comercial da Tragetta, empresa com 70 anos de história e origem na fusão das antigas Atlas e Expresso de Jundiaí, que atua exclusivamente no segmento B2B.
A executiva explica que a carga seca fracionada, core do negócio, representa 90% das operações da companhia, atendendo principalmente aos setores eletrônico, automotivo, de laboratórios e bens de consumo. Outros 5% são dedicados ao transporte aéreo e 5% a projetos customizados, que exigem veículos especiais, como os com climatização.
Crescimento seletivo e pressão de custos

“A empresa trabalha com clientes com contratos. Quando aparece algo fora da curva, a gente trabalha isso internamente previamente para não ter ruptura”, afirma. Ela ressalta que a companhia controla rigidamente a expansão para manter o nível de serviço (SLA), chegando a recusar novas demandas se a estrutura atual não for capaz de absorvê-las sem perda de qualidade.
O grande desafio para 2026, no entanto, não será a demanda, mas a pressão sobre os custos. AliceAna destaca que a inflação do setor de transportes tem superado a inflação geral, com a mão de obra apresentando reajustes na casa dos 7%. Somam-se a isso o impacto da nova remuneração da folha de pagamento (entre 5% e 10% em 2026) e os investimentos obrigatórios em segurança cibernética e tecnologia.
“A NTC já divulgou uma carta de recomendação de recomposição tarifária que menciona uma defasagem de 10,88%”, alerta. “Essa questão da rentabilização é um ponto. A gente tem juros elevados, busca por eficiência que custa caro e mão de obra cada vez mais escassa.”
Tecnologia como pilar de governança
Para equilibrar a equação de custos sem repassar todos os aumentos ao cliente final, a Tragetta aposta em tecnologia e eficiência operacional. AliceAna afirma que a tecnologia migrou de um papel de suporte para se tornar um pilar de governança logística.
“Tudo que você vê, quando a gente faz estudos de como melhorar a eficiência, a gente vai olhar para o planejamento”, explica. A empresa utiliza sistemas de roteirização e algoritmos preditivos, muitas vezes com auxílio de IA, para otimizar rotas e aumentar a assertividade das entregas. Um programa interno chamado Rota 7 faz um trabalho de consultoria em parceria com clientes estratégicos, mapeando processos para identificar oportunidades de ganhos compartilhados e mitigação de custos.
Investimentos e perspectivas para 2026
Apesar dos ventos contrários nos custos, a perspectiva para o próximo ano é cautelosamente otimista. “Vamos analisar pelo copo cheio: a perspectiva é que este ano de 26 a gente cresça mais do que 25”, projeta a diretora, citando a expectativa de queda na taxa de juros e a inflação estabilizada como fatores positivos.
Para acompanhar esse crescimento, a Tragetta já tem investimentos em curso, incluindo a ampliação de duas filiais e a renovação de parte de sua frota. Em termos de sustentabilidade, a companhia mantém um projeto piloto com cinco veículos elétricos, mas esbarra nas limitações de autonomia para rotas de longa distância, típicas de sua operação nacional. “Para coletas e para projetos específicos, sim. Mas são projetos customizados, com tabelas diferenciadas”, detalha a diretora.
O setor, portanto, se encaminha para um ano de gestão fina entre o controle de custos operacionais crescentes e a captura de uma demanda que deve continuar em expansão, com a tecnologia atuando como fator crítico para manter a rentabilidade e a eficiência.
